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quinta-feira, 30 de julho de 2026
Notícias de quinta-feira, 30/07/2026
Brasil & ClimaVendavais e Estragos no Sudeste: Um forte avanço de frente fria acompanhado de rajadas de vento acima de 100 km/h causou quedas de árvores, desabamentos e mortes em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mais de um milhão de imóveis chegaram a ficar sem energia elétrica. Apreensão Recorde de Ouro: Uma operação interceptou um avião de um empresário brasileiro na Bolívia transportando 189 kg de ouro em barras, avaliados em cerca de R$ 120 milhões. 🌍 Internacional & Geopolítica Escalada de Conflito no Oriente Médio: Os Estados Unidos lançaram uma nova onda de ataques aéreos contra posições do Irã, aumentando a tensão militar na região. Forte Terremoto no Japão: Um abalo sísmico de magnitude 7,1 atingiu o sul do Japão, provocando o desabamento de prédios e uma explosão em um shopping center. Tecnologia & Segurança: O governo dos EUA baniu a importação e o uso de robôs humanoides e cães-robôs de fabricação chinesa, alegando riscos de segurança e proteção de infraestrutura tecnológica. Hoje na História (30 de Julho) 1930 — O Primeiro Campeão do Mundo: A seleção do Uruguai venceu a Argentina por 4 a 2 na final da 1ª Copa do Mundo de Futebol, consagrando-se como a primeira campeã mundial. 1966 — A Inglaterra Vence em Casa: Em uma final histórica contra a Alemanha Ocidental no Estádio de Wembley, a Inglaterra venceu por 4 a 2 na prorrogação e conquistou seu único título da Copa do Mundo. 1976 — Bronze para João do Pulo: O atleta brasileiro João Carlos de Oliveira (João do Pulo) conquistou a medalha de bronze no salto triplo durante os Jogos Olímpicos de Montreal. 1980 — A Anexação de Jerusalém: O Parlamento de Israel (Knesset) aprovou a lei declarando Jerusalém unificada como capital do país, gerando controvérsia e condenações no Conselho de Segurança da ONU. 2003 — O Fim do Fusca Clássico: A fábrica da Volkswagen em Puebla, no México, produziu o último exemplar do Fusca tradicional (Type 1), encerrando 65 anos de história do icônico modelo.
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Notícias de segunda-feira, 27/07/2026.
Geopolítica e Política Internacional Tensão Leste-Oeste & Oriente Médio: Os preços do petróleo registraram forte volatilidade com os desdobramentos das movimentações de Washington e Teerã. Em paralelo, o presidente dos EUA e lideranças internacionais continuam negociando os termos para um cessar-fogo e a entrada de forças internacionais na Faixa de Gaza.Diplomacia na Ásia: O presidente Lula reuniu-se com lideranças da Ásia — conversando com Xi Jinping sobre parcerias comerciais e a posição do Sul Global frente a sanções, além de receber a comitiva da Coreia do Sul focado no suprimento estratégico de minerais críticos e terras raras. América Latina: O Itamaraty convocou o embaixador argentino após novas declarações ostensivas do governo de Javier Milei contra autoridades brasileiras, tensionando o clima diplomático no Mercosul. Brasil & Clima Alerta Metereológico no Sul: O Sul do Brasil, com destaque para o Rio Grande do Sul, segue sob alerta forte devido ao avanço de novas frentes de chuvas intensas e risco de inundações. Patrimônio Cultural: A Unesco selecionou teatros históricos de Manaus e Belém, símbolos da era da borracha, como novos Patrimônios Culturais da Humanidade. Hoje na História: 27 de Julho 1792 Nasce Maria Quitéria, heroína da Guerra da Independência do Brasil e primeira mulher a fazer parte das Forças Armadas brasileiras.1794 Revolução Francesa: Maximilien Robespierre é preso após a Reação Termidoriana, marcando o fim do Período do Terror.1890 O pintor pós-impressionista Vincent van Gogh dispara contra o próprio peito em Auvers-sur-Oise, vindo a falecer dois dias depois. 1921 Os cientistas Frederick Banting e Charles Best isolam a insulina na Universidade de Toronto, revolucionando o tratamento do diabetes.1953 Assinado em Panmunjon o Armistício da Guerra da Coreia, encerrando três anos de combates diretos na península.1970 Morre António de Oliveira Salazar, ditador que governou Portugal por quase quatro décadas sob o regime do Estado Novo.1996 Atentado nos Jogos Olímpicos de Atlanta: Uma bomba explode no Centennial Olympic Park, deixando dois mortos e mais de uma centena de feridos.
terça-feira, 14 de julho de 2026
Notícias do momento, terça-feira, 14/07/2026
O cenário político nacional e os movimentos de segurança pública concentram as atenções no dia de hoje:Restrições Políticas: O ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a proibição de visitas do senador Flávio Bolsonaro a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, pelo prazo de 90 dias. A decisão ocorreu após a divulgação pública de uma carta. Investigações e Emendas: O estado de Minas Gerais está sob os holofotes com a revelação de repasses que somam R$ 130 milhões provenientes de "emendas sem autoria" (conhecidas popularmente como emendas Pix sem identificação clara de origem). Trabalho Análogo à Escravidão: Dados recentes apontam um salto alarmante de 135% nos resgates de trabalhadores em condições análogas à escravidão no país, acendendo alertas nas pastas de direitos humanos e fiscalização do trabalho. Clima e Geada: O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmou a previsão de forte queda nas temperaturas na região Sul do país, com riscos elevados de geada moderada a forte em diversos pontos de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.
Hoje na História: 14 de Julho Este dia carrega um dos marcos mais transformadores da história ocidental moderna, além de importantes efemérides culturais e científicas:
1789 — A Queda da Bastilha (Início da Revolução Francesa) A população de Paris tomou de assalto a fortaleza e prisão da Bastilha, o maior símbolo do absolutismo monárquico francês. A queda da prisão real — que na verdade abrigava poucos presos na ocasião, mas continha pólvora e representava a opressão da Coroa — marcou o estopim da Revolução Francesa e estabeleceu as bases históricas para a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Por conta disso, hoje também é celebrado o Dia Mundial da Liberdade de Pensamento. Outros fatos históricos marcantes deste dia: 1909 — Inauguração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro: Um dos mais imponentes palcos de ópera e balé da América Latina abria suas portas em plena Avenida Central (hoje Rio Branco), inspirado na Ópera de Paris. 1918 — Nascimento de Ingmar Bergman: Nascia na Suécia um dos cineastas mais influentes da história do cinema mundial, diretor de obras-primas existenciais como O Sétimo Selo e Morangos Silvestres.1933 — Ascensão do Totalitarismo: Na Alemanha, o partido nazista proibiu o funcionamento de todas as demais agremiações políticas de oposição, consolidando o regime de partido único sob o comando de Adolf Hitler. 2015 — Encontro com Plutão: A sonda espacial New Horizons, da NASA, realizou seu histórico sobrevoo rasante por Plutão, enviando as primeiras imagens detalhadas de alta resolução do planeta anão e revelando sua famosa planície gelada em formato de coração.
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Principais Notícias da Semana (Até 22 de Abril de 2026)
O cenário internacional e o monitoramento climático dominaram as manchetes nos primeiros dias desta semana.
Geopolítica Tensa no Oriente Médio: O presidente dos EUA, Donald Trump, estendeu o cessar-fogo com o Irã sem prazo definido, atendendo a um pedido do Paquistão. No entanto, o Irã minimizou a medida, afirmando que o bloqueio naval contínuo é "equivalente a um bombardeio" e ameaçou a produção de petróleo de países vizinhos do Golfo. Militares de mais de 30 países estão reunidos em Londres para planejar uma missão multinacional para reabrir o Estreito de Ormuz, via crucial para o comércio global de petróleo.
Clima e Riscos no Brasil: O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) emitiu alertas de riscos geo-hidrológicos para esta quarta-feira, com atenção especial para possíveis eventos nas regiões Norte (Amazonas e Pará). O monitoramento de secas e impactos de extremos climáticos continua sendo prioridade para o país.
Política e Judiciário Brasileiro: A pauta no STF (Supremo Tribunal Federal) está aquecida. A Segunda Turma julga hoje a prisão de um ex-presidente do BRB. Além disso, formou-se maioria no tribunal pela condenação de Eduardo Bolsonaro por difamação contra a deputada Tabata Amaral. Em outra frente, o governador Ronaldo Caiado declarou apoio ao projeto que equipara a misoginia ao crime de racismo.
Ciência e Exploração Espacial: A semana também trouxe perspectivas avançadas para 2026. Espera-se a retomada das missões da SpaceX para Marte, o avanço da missão Artemis II da NASA para colocar humanos na Lua, e o lançamento da sonda chinesa Chang'e-7 para buscar água no polo sul lunar. No campo da tecnologia, prevê-se o desenvolvimento da biofabricação livre de células e o avanço da computação quântica prática.
Acontecimentos Históricos de 22 de Abril
Esta data carrega um significado profundo para a história do Brasil e do mundo.
1500 – Chegada dos Portugueses ao Brasil: Este é o acontecimento histórico mais marcante da data para nós. A expedição liderada por Pedro Álvares Cabral avistou o Monte Pascoal no litoral da Bahia, marcando o início da colonização portuguesa no território que viria a ser o Brasil. O evento é popularmente conhecido como o "descobrimento do Brasil".
1970 – Primeiro Dia da Terra: O primeiro Dia da Terra foi celebrado nos Estados Unidos, marcando o nascimento do movimento ambientalista moderno. Milhões de pessoas participaram de manifestações em defesa de um ambiente saudável e sustentável, levando à criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA e à aprovação de leis pioneiras sobre ar e água limpos.
1915 – Primeiro Uso Massivo de Gás Venenoso na Guerra: Durante a Primeira Guerra Mundial, na Segunda Batalha de Ypres, o exército alemão utilizou gás cloro em larga escala contra as tropas aliadas. Esse evento trágico marcou o início da guerra química moderna, resultando em milhares de vítimas e mudando a natureza do conflito.
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Notícias de Hoje (16/04/2026)
Brasil & Economia
Salário Mínimo 2027: O governo apresentou a proposta orçamentária projetando o salário mínimo em R$ 1.717 para o próximo ano.
Bolsa Família: O calendário de pagamentos de abril começa oficialmente hoje para os beneficiários com NIS final 1.
Imposto de Renda: A Receita Federal atingiu a marca de 11 milhões de declarações entregues até o início desta manhã.
Política: O ex-deputado Alexandre Ramagem foi solto nos Estados Unidos após passar dois dias detido pelo serviço de imigração (ICE).
Mundo & Tensões
Conflito no Leste Europeu: Caças da OTAN interceptaram um avião de espionagem russo nas últimas horas. Em paralelo, a Rússia se ofereceu para ampliar o fornecimento de energia para a China.
EUA vs. Irã: Washington anunciou novas sanções ao petróleo iraniano, enquanto negociações sobre o programa nuclear do país seguem em impasse (o Irã aceita suspensão de 5 anos, enquanto os EUA exigem 20).
Ciência & Meio Ambiente
Monitoramento Climático: O Cemaden emitiu alertas de riscos geo-hidrológicos para diversas regiões do Brasil, com atenção especial ao monitoramento de secas e eventos extremos.
Curiosidade Biológica: Um fenômeno no Congo chamou a atenção de pesquisadores hoje: milhares de peixes foram documentados "escalando" uma cachoeira, desafiando a gravidade.
Hoje na História
O dia 16 de abril carrega um peso histórico significativo em diversas áreas:
1889 — Nascimento de Charlie Chaplin: Nascia em Londres um dos maiores gênios da história do cinema, o eterno "Vagabundo".
1943 — A descoberta do LSD: O químico suíço Albert Hofmann consumiu acidentalmente uma pequena quantidade de dietilamida do ácido lisérgico, descobrindo seus efeitos alucinógenos.
1948 — Fundação da OECE: Criada a Organização para a Cooperação Econômica Europeia (precursora da atual OCDE) para gerir o Plano Marshall após a Segunda Guerra.
1961 — Cuba Socialista: Em um discurso histórico, Fidel Castro declarou o caráter socialista da Revolução Cubana e sua adesão ao marxismo-leninismo.
1972 — Rumo à Lua: Lançamento da missão Apollo 16, a décima missão tripulada do programa espacial dos EUA, enviando o módulo lunar "Orion" para as terras altas de Descartes.
1927 — Nascimento de Bento XVI: Nascia Joseph Ratzinger, que viria a ser o Papa Bento XVI.
quarta-feira, 11 de março de 2026
Jovens Campeões da Terra 2026
O protagonismo juvenil no combate à crise climática não é apenas uma tendência, mas um movimento estruturado que combina inovação tecnológica, justiça social e novos modelos de negócio.
O prêmio Jovens Campeões da Terra 2026, lançado recentemente pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), é o maior exemplo dessa força. Vamos aprofundar o que está em jogo este ano e o impacto real dessas iniciativas:
1. A Convocatória 2026: O que mudou?
Este ano, o foco está na "Tripla Crise Planetária": mudança climática, perda de biodiversidade e poluição.
Apoio Financeiro: Os selecionados recebem US$ 10.000 em financiamento semente, mas em 2026 há uma novidade: os vencedores competem em Nova York por uma bolsa adicional de até US$ 100.000 da fundação Planet A.
Além do Dinheiro: O prêmio oferece mentoria intensiva e acesso a uma rede VIP de líderes globais, transformando uma ideia local em uma solução escalável internacionalmente.
2. O Brasil no Cenário Global
O Brasil tem um histórico forte nesta premiação, com projetos que atacam problemas específicos da nossa geografia:
Semiárido: Tecnologias como o Aqualuz (purificação de água por radiação solar) e projetos de habitação sustentável já foram finalistas, mostrando que a juventude brasileira está focada em soluções de baixo custo e alto impacto social.
Energia e Bioeconomia: Iniciativas como a Revolusolar (energia solar em favelas) e o rastreamento de biodiversidade via blockchain colocam o país na fronteira da inovação verde.
3. Tendências do Empreendedorismo Jovem em 2026
De acordo com relatórios recentes (como o Youth Pulse 2026), os jovens estão redefinindo o conceito de sucesso profissional:
Propósito sobre Lucro: Mais de 60% dos jovens empreendedores priorizam o impacto ambiental.
Tecnologia Regenerativa: Diferente da tecnologia "extrativa", a nova geração foca em IA para agricultura de precisão, robótica para limpeza de oceanos e biomateriais (como tijolos feitos de plástico reciclado).
Adaptação Local: Há um movimento forte de "Arquitetura para Adaptação", criando infraestruturas que suportem eventos climáticos extremos em comunidades vulneráveis.
Como Participar ou Apoiar?
Se você conhece alguém entre 18 e 30 anos com um projeto ambiental que já funcione há pelo menos 6 meses, as inscrições para o prêmio da ONU estão abertas até o dia 31 de março de 2026.
O Brasil tem um histórico inspirador no prêmio Jovens Campeões da Terra, com projetos que unem ciência de ponta e impacto social profundo.
Aqui estão os destaques de brasileiros que já foram premiados ou reconhecidos pela ONU por suas soluções inovadoras:
Anna Luísa Beserra – Projeto Aqualuz (Vencedora 2019)
Anna foi a primeira brasileira a vencer o prêmio global. Natural da Bahia, ela desenvolveu aos 15 anos o Aqualuz, um dispositivo de baixo custo que utiliza apenas a luz do sol (radiação UV) para tornar a água da chuva potável em cisternas do semiárido.
O impacto: Substitui o uso de cloro e a fervura, eliminando 99,9% das bactérias. O sistema é feito de materiais simples e pode durar até 20 anos.
Curiosidade: O projeto passou por 10 versões antes de chegar ao modelo final que hoje beneficia centenas de famílias.
Eduardo Ávila – Projeto Revolusolar (Finalista 2020)
O carioca Eduardo Ávila foi finalista regional com a Revolusolar, uma organização que leva energia solar para comunidades e favelas do Rio de Janeiro (como a Babilônia e o Chapéu Mangueira).
O diferencial: Além de instalar painéis, o projeto capacita os moradores locais como instaladores solares, criando uma economia circular e reduzindo drasticamente as contas de luz para famílias de baixa renda.
Bárbara Schorchit – Genecoin (Finalista 2019)
Bárbara focou na interseção entre tecnologia e biodiversidade. Seu projeto utiliza blockchain para rastrear o uso de recursos genéticos da flora brasileira em cadeias industriais.
O objetivo: Garantir que empresas que utilizam plantas brasileiras para criar cosméticos ou remédios paguem compensações justas e transparentes às comunidades locais e aos detentores do conhecimento tradicional.
Destaque Adicional: Campeões da Terra (Sênior)
Embora não seja da categoria "Jovem", vale mencionar que em 2024, a ministra Sônia Guajajara venceu o prêmio principal da ONU na categoria Liderança Política, e em 2025, o instituto brasileiro Imazon foi premiado na categoria Ciência e Inovação pelo uso de IA e satélites para monitorar o desmatamento em tempo real.
segunda-feira, 9 de março de 2026
Qual o legado da COP30?
O legado da COP30, realizada em Belém no final de 2025, é visto hoje, em março de 2026, não apenas como um evento que passou, mas como o início de uma nova era para a governança climática global e o desenvolvimento da Amazônia.
O grande diferencial dessa conferência foi o deslocamento do eixo de decisão para o coração da floresta, o que forçou o mundo a encarar a realidade local.
1. O Legado da "Diplomacia da Floresta"
A COP30 consolidou o Brasil como o mediador definitivo entre as potências globais e as nações em desenvolvimento.
• A Voz das Comunidades: Pela primeira vez, o conhecimento tradicional indígena e quilombola foi integrado aos protocolos de decisão sobre o clima, deixando de ser apenas um "painel paralelo" para se tornar parte do texto oficial de conservação.
• A "Missão Belém": O acordo final estabeleceu metas mais rígidas para o financiamento climático, garantindo que o dinheiro chegue diretamente às mãos de quem protege a floresta, o chamado "pagamento por serviços ambientais".
2. Infraestrutura e Bioeconomia em Belém
Para sediar o evento, a capital paraense passou por uma transformação urbana que permanece como herança para a população:
• Parque da Cidade: O antigo aeroporto transformado em um enorme pulmão verde e centro de inovação tornou-se o hub de pesquisas em Bioeconomia.
• Saneamento e Mobilidade: Investimentos estruturantes em saneamento básico e transporte sustentável (como frotas de ônibus elétricos) melhoraram a qualidade de vida imediata dos paraenses.
• Turismo Regenerativo: Belém se consolidou no mapa do turismo internacional sustentável, atraindo visitantes que buscam experiências de baixo impacto e alto valor cultural.
3. O Marco da Descarbonização
A COP30 foi o momento do "balanço global" onde os países tiveram que apresentar novas metas (as NDCs - Contribuições Nacionalmente Determinadas).
• O "Pacto Amazônia": O Brasil reafirmou e acelerou o compromisso com o desmatamento zero.
• Hidrogênio Verde: O evento serviu de vitrine para a indústria brasileira de energia limpa, atraindo investimentos para plantas de hidrogênio verde no Nordeste, conectando a conservação da Amazônia com a revolução energética nacional.
4. Ciência e Tecnologia Aplicada
O legado científico inclui o fortalecimento de redes de monitoramento via satélite em tempo real e o incentivo à indústria de bioprodutos (cosméticos, farmacêuticos e alimentícios) feitos a partir da biodiversidade amazônica, gerando renda sem derrubar uma única árvore.
Com foco no que há de mais inovador pós-COP30, os projetos de Bioeconomia e os novos mecanismos de financiamento estão mudando a lógica de como o valor da floresta é calculado e distribuído.
Aqui estão os pontos centrais dessa transformação em 2026:
1. Bioeconomia: O "Vale do Silício" da Biodiversidade
O grande legado prático em Belém foi a consolidação do Centro de Inovação da Biodiversidade (CIB). O foco não é apenas extrair, mas processar e criar tecnologia na região:
• Cosméticos de Alta Performance: Empresas brasileiras e internacionais criaram laboratórios avançados em solo paraense para desenvolver ativos de regeneração celular baseados em enzimas de fungos e plantas amazônicas, garantindo que a maior parte do lucro da cadeia produtiva fique com as comunidades locais.
• Superalimentos Processados: A verticalização da cadeia do açaí, cacau nativo e óleos de palmeiras (como o buriti) agora utiliza rastreabilidade por Blockchain. Isso permite que o consumidor final saiba exatamente de qual comunidade o produto veio e qual o impacto social gerado.
• Fibras Têxteis Sustentáveis: O uso de fibras de curuá e malva para a indústria da moda global, substituindo sintéticos por materiais que capturam carbono durante seu crescimento.
2. Financiamento: O Dinheiro que "Brota" da Floresta
A COP30 destravou mecanismos financeiros que antes eram teóricos, tornando-os ferramentas diárias:
• Títulos Soberanos Verdes: O governo brasileiro emitiu novos títulos de dívida atrelados especificamente a metas de preservação. Se o desmatamento cai, os juros da dívida diminuem, revertendo a economia para mais investimentos sociais.
• Créditos de Biodiversidade (Bio-Credits): Diferente do crédito de carbono (que foca na poluição), este novo mecanismo paga pela manutenção da vida. Fazendas e reservas que comprovam o aumento da fauna e flora recebem pagamentos diretos de fundos globais.
• Fundo Amazônia 2.0: O fundo foi ampliado e agora financia diretamente o empreendedorismo de base, como cooperativas de jovens ribeirinhos que usam tecnologia para monitoramento florestal e logística fluvial de baixo impacto.
O Impacto no Dia a Dia
Esses avanços significam que, em 2026, a preservação deixou de ser um custo e passou a ser um ativo econômico. Para as populações locais, isso se traduz em empregos qualificados, internet de alta velocidade via satélite para gestão da floresta e infraestrutura urbana sustentável.
Curiosidade: Já existem "startups da floresta" lideradas por jovens indígenas que utilizam drones e IA para identificar o momento exato da colheita de sementes raras, otimizando a produção sem interferir no ciclo natural.
O Dinheiro que "Brota" da Floresta
O conceito do "dinheiro que brota da floresta" representa uma mudança de paradigma: a transição de uma economia de exploração para uma economia de regeneração. Em 2026, esse modelo se sustenta em três pilares financeiros principais que tornam a floresta em pé muito mais lucrativa do que qualquer atividade predatória.
Aqui está o aprofundamento sobre como esses mecanismos funcionam na prática:
1. Créditos de Biodiversidade vs. Créditos de Carbono
Enquanto o crédito de carbono foca apenas na mitigação de gases estufa, os Créditos de Biodiversidade são a grande inovação pós-COP30.
• O que são: Unidades de valor que representam a preservação de ecossistemas inteiros.
• Como funciona: Uma empresa europeia, por exemplo, para compensar seu impacto ambiental global, compra esses créditos de comunidades que comprovadamente aumentaram a população de espécies nativas ou recuperaram nascentes.
• Impacto local: O recurso vai direto para o "guardião" (o produtor rural ou a comunidade indígena), criando uma renda fixa baseada no sucesso da preservação.
2. Títulos Soberanos e de Impacto (Green Bonds)
O Brasil consolidou o uso de títulos da dívida pública atrelados a metas ambientais.
• Mecanismo de Recompensa: Se o país atinge metas rigorosas de redução de desmatamento, os juros que ele paga aos investidores internacionais diminuem.
• O Ciclo Positivo: A economia gerada pelo pagamento de juros menores é reinvestida em infraestrutura sustentável na própria região amazônica, criando um ciclo onde a preservação financia o desenvolvimento urbano e social.
3. Pagamento por Serviços Ambientais (PSA)
Este mecanismo reconhece que quem vive na floresta presta um serviço ao mundo (limpeza do ar, ciclo das águas, regulação térmica).
• Bolsa Floresta 2.0: Programas governamentais e privados que pagam mensalmente a famílias ribeirinhas e pequenos agricultores para que eles monitorem áreas de reserva e adotem sistemas agroflorestais (plantio de comida misturado com árvores nativas).
• Rastreabilidade: Através de satélites e sensores de baixo custo, o pagamento é liberado automaticamente via moedas digitais ou sistemas de transferência instantânea assim que a preservação da área é validada.
4. O Fundo Amazônia e o Venture Capital "Verde"
O financiamento não vem mais apenas de doações de países ricos, mas de investimento de risco:
• Aceleração de Bio-Startups: Fundos de investimento agora buscam empresas que extraem valor da biodiversidade sem destruí-la (como a produção de fibras têxteis a partir de resíduos de frutas ou fármacos baseados em venenos de insetos).
• Seguros Ambientais: Novas modalidades de seguro protegem o produtor sustentável contra quebras de safra causadas por mudanças climáticas, incentivando a migração da pecuária extensiva para a integração lavoura-pecuária-floresta.
Por que isso é revolucionário? Pela primeira vez, a lógica econômica está alinhada com a biológica. O financiamento atual trata a natureza como um ativo de capital vivo. Isso significa que, se a floresta morre, o investimento perde valor; se ela prospera, o investidor e a comunidade local ganham.
Reflexão: O legado da COP30 não é um documento guardado na gaveta, mas sim a percepção de que a floresta em pé vale muito mais do que derrubada, tanto para o bolso quanto para o pulmão do planeta.
sexta-feira, 6 de março de 2026
IA a favor do Clima
O aprofundamento sobre a IA a favor do clima revela que estamos vivendo o que especialistas chamam de "O Ano da Convergência" (2026). A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de processamento de dados para se tornar o sistema operacional da transição energética global.
Aqui estão os três pilares principais desse avanço:
1. Previsão Meteorológica de Ultraprecisão (DeepMind GenCast)
Modelos como o GenCast e o GraphCast (da Google DeepMind) estão revolucionando a forma como lidamos com a intermitência das energias renováveis.
Eficiência Eólica: Ao prever ventos com 97% de precisão, a IA permite que operadoras de parques eólicos ajustem as turbinas em tempo real, maximizando a geração de energia e evitando desperdícios.
Alertas de Extremos: Em 2026, o Brasil implementou o Sipec (Sistema Inteligente de Previsão de Extremos Climáticos), que utiliza IA para prever desastres naturais com até 12 meses de antecedência, permitindo uma resposta muito mais rápida e humana.
2. Otimização de Redes Elétricas (Smart Grids)
A IA atua como um "maestro" para as redes de energia, equilibrando a oferta e a demanda de forma dinâmica.
Capacidade de Transmissão: Estudos recentes mostram que a IA pode liberar até 175 GW de capacidade em redes já existentes apenas otimizando o fluxo, sem a necessidade de construir novos cabos ou infraestruturas pesadas.
Manutenção Preditiva: Algoritmos identificam falhas em transformadores ou linhas de transmissão antes mesmo que ocorram, reduzindo apagões e custos operacionais.
3. O Paradoxo da "IA Verde" (Green AI)
Embora a IA consuma muita energia, a tendência de 2026 é o PNAV (Programa Nacional de Algoritmos Verdes).
Eficiência no Código: Desenvolvedores agora utilizam técnicas para que os modelos de IA sejam "leves" desde a sua criação, reduzindo a pegada de carbono durante o treinamento.
Data Centers Sustentáveis: Gigantes da tecnologia estão usando a própria IA para resfriar data centers de forma mais eficiente, reduzindo o uso de água e eletricidade em até 40%.
Por que isso é importante hoje?
No Brasil, o desafio é alinhar a nossa matriz (que já é 90% renovável) com a explosão de demanda por novos centros de dados. A IA não é apenas a causa do aumento de consumo, mas a principal solução para gerenciar esse crescimento de forma sustentável.
Em 2026, a "IA Doméstica" e para PMEs amadureceu muito, focando em eficiência invisível.
Aqui estão as formas práticas de aplicar essa inteligência para reduzir o consumo de energia hoje mesmo:
Para sua Casa: O "Cérebro" da Economia
Não se trata mais apenas de apagar a luz, mas de deixar a casa decidir o momento mais barato para consumir.
Termostatos e Ar-Condicionado Preditivos: Modelos atuais usam IA para aprender sua rotina e, mais importante, cruzam dados com a previsão do tempo. Se a IA sabe que vai esquentar às 14h, ela resfria a casa gradualmente pela manhã (quando a tarifa pode ser menor ou a eficiência do aparelho é maior), evitando o pico de consumo.
Tomadas Inteligentes com Monitoramento de "Carga Fantasma": Muitos aparelhos consomem energia mesmo desligados (standby). Tomadas com IA identificam esse padrão e cortam a corrente totalmente quando detectam que o aparelho não será usado nas próximas horas.
Apps de Gestão Energética: Aplicativos vinculados às distribuidoras agora usam IA para analisar seu histórico e sugerir mudanças reais. Exemplo: "Se você mudar o ciclo da máquina de lavar para as 10h da manhã, economizará 15% este mês devido à maior oferta de energia solar na rede."
Para Pequenas e Médias Empresas (PMEs)
Para quem tem um comércio ou escritório, a IA é uma ferramenta de gestão financeira disfarçada de tecnologia.
Iluminação Adaptativa por Visão Computacional: Sensores comuns de movimento falham muito. A IA usa câmeras simples para entender o fluxo de pessoas e ajustar a intensidade da luz (dimmer) de forma suave, economizando até 30% em escritórios.
Sistemas de Refrigeração Inteligente (para Mercados e Restaurantes): Algoritmos monitoram a abertura de portas de geladeiras e freezers, ajustando a potência do compressor de acordo com o movimento da loja, evitando que o motor trabalhe no máximo sem necessidade.
Auditoria de Faturas via IA: Existem plataformas que analisam suas contas de luz dos últimos 12 meses, detectam cobranças indevidas de reatividades ou sugerem a migração para o Mercado Livre de Energia, que em 2026 está muito mais acessível para pequenas cargas.
Dica de Ouro: A Regra do "Horário de Pico"
A maior economia hoje vem de evitar o consumo entre 18h e 21h.
O que você pode fazer agora: Verifique se o seu contrato de energia permite a Tarifa Branca. Se sim, use um assistente virtual (como eu ou dispositivos de automação) para programar tarefas pesadas (lavar louça, secar roupa) para o período da manhã ou madrugada.
Para colocar a economia de energia em prática agora em 2026, o mercado brasileiro oferece opções que vão de gadgets acessíveis a sistemas de gestão completa. A grande mudança deste ano é a integração total com assistentes (Alexa/Google) e a chegada de plataformas que usam IA para analisar dados diários, não apenas mensais.
Aqui está a lista curada dos melhores recursos disponíveis no Brasil:
1. Gadgets de "Entrada" (Custo-Benefício)
Esses dispositivos são o primeiro passo para automatizar a economia.
Tomada Inteligente Ekaza 16A (com Medidor): Considerada a melhor custo-benefício de 2026. Diferente das comuns, ela aguenta aparelhos mais pesados (como cafeteiras e algumas airfryers) e mostra no celular o consumo em Reais.
Positivo Smart Plug Max: Ideal para quem quer simplicidade. O app da Positivo já sugere rotinas de desligamento automático para aparelhos em standby.
Smart Controle Universal (BroadLink ou Intelbras): Transforma seu ar-condicionado "antigo" em inteligente. Você pode programar para ele desligar automaticamente se a temperatura externa cair (via IA do app), economizando horas de motor ligado sem necessidade.
2. Aplicativos e Plataformas de Gestão
A IA agora "lê" sua conta e seus aparelhos para dar dicas preditivas.
SEMS+ (GoodWe): Lançada recentemente no Brasil, essa plataforma usa IA para monitorar o consumo em tempo real. Ela é excelente para quem tem painéis solares, mas também funciona para gerenciar o consumo de PMEs, identificando picos de gasto antes da conta chegar.
Apps das Concessionárias (Enel, CPFL, Light): Em 2026, as distribuidoras começaram a liberar a instalação de Medidores Inteligentes (projeto AMI). Se você já tem um, o app da sua conta de luz agora oferece gráficos de consumo por hora, permitindo que você identifique exatamente qual aparelho é o "vilão" da casa.
Ecossistema Tapo (TP-Link): Os novos sensores e lâmpadas (como a L535E) já vêm com o protocolo Matter, o que significa que eles conversam entre si sem travamentos, criando cenas de iluminação que se ajustam sozinhas à luz solar da sua janela.
3. Para Pequenas Empresas (Soluções Robustas)
Energia das Coisas: Uma startup brasileira que instala sensores nos quadros elétricos. A IA deles "escuta" a assinatura elétrica de cada máquina e avisa se um freezer está com defeito ou gastando mais que o normal.
Ampera Consumo: Um dispositivo que unifica a gestão de energia solar e consumo da rede, enviando alertas via WhatsApp sobre oportunidades de economia.
Checklist para economizar hoje:
Instale uma Tomada com Medidor na geladeira ou no setup do computador por uma semana. Você vai se surpreender com o gasto oculto.
Verifique a "Tarifa Branca" no app da sua distribuidora. Se você trabalha fora e consome mais energia à noite ou de manhã cedo, essa migração pode reduzir sua conta em até 20%.
Use Rotinas de Localização: Configure seu celular para desligar as tomadas inteligentes automaticamente quando você se afastar mais de 100m de casa.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
O "Novo Normal" é Extremo: A Tragédia em Juiz de Fora e Ubá como Reflexo do Colapso Climático
O cenário de devastação que se desenhou em Juiz de Fora e Ubá nesta última semana de fevereiro de 2026 não é apenas um episódio de "azar" meteorológico. Com um saldo trágico que já ultrapassa 55 mortes e milhares de desabrigados, a catástrofe na Zona da Mata mineira serve como um alerta ruidoso: a crise climática não é uma ameaça futura, mas uma realidade que está redefinindo os limites da sobrevivência urbana no Brasil.
Números que desafiam a história
Em Juiz de Fora, o volume de chuva acumulado em apenas 24 dias de fevereiro chegou a 589,6 mm — quase o triplo da média histórica para o mês (170 mm). Em Ubá, a força da água fez o rio que corta a cidade atingir a marca histórica de 7,82 metros, varrendo comércios e casas.
Especialistas do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) explicam que o fenômeno foi potencializado por uma combinação explosiva: massas de ar excessivamente quentes e úmidas encontrando frentes frias, tudo alimentado por oceanos com temperaturas acima da média. Esse "combustível" extra na atmosfera é uma assinatura direta do aquecimento global.
A Anatomia do Desastre
A relação entre o que ocorreu em Minas Gerais e a crise climática global pode ser resumida em três pilares fundamentais:
Intensificação de Eventos Extremos: A ciência climática já previa que chuvas que antes ocorriam uma vez a cada 50 ou 100 anos se tornariam anuais. A atmosfera mais quente retém mais umidade, resultando em "bombas d'água" como a que caiu sobre Juiz de Fora, onde 150 mm foram registrados em poucas horas.
Vulnerabilidade Geográfica e Urbana: Juiz de Fora é hoje a 9ª cidade do Brasil com maior população em áreas de risco. O relevo acidentado da região, somado à ocupação de encostas, cria uma armadilha mortal quando o solo fica saturado por volumes de chuva sem precedentes.
O Custo da Inação Política: Enquanto a crise climática acelera, a prevenção parece caminhar a passos lentos. Relatos apontam que a verba estadual para prevenção de desastres em Minas Gerais sofreu cortes severos nos últimos anos, evidenciando um descompasso entre a urgência da natureza e as prioridades orçamentárias.
"Quando falamos de extremos e riscos ambientais, estamos falando de mudanças climáticas. Não há mais como separar o planejamento urbano da agenda ambiental," afirma o geógrafo Miguel Felippe, da UFJF.
Além da Lama: O Trauma Invisível
Para além da destruição material, a tragédia de 2026 expõe o impacto psicológico da crise. Famílias em Ubá e Juiz de Fora agora vivem sob a constante "ecoansiedade" — o medo paralisante de que qualquer nuvem escura signifique a perda de tudo o que restou.
Conclusão
O que aconteceu na Zona da Mata é um microcosmo do que o planeta enfrenta. Juiz de Fora e Ubá não são casos isolados, mas peças de um dominó que está caindo em escala global. A reconstrução dessas cidades exigirá mais do que asfalto e concreto; exigirá uma adaptação profunda às novas regras de um clima que não aceita mais negligência.
1. Juiz de Fora: Quebra de Recordes Seculares
Juiz de Fora vive o mês mais chuvoso de sua história desde o início das medições oficiais (1961), superando marcos de décadas anteriores.
Acumulado Mensal (até 26/02): 743,3 mm.
Comparação com a Média: O volume registrado é cerca de 435% superior à média histórica de fevereiro (170,3 mm).
Pico de Intensidade: No dia 22 de fevereiro, a região do campus da UFJF registrou 70 mm em apenas uma hora.
Recordes Anteriores Superados:
Fevereiro de 1988: 456 mm.
Janeiro de 1985: 715,4 mm (era o recorde absoluto de qualquer mês, agora superado por fev/2026).
2. Ubá: O Fenômeno da "Bomba d'Água"
Em Ubá, o desastre foi caracterizado pela concentração extrema em um curtíssimo espaço de tempo, o que impediu qualquer escoamento eficiente.
Precipitação Relâmpago: 170 mm registrados em apenas 3 horas e meia.
Nível do Rio Ubá: Atingiu a marca crítica de 7,82 metros, causando o transbordamento imediato e inundações em áreas comerciais e residenciais.
3. Dinâmica Meteorológica (Causas)
A tragédia foi potencializada por três fatores técnicos principais identificados pelo Inmet e Cemaden:
Supercélula de Tempestade: Formação de nuvens de grande desenvolvimento vertical alimentadas por um sistema de baixa pressão no litoral do Sudeste.
Bloqueio Atmosférico: Uma circulação em altitude (200 hPa) manteve as nuvens estacionadas sobre a Zona da Mata, impedindo que a frente fria avançasse rapidamente.
Saturação do Solo: Como a cidade já estava com 170% acima da média antes do temporal do dia 22, o solo não tinha mais capacidade de absorção, convertendo cada gota de chuva em enxurrada e pressão sobre as encostas.
4. Impacto Humano Atualizado (27/02/2026)
Total de Óbitos,64 (Juiz de Fora e Ubá);
Desabrigados/Desalojados,+5.000 pessoas;
Ocorrências de Defesa Civil,432 registros (Recorde histórico);
Cota do Rio Paraibuna (JF),4 metros acima do nível habitual.
Nota Técnica: A recorrência desses "rios voadores" e sistemas de baixa pressão travados sobre áreas urbanas é um indicador direto do aumento da energia térmica na atmosfera, uma das assinaturas mais claras do aquecimento global antropogênico.
Análise dos Padrões de Desastre
A comparação revela mudanças drásticas na forma como a natureza tem se manifestado:
1. A Escala do Acumulado (O Recorde de Juiz de Fora)
Enquanto a tragédia de 2011 na Região Serrana foi marcada por uma "parede de água" em uma única noite, o evento de Juiz de Fora (2026) se destaca pelo volume acumulado absurdo (743,3 mm). Isso mostra que a atmosfera agora consegue carregar e descarregar volumes de água que antes seriam distribuídos por três ou quatro meses de verão em apenas 20 e poucos dias.
2. A Eficiência da Destruição (Ubá vs. Petrópolis)
O evento de Ubá se assemelha muito ao de Petrópolis (2022) pela rapidez. Em ambos os casos, o volume de chuva em 3 horas foi superior ao esperado para o mês inteiro. A diferença é que, em Ubá, o relevo canalizou a água para as calhas dos rios urbanos (transbordamento), enquanto em Petrópolis a energia foi dissipada em quedas de encostas (movimentação de solo).
3. Saturação Crônica
Diferente de 2011, onde o solo foi pego "de surpresa", o desastre de 2026 na Zona da Mata ocorreu após semanas de chuva persistente. Isso indica que a infraestrutura de drenagem urbana, projetada para médias do século XX, é agora tecnicamente obsoleta para suportar o solo saturado por tanto tempo.
segunda-feira, 21 de julho de 2025
O cocar sagrado, o tarifaço de Trump e a democracia brasileira
Mal comemoramos a união do país contra o tarifaço de Donald Trump – que tem o objetivo explícito de atacar a Justiça e a democracia brasileira –, já amanhecemos cobertos de vergonha pela sessão da Câmara que aprovou o projeto de licenciamento que fez a legislação ambiental brasileira retroceder 60 anos em uma madrugada.
A pesquisa Quaest capturou o momento de convergência em defesa da soberania do país: 72% dos entrevistados consideram que o presidente dos Estados Unidos está errado em impor tarifas para defender Jair Bolsonaro de uma suposta caça às bruxas. Mais da metade (53%) também considera que Lula está certo se reagir aplicando a Lei de Reciprocidade.
A aprovação do PL da devastação, porém, foi um vexame internacional. Não apenas pelo efeito demolidor que tem sobre o clima e o ambiente, a menos de quatro meses da COP30 em Belém, presidida pelo Brasil e antagonizada pelos Estados Unidos (sobre isso leia a ótima coluna de Giovana Girardi), mas também pelas circunstâncias em que a votação se deu.
Em sessão esvaziada na Câmara, que aprovou o PL da destruição às 3h40 da quinta-feira passada, a única deputada indígena na Câmara, Célia Xacriabá, foi ridicularizada pelos colegas de parlamento por portar o cocar sagrado Fulniô e teve o microfone cortado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, que, sem controle do plenário, acabou apelando para a polícia legislativa para conter o alvoroço.
Ignorantes, os parlamentares não tiveram nenhuma sensibilidade diante do significado simbólico do uso do cocar pela deputada durante a votação do projeto que ameaça a existência de povos e culturas de 259 terras indígenas e 1553 territórios quilombolas. O povo Fulniô, homenageado por Célia Xakriabá, é o único do nordeste que mantém viva a sua língua nativa, a despeito de séculos de agressões e expulsões.
Racistas, os deputados se acharam “inteligentes” ao ironizar as penas de pavão que compõem o artefato, saudando com risadinhas as piadas grosseiras de Kim Kataguiri – um retrato do desdém do parlamento diante dos riscos que o PL representa. Entre as vítimas desse descaso, como lembrou a deputada indígena, já estão as crianças e mulheres Xikrin contaminadas por metais pesados no Pará, aliás pela mesma mineradora que afogou na lama centenas de pessoas em Minas Gerais.
São os direitos de todos nós que estão em jogo quando os povos que mantêm viva a natureza e a diversidade de culturas são atingidos. É a generosidade daqueles que enfrentam com os próprios corpos a destruição do país, patrocinada pelo Congresso movido por interesses privados, que nos permite sonhar com o futuro nesse clima de fim do mundo.
“Eu tô vendo muita gente vestindo verde e amarelo, mas o verde da bandeira é o verde da floresta e, no entanto, vai rasgar a legislação ambiental, a legislação brasileira”, disse Célia Xakriabá, com a voz embargada, em seu voto emocionado contra o projeto.
Os “patriotas”, claro, não se abalaram. O texto foi aprovado com amplo apoio da bancada ruralista e de partidos como PL, PP, Republicanos, União Brasil e PSD. Não foram os únicos culpados: embora as bancadas do PT e de outros partidos de esquerda tenham votado majoritariamente contra o PL da destruição, o governo já havia cedido à chantagem de Davi Alcolumbre durante a votação do mesmo projeto no Senado, em busca de apoio para as pautas econômicas – o que também não deu certo.
Espera-se agora que o presidente Lula, fortalecido por sua atitude firme em relação ao tarifaço, mantenha a postura de estadista e vete o projeto na íntegra. Essa parece ser a única decisão adequada para um país que pretende liderar a concertação mundial pelo clima a partir da Amazônia e também a única resposta à altura das agressões sofridas pela deputada Célia Xacriabá na Câmara e anteriormente pela ministra Marina Silva no Senado.
Parlamentares da base governista têm dito a jornalistas que seria mais estratégico vetar trechos do projeto, preenchendo as lacunas deixadas com a inclusão de uma medida provisória ou de outro projeto de lei. Isso porque o Congresso tem o poder de derrubar os vetos, restando ao governo recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Além de contrariar artigos constitucionais, sobretudo os relacionados aos direitos indígenas e quilombolas, o PL da devastação tromba de frente com decisões já tomadas pelo STF. Por pior que seja ter que recorrer à Justiça a cada avanço inconstitucional do Congresso, parece melhor do que recuar de antemão ante a agressão à integridade do país e aos direitos fundamentais da população. Afinal, foi isso que fez o governo no caso do IOF, em que saiu vitorioso.
Se o exemplo do tarifaço está valendo, foram os presidentes da Câmara e do Senado – e até o governador/candidato Tarcísio de Freitas – que foram obrigados a apoiar Lula, respaldado pela população, no embate do país contra Trump. Bolsonaro, à beira da prisão, só perdeu pontos ao priorizar seus próprios interesses em detrimento do país.
O Brasil precisa de um presidente com coragem de atuar em defesa do interesse público e com capacidade de se comunicar com os cidadãos para explicar suas decisões. O mundo precisa de líderes capazes de revitalizar o multilateralismo e proteger o clima e a democracia. Lula tem que mostrar que está à altura da missão.
@amarinamaral
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quarta-feira, 2 de julho de 2025
Agrogolpistas: BTG Pactual compra soja de dez investigados por financiar atos antidemocráticos
O BTG Pactual possui contratos de compra de soja— a vencer em 2034 — com dez fazendeiros implicados nas investigações de atos antidemocráticos. A informação está em um documento do próprio banco que, em 2024, emitiu R$ 8,5 bilhões em Certificados de Direitos Creditórios do Agronegócio (CDCA) junto a fornecedores. Controlado pelo investidor André Esteves, o BTG Pactual foi fundado também por Paulo Guedes, ministro da Economia durante o governo de Jair Bolsonaro. Com um valor de mercado estimado em R$ 181,7 bilhões, é o maior banco de investimentos da América Latina e a segunda maior instituição financeira do Brasil, atrás apenas do Itaú.
Um desses fornecedores é Argino Bedin, chamado de “pai da soja” em Sorriso (MT) e um dos personagens centrais do dossiê “Agrogolpistas“, lançado na última quarta-feira (25/06) por este observatório. Segundo um relatório da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), membros da família Bedin eram proprietários de quinze caminhões fichados no Quartel-General do Exército em Brasília — de onde saiu a passeata que culminou no quebra-quebra de 8 de janeiro.
De Olho nos Ruralistas identificou 142 empresários do agronegócio que atuaram no suporte logístico ou financeiro a atos golpistas entre o segundo semestre de 2022 e o dia 8 de janeiro de 2023.
Durante quatro meses, o núcleo de pesquisas do observatório percorreu listas de pessoas físicas e jurídicas investigadas por contratar a infraestrutura dos acampamentos golpistas — geradores, tendas, banheiros químicos, alimentos — e por viabilizar o trancamento de rodovias de norte a sul do país. Ao todo, foram analisados 1.452 nomes, em busca de conexões financeiras e políticas com o setor agropecuário.
A lista consolidada no relatório “Agrogolpistas” mostra um grupo de fazendeiros e empresários integrado em cadeias globais, envolvendo multinacionais como Syngenta, Santander, Rabobank e John Deere. O dado contraria uma narrativa disseminada pela mídia corporativa e pelo diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, a de que não existiriam “megafinanciadores” do 8 de janeiro.
Outros cinco nomes dessa lista estão ligados ao empresário mato-grossense Argino Bedin: seu sobrinho Luciano Bedin; Alexandro Lermen, cunhado de Evandro Bedin, outro sobrinho; Fabiano Rodrigo Fiut, sócio da filha de Argino; João Darci Giusti Junior, ex-sócio na Sociedade Aérea G5; e Edemar Potrich, sócio do primo Ary Pedro Bedin na Intervias Concessionária, que administra um trecho da Rodovia BR-242.
Completam a lista de fornecedores do BTG: Albino Perin, Alexandre Burin, Denis Ogliari e Lucas Costa Beber. Este último ocupa a vice-presidência da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) e comanda a regional de Mato Grosso da organização ruralista.
BANCOS CONTINUAM CONCEDENDO CRÉDITO A AGROGOLPISTAS
Outro ministro da era Bolsonaro, o empresário Fábio Faria, das Comunicações, assumiu um cargo na equipe de Relações Institucionais do banco apenas três meses após deixar o governo. Durante as eleições de 2022, o genro do falecido empresário (apresentador, fazendeiro) Sílvio Santos disseminou notícias falsas sobre fraudes em estações de rádio, que estariam prejudicando a campanha de Jair Bolsonaro. Passadas as eleições, disse que se arrependeu.
No apagar das luzes do governo, Fábio Faria autorizou uma empresa do grupo BTG Pactual a captar R$ 2,5 bilhões para projetos de telecomunicações na modalidade incentivada, com redução na cobrança do imposto de renda para investidores. Além do ex-ministro, Bruno Bianco, chefe da Advocacia-Geral da União (AGU) fez o mesmo trajeto, assumindo o cargo de Gerente de Relacionamento Sênior do BTG após o fim do governo.
O BTG não é o único ator da Faria Lima a colecionar laços com empresários que apoiaram atos antidemocráticos em 2022. No ano passado, o Grupo Lermen deu propriedades como garantia e levantou R$ 80 milhões em Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) no mercado financeiro, emitidos pela Virgo Securitizadora — que tem a XP Investimentos como acionista — e pelo banco Bocon BBM, ligado ao Bank of Communications da China. Comandada por Alexandro Lermen, a família enviou 20 caminhões para o QG do Exército.
Outro fazendeiro da região conhecida no Mato Grosso como Nortão, Valdocir Paulo Rovaris teve quatro caminhões flagrados entre bloqueios rodoviários e o pátio do Exército em Brasília. Ele é sócio da concessionária InterVias. Em 2022, o Grupo Valdocir Rovaris (GVR) declarou R$ 287 milhões em operações de crédito com o sistema financeiro. Entre as várias instituições que alavancaram as atividades do GVR destacam-se os bancos internacionais Rabobank, Santander e John Deere, que, juntos, injetaram R$ 50 milhões na empresa. O piloto de rally Atílio Rovaris, filho de Valdocir, doou R$ 500 mil para a campanha de Bolsonaro em 2022.
A reportagem procurou as empresas citadas, mas não obteve resposta.
FINANCIADOR DE ACAMPAMENTO GOLPISTA É PARCEIRO DE TRADER SUÍÇA
Saindo um pouco dos caminhões e passando para os financiadores da infraestrutura para os acampamentos, chegamos a Giancarlos Bavaresco, contratante de banheiro químico para o acampamento golpista de Brasília. Indiciado pela CPI dos Atos Antidemocráticos da Câmara Legislativa do Distrito Federal, ele também tem laços multinacionais.
Sua empresa, a Beneficiadora de Algodão Cotton 163, foi fundada em parceria com a trader suíça Ecom, que afirma investir em projetos verdes ao redor do mundo. O nome do empreendimento é uma referência à BR-163, rodovia que liga Sorriso aos portos do Arco Norte, no Pará.
Embora a Cotton 163 se projete internacionalmente com um modelo de negócios sustentáveis, um relatório da Repórter Brasil apontou que a Fazenda Santo Antônio XVI, XVII e XVIII, em Nova Maringá (MT), possuía 1.096 hectares embargados, o equivalente a 70% do total da propriedade, pertencente a Giancarlos e Gentil Antônio Bavaresco. O embargo não impediu que a seguradora japonesa Tokio Marine firmasse um contrato de seguro rural para a cobertura de 954 hectares de plantio de milho entre fevereiro e novembro de 2020.
Giancarlos Bavaresco foi membro do Conselho Fiscal da Aprosoja-MT no biênio 2018/2020.
Os problemas na cadeia de suprimentos da Ecom não se restringem ao fazendeiro mato-grossense. Em 2021, 19 trabalhadores foram resgatados em condição análoga à escravidão em uma fazenda no interior de Minas Gerais que figurava no rol de fornecedores de café da trader suíça.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
A luta pela redução da jornada de trabalho
“A experiência demonstra que a diminuição das horas de trabalho – evitando a fadiga – não acarreta prejuízo. O interesse dos patrões deveria contribuir para o estabelecimento de novas regras do trabalho”.
Evaristo de Moraes, Apontamento do direito operário, 1905
“… a produtividade do trabalho não é, em absoluto, assunto que incumba ao trabalhador”
Marx, O Capital, Tomo I
“…o verdadeiro reino da liberdade que, não obstante, somente pode florescer sobre aquele reino da necessidade como sua base. A redução da jornada de trabalho é a condição básica”
Marx, O Capital, tomo III
A característica dominante na luta de classes no Brasil é a ausência do movimento de massas. Com certa frequência, o reconhecimento do fenômeno é utilizado para justificar a orientação assumida pelos governos da esquerda liberal (governo petucano) e, não raro, também uma via rápida para responsabilizar as massas por sua própria miséria e exploração na mesma medida em que exime Lula e seu governo pela paralisia político-ideológica decorrente da antiga adesão ao programa da classe dominante.
Ademais, as organizações sindicais e partidos políticos carecem de um programa de ação, que somente pode ganhar consistência e força como resultado da experiência de lutas dos próprios trabalhadores capazes de assegurar a independência política diante dos governos e do Estado. De resto, enquanto a fragmentação identitária tem sido um obstáculo importante, até o momento, para a realização da totalização das lutas no interior da esquerda liberal, somente a direita apresenta uma utopia reacionária como promessa de futuro para as maiorias.
É nesse contexto que a emergência de um “movimento” chamado VAT (Vida para além do trabalho) despertou certa atenção, que, de outra maneira e em outras épocas, seria tomado sem dúvida alguma apenas como mais um protesto desesperado de um trabalhador submetido ao tacão de ferro dos capitalistas. Com efeito, somente boa dose de generosidade e outra não menor de indigência poderia considerar o VAT um movimento real da classe trabalhadora. Não há desprezo na afirmação, posto que o VAT, antes de se firmar como movimento real, foi logo canalizado para seu curso natural diante das circunstâncias atuais: a representação parlamentar no âmbito municipal. O precursor do protesto que passou a ser designado com VAT – Rick Azevedo – é agora vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro eleito com mais de 29 mil votos.
Em consequência, tampouco surpreende que uma deputada do PSOL – Erikca Hilton – no embalo das redes digitais, logo transformasse o protesto solitário e desesperado de um trabalhador confinado numa farmácia em projeto de lei que, há pouco, logrou o número de assinaturas para começar a tramitar na Câmara federal a proposta de redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais. O entusiasmo de distintas organizações sociais e sobretudo da concepção parlamentar de política é imenso e, a julgar pelo ambiente digital, o protesto realizado no dia 15 de novembro anunciado como o início da retomada das ações de massas, nas versões mais delirantes, autorizariam supor que, em breve, e com algum esforço militante estaríamos próximos de uma virada na correlação de forças atualmente sob comando da direita liberal. O entusiasmo digital é, de fato, imenso! Entretanto, funcionará nas ruas? O 15 de novembro provou aos iniciados que estamos longe de construir uma plataforma de lutas da classe trabalhadora e menos ainda de superar a concepção liberal de política dominante nos partidos da esquerda liberal. A propósito, no momento em que escrevo essa nota, há um silencio profundo sobre o completo esvaziamento da atividade de 15 de novembro, mas, não tenho dúvidas, logo surgiram avaliações positivas sobre “o primeiro ato” de uma longa caminhada…
Tampouco podem existir dúvidas sobre o apoio dos trabalhadores a qualquer iniciativa destinada à redução da jornada de trabalho. Todos os socialistas, comunistas e revolucionários devem apoiar qualquer projeto parlamentar destinado à redução da jornada de trabalho. Mas é igualmente uma obrigação dos socialistas, comunistas e revolucionários observar e analisar o contexto e as consequências de semelhante iniciativa, sobretudo quando está marcada pela origem parlamentar da proposta e conta com o ingênuo entusiasmo e a alienação inerentes ao “ativismo” midiático das redes digitais. Com efeito, já existem dezenas de propostas que favorecem os trabalhadores nas gavetas do parlamento (de deputados ativos ou não) que, quando consideradas, poderiam produzir o paraíso mesmo nas condições do sistema capitalista e, mais ainda, na periferia latino-americana.
O governo Lula/Alckmin não possui qualquer iniciativa para mitigar o sofrimento dos trabalhadores. A Reforma Trabalhista anunciada em campanha como objeto de revogação ou revisão goza de boa saúde e nem em sonhos dourados o governo cogita rever qualquer uma de suas cláusulas. Acrescente-se a isso o fato de que, no momento, o governo petucano (Lula/Alckimin) sofre acentuado desgaste que até mesmo as pesquisas de opinião assinalam. Entretanto, não são necessárias as pesquisas para avaliar a grave situação do país e a debilidade do governo atual. A força da crise encontra um governo de tal forma dócil ao capital, que torna inútil a repetição maçante e impotente das políticas sociais ademais, obrigando o governo da esquerda liberal a arrochar a classe trabalhadora em favor da coesão burguesa que dirige o país desde 1994.
Há dias, a esquerda liberal aguarda com angústia o anúncio de um “pacote econômico” destinado a cortar gastos sociais e precarizar ainda mais as condições de vida dos trabalhadores. Nesse contexto, as redes digitais da esquerda liberal explodiram em apoio ao VAT e rapidamente unificaram a data de 15 de novembro para uma manifestação em favor da aprovação da PEC na vã tentativa de mudar o foco da atenção pública e retomar a iniciativa política.
O melhor dos mundos possíveis
A exemplo de quase tudo que ocorre no país, o VAT não tem nacionalidade brasileira. A própria deputada Erika Hilton escreve na sustentação da proposta:
“No Brasil, o programa piloto de implementação de jornada de 4 dias começou a ser realizado pela Reconnect Happiness at Work em parceria com a 4 Day Week Global e Boston College, e teve seu início em setembro de 2023. Cerca de 22 empresas com até 250 colaboradores aderiram à iniciativa, em que os resultados do projeto no país, apresentam projeções importantes para a transição das jornadas de trabalho para o modelo de 4 dias, em que é possível observar menor número de faltas dos empregados e produtividade em alta, em razão da adoção de estratégias de organizações funcionais para o modelo da empresa”.
A reconciliação entre trabalho e a felicidade (reconnect happiness at work) não deixa de ser boa nova tanto nos países centrais quando na periferia do capitalismo, uma vez que, aqui, o processo de acumulação de capital se sustenta na superexploração da força de trabalho. No Brasil – como na Alemanha – a adesão a semelhante programa é voluntária sem, portanto, obrigatoriedade na lei! Na maioria dos casos, a redução da jornada de trabalho foi produto de duras negociações entre sindicatos e empresas, ainda que reguladas pela legislação do trabalho e não fruto de ativismo midiático, regado a interesses eleitoreiros.
Entre nós, a luta pela redução da jornada de trabalho sempre esteve presente nos partidos de esquerda e nos sindicatos. Contudo, sua implementação depende, obviamente, dos ciclos de acumulação do capital que, como sabemos, alternam períodos de bonança com outros recessivos. Em tempos de crise, é normal que propostas semelhantes apareçam como a salvação da lavoura e não raro, os trabalhadores lançam mão de semelhantes propostas mesmo quando implicam simultânea redução salarial.
Na Alemanha, em 2017, o poderoso IG Metall, que representa a indústria metalúrgica e de engenharia com 3,9 milhões de associados e alcance em empresas tão importantes como Daimler, Bosch, Porsche, Audi, BMW entre outras, propôs a redução da jornada para 28 horas semanais distribuídas em 4 dias e sem redução salarial. Válida por 27 meses, a proposta cobre aproximadamente 900 mil trabalhadores. As negociações se arrastaram em meio a muitas greves e paralisações de advertência especialmente importantes nos Estados da Baviera e Baden-Wrttemberg, no sul da Alemanha, responsáveis por prejuízos de até 200 milhões de euros às empresas. Assim, em meio a forte combate, a categoria conseguiu um aumento da massa salarial de 4,3%, ante a reivindicação de 6%, e a redução da jornada de trabalho semanal de 35 para 28 horas. Portanto, o acordo posterior até hoje celebrado como uma conquista foi fruto de lutas no chão da fábrica. A jornada de trabalho na Alemanha está regulada em lei nas 35 horas semanais.
Naquele período (2017), a economia da Alemanha apresentava taxa de crescimento positiva e as exportações exibiam sucessivos superávits. Na prática, há muitos anos, a Alemanha apoiada no poder do euro e sua considerável base industrial, transformou-se numa máquina de exportação junto com Estados Unidos e China. Portanto, no momento favorável à acumulação de capital – mesmo considerando um período caracterizado como “de crescimento lento” por analistas de distintas orientações teóricas – os sindicatos atuaram na busca de melhores acordos com greves e paralisações que revelaram a força dos trabalhadores na busca também concentrada na reivindicação de reajuste e participação nos lucros. Nós sabemos que naquele país existe um sindicalismo integrado à ordem burguesa, mas capaz de buscar seu quinhão diante da crescente acumulação de capital. Na atualidade, a adesão à redução da jornada alcança principalmente empresas menores – entre 10 e 250 trabalhadores – que, em função da crise, lançam mão da redução da jornada em acordos variados que nem sempre se sustentam ao longo do tempo. Na periferia capitalista, ao contrário dos países centrais, o azul é sempre mais escuro. Em consequência, a resistência capitalista é ainda mais ferrenha, pois o fundamento da acumulação é a superexploração da força de trabalho que sempre foi considerada – e seguirá sendo – uma lei de bronze que ninguém poderá violar.
Na periferia capitalista
No Brasil, a redução da jornada de 48 para 44 horas semanais ocorreu na elaboração da Constituição de 1988, no início do regime liberal burguês que sucedeu a ditadura militar. A despeito de graves limitações políticas, o sindicalismo mantinha certa força nas reinvindicações de extração econômica, sobretudo porque as taxas de inflação eram elevadíssimas (hiperinflação) e não raro alcançavam 3 dígitos! Nesse contexto, as greves se sucediam como decorrência direita da luta entre preços e salários no interior das quais a politização dos trabalhadores ocorria mesmo sob o controle político ideológico dos líderes sindicais com Lula e suas conexões na Europa e Estados Unidos.
Ao longo do tempo, especialmente após a implementação do Plano Real, as condições de luta em tempos de inflação baixa mudaram radicalmente. As greves inerentes ao período da corrida entre preços e salários dependiam de outros fatores e não foram poucos aqueles sindicatos que começaram a cobrar ganhos de produtividade nas negociações entre patrões e empregados. Mas ainda assim, em pouquíssimos casos, a pauta de reivindicações incluiu a redução da jornada de trabalho. Os sucessivos governos do PT durante longos 14 anos (Lula e Dilma), jamais ousaram sequer discutir um pacto entre capitalistas e trabalhadores inclusive quando as taxas de desemprego eram indiscutivelmente baixas e o ciclo da acumulação favoreceria os sindicatos, se a iniciativa do governo existisse. A razão para a omissão tanto dos sindicatos (especialmente a CUT), quanto dos governos petistas é conhecida: nada contra a burguesia!
No chão da fábrica e na solidão política, os trabalhadores amargam não apenas jornadas de 44 horas semanais, mas, inclusive, em não poucos casos, acima do limite legal. Aqui, na periferia capitalista, o mundo real conspira contra a lei, razão pela qual a violação da legislação trabalhista adquire feições particulares nada desprezíveis.
Em abril de 2010, por exemplo, o DIEESE informava que “ao se analisar os dados da PED (Pesquisa de Emprego e Desemprego – DIEESE/SEADE) observa-se que, em 2009, 36,1% dos assalariados trabalham mais do que a jornada legal de 44 horas. Esta realidade explicita que, no caso do Brasil, a hora extra perdeu a característica de ser uma hora a ser realizada em momentos excepcionais, passando a ter um caráter de hora ordinária”. Na prática, a hora extara é uma forma de prolongamento da jornada de trabalho e, portanto, de extração de mais valia absoluta, mesmo quando os capitalistas pagam valores monetários superiores àqueles da hora regular.
Dados recentes do Tribunal Superior do Trabalho (TST) informam que o tema “hora extra” foi o mais recorrente em novas ações na Justiça do Trabalho de janeiro a julho de 2023, somando mais de 288 mil processos em todo o país. Entre as demandas, estão questões como “não pagamento das horas extras realizadas, falta de registro da jornada de trabalho, supressão das horas extras habituais, integração das horas extras em outras verbas salariais e invalidade dos cartões de ponto em razão de horários uniformes”. Ao contrário da luta pela redução da jornada de trabalho, nas condições atuais, parcela importante dos trabalhadores não possuem outro recurso senão a … ampliação da jornada de trabalho!
Há, além disso um dado relevante que o cretinismo parlamentar em voga ignora e a militância virtual também. O IBGE informa que “em 2023, dos 100,7 milhões de ocupados do país, 8,4% (8,4 milhões de pessoas) eram associados a sindicatos. Esse foi o menor contingente e o menor percentual da série iniciada em 2012, quando havia 14,4 milhões de trabalhadores sindicalizados (16,1%)”. A velocidade da queda não deixa de chamar atenção pois, segundo a mesma fonte, “na comparação com o ano anterior, houve queda de 7,8%, ou de 713 mil pessoas. Em 2022, eram 9,1 milhões de sindicalizados, 9,2% do total de ocupados”. Ora, o fenômeno alcança todos os setores e “em relação a 2012, as maiores quedas na taxa de sindicalização foram nos grupamentos de transporte, armazenagem e correio, com -12,9 p.p. (passando de 20,7% para 7,8%), indústria geral, com -11,0 p.p. (de 21,3% para 10,3%) e administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais, com -10,1 p.p. (de 24,5% para 14,4%)”.
A reforma trabalhista de Michel Temer (Lei 13.647/2017) representou um grave e inédito ataque contra a CLT. A lei foi promulgada em julho de 2017 numa conjuntura marcada pela ofensiva burguesa contra os trabalhadores que jamais foi interrompida pelo governo atual a despeito das promessas de campanha. E, não custa lembrar, os capitalistas contam com a enérgica e sistemática ação do STF, que não cansa de decidir contra os trabalhadores e suas conquistas históricas. Em 11 de setembro passado, por exemplo, o ministro Cristiano Zanin pediu vistas do processo sobre o trabalho intermitente em análise naquela corte, que já conta com 4 votos favoráveis e três contrários. Em caso de aprovação seria outro duro golpe nos direitos elementares dos trabalhadores no contexto da reforma de Temer e uma via rápida para o aprofundamento da superexploração da força de trabalho, fundamento do capitalismo dependente rentístico.
Quando a redução da jornada entrou nas negociações permitida pela Medida Provisória 936/2020, posteriormente sancionada como Lei nº 14.020, de 06 de julho de 2020, previa de maneira clara a redução dos salários no âmbito do “Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda diante dos impactos da Covid-19”, que assegurava elevada taxa de lucros aos capitalistas e passava o prejuízo para os trabalhadores. A medida era uma proteção da taxa de lucro e, naquele contexto, os trabalhadores não possuíam forças suficientes para se proteger da ofensiva do capital contra o trabalho. Portanto, é compreensível que uma PEC destinada à redução da jornada de trabalho desperte aprovação de milhões de trabalhadores e, de fato, mais de 2 milhões de brasileiros assinam a iniciativa parlamentar. Tampouco causa surpresa que a PEC tenha granjeado um número aparentemente surpreendente de assinaturas de deputados e senadores com direito a discursos em defesa da medida até mesmo por parlamentares de direita, que, na tribuna do covil de ladrões, defenderam sua imediata aprovação. A propósito, Cleiton de Azevedo, o senador Cleitinho (Republicanos/MG), fez um discurso tão radical em defesa da medida, que, aos desavisados, poderia parecer que se trata de esquerdista radical. Contudo, essa simpatia automática necessita ultrapassar a simples adesão midiática e transformar-se num momento real.
No setor de serviços (supermercados, farmácias, restaurantes, shopping e call centers, etc), existe um imenso proletariado submetido a jornadas de trabalho exaustivas e salários baixíssimos, que conta com o silêncio cúmplice do governo petucano e baixo nível de sindicalização. Até hoje, o governo não mexeu uma molécula para enfrentar a superexploração da força de trabalho e se limita tão somente à repetição enfadonha das antigas políticas sociais, incapazes de sequer mitigar o sofrimento das massas. A propósito, os programas sociais antes de redimir ou mesmo mitigar o sofrimento tornam-se, na prática, um pilar da superexploração da força de trabalho na forma de filantropia.
Dessa forma, no setor de serviços, a rotatividade da força de trabalho é igualmente intensa, superior a qualquer outro país do mundo capitalista. Eis as condições materiais que tornam toda medida destinada a enfrentar a superexploração da força de trabalho popular dócil aos patrões e incapaz de qualquer mobilização em favor dos trabalhadores sobretudo quando os sindicatos do setor de serviços estão dominados pela burocracia e priorização do enfrentamento jurídico em detrimento das ruas.
A descoberta da pólvora
Rick Azevedo – o festejado vereador do PSOL carioca – lançou o VAT num ato de solitário protesto. Não se trata, obviamente, de um movimento, mas de um recurso midiático com adesão exclusivamente eletrônica e que, portanto, não está isento de graves limitações. A mais eloquente evidência da situação se deve ao fato de que o vereador solicitou registro da marca (VAT) no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (!!) como uma forma de manter sob controle seus seguidores e, ao mesmo tempo, autorizar a eventual ampliação sob seu exclusivo comando.
Em setembro passado – portanto antes do ativismo eletrônico da semana passada – a Organização Comunista Internacionalista (OCI) publicou em sua página importante denúncia sobre a ofensiva do agora vereador Rick Azevedo, autor do VAT contra aqueles que queriam somar no movimento, dando-lhe não somente transparência, mas também organicidade e potência.
Qual era a suposta heresia proposta pela OCI?
Em 3 de setembro, a OCI solicitou um encontro nacional destinado a avançar na organização e massificação da luta e a resposta de Azevedo foi a expulsão de todos aqueles que endossaram a petição. Então candidato a vereador, Azevedo não poderia ter reação mais ilustrativa do caráter do VAT e notificou extrajudicialmente a OCI proibindo o uso da marca!
https://marxismo.org.br/sobre-as-acoes-de-rick-azevedo-e-demais-membros-da-coordenacao-do-vat-contra-a-oci/
Ora, a organização propunha um encontro nacional com tirada de delegados pela base em escala nacional destinado a massificação e maior representatividade do movimento.
https://marxismo.org.br/por-um-encontro-nacional-do-movimento-vat-com-delegados-eleitos-na-base/
A resposta do vereador foi uma rara combinação entre ação extra judicial contra a OCI acusando-a de “uso indevido do nome, marca e identidade do movimento VAT, bem como na tentativa de apropriação indevida de sua liderança e propósito, sem qualquer autorização ou consentimento”. Na verdade, Rick lançou um movimento que, diante das circunstâncias do mundo real, logo escolheu como objetivo a conquista de um mandato na câmera de vereadores do Rio de Janeiro e, em consequência, não poderia abri-lo para a participação de todos os trabalhadores e muito menos se submeter às instâncias que todo movimento real exige, especialmente quando o objetivo é a redução da jornada de trabalho. Entretanto, ninguém tem dúvidas que somente uma unidade política de todos os trabalhadores poderá arrancar dos capitalistas a redução da jornada de trabalho. Além do mais, como a experiência ensina, o papel do governo nunca será de mero expectador, mas, ao contrário, de ativo participante em favor da classe trabalhadora! Não é de surpreender que Rick Azevedo chegou a publicar nas redes que não admitiria bandeiras contra o atual governo como expressou com clareza em seu twitter. A despeito da inocência, é claro que as forças, partidos e parlamentares que foram às ruas no dia da proclamação da república estão na sua maioria comprometidos com a defesa do governo petucano diante do que chamam “ameaça fascista”. Em consequência, creem atuar como espírito crítico do governo petucano na vã esperança de que Lula abandone as leis inerentes à política econômica do rentismo e mais do que colocar os “pobres no orçamento” rompa com as regras que alimentam o Plano Real desde 1994, entre as quais o teto de gastos.
A esquerda virtual
Eis o segredo do ativismo midiático dos dias imediatamente anteriores à data nacional da proclamação da república: não foram poucos os ingênuos que consideraram a manifestação do interesse pela redução da jornada de trabalho no trending topics do Twitter e o número de “likes and views” como clara demonstração da virada na conjuntura, o inédito constrangimento da direita parlamentar incapaz de argumentar contra a PEC e inclusive, num arroubo delirante, indicar a eminente “virada do jogo político brasileiro” com a consequente retomada de um novo ciclo de lutas favorável a classe trabalhadora. Tudo a que assistimos no dia 15 de novembro foi uma demonstração contundente contra as pretensões de que o “mundo virtual” dirigia o “mundo real”, mas bastou o amanhecer do feriado republicano para observar o abissal contraste entre a expectativa exuberante das mídias e o esvaziamento das praças nas principais capitais do país. Com efeito, nenhum ato foi massivo! No Rio, talvez 3 mil pessoas na Cinelândia e em SP apenas um quarteirão. No Espírito Santo, gatos pingados não ultrapassaram o número de 300 pessoas. Em Floripa não mais do que 500 pessoas, em Pernambuco manifestação minguada e em Porto Alegre pra lá de modesto! Em muitas cidades o “ato” foi apenas simbólico. Em São Paulo, para dar um exemplo emblemático da natureza artificial da articulação, várias organizações que ajudaram na convocatória da manifestação sequer tiveram direito ao microfone. De fato, onde o VAT comanda, a ampliação não prospera.
No parlamento
No covil de ladrões não há surpresa! No parlamento, tanto parlamentares da esquerda quanto da direita liberal assinaram a PEC conscientes de que a proposta não tem a menor possibilidade de aprovação e caso avance em algum aspecto, será algo bem distante da proposta original. Observando iniciativas anteriores, alguém poderá ter dúvidas sobre os “acidentes” de seu trâmite? Nesse contexto, o PT assinou em massa na semana anterior as manifestações. Mas, na página do partido figurava o destaque de que as nobres deputadas assinaram a PEC sem menção aos homens! No PSOL, Boulos, convertido a linha lulista do “paz e amor”, jamais cogitou discutir o tema na última campanha eleitoral e, de fato, foi um dos últimos a assinar a iniciativa de sua colega de bancada. É um tempo duro para convicções…
O futuro da luta pela jornada de trabalho dependerá da capacidade de enfrentamento dos trabalhadores, todos sabemos. Portanto, não será fruto de eventual repercussão nas redes digitais, mas das contradições de classe próprias de nosso país. A esquerda identitária descobriu algo valioso na cartada recente: a classe, como expressão universal, tem lá sua força mesmo quando reivindicada por aqueles que expressam a soberania do eu de maneira permanente e não possuem qualquer compromisso com a revolução brasileira e o socialismo. O “debate” das redes digitais exibe não somente a pressa inerente ao meio técnico, a vocação parlamentar da esquerda (identitária ou não) mas, sobretudo, o completo desprezo pelas leis objetivas que governam o desenvolvimento capitalista na periferia latino-americana. Essa mesma esquerda liberal, treinada na estranha arte de insistir num caminho exaurido cuja expressão mais importante é o apoio ao governo petucano de Lula/Alckmin na persistente justificativa de que supostamente não temos outro horizonte possível, precisa despertar de sua letargia para tomar o céu de assalto.
Na prática, o ativismo midiático responsável pela tentativa de massificação da campanha pela superação do 6 x 1 tinha um objetivo inconfessável: salvar o governo petucano de Lula/Alckmin. O delírio segundo o qual os atos de 15 de novembro constituem uma “virada no jogo” político não passa de uma tentativa de oferecer um salvo conduto para um governo que em cada medida acentua a dependência, o subdesenvolvimento e a superexploração da força de trabalho. Contudo, a esquerda liberal não é capaz de romper com as ilusões e passar a fazer radical oposição de esquerda ao governo que administra a economia política do rentismo na mesma medida em que arrocha os trabalhadores. Nesse momento, Lula elabora um “programa de ajuste”, reivindicado pela classe dominante à luz do dia. Programa esse que não poupará os mais miseráveis entre os miseráveis. Em consequência, o desespero e angústia da esquerda liberal em manter a fidelidade ao governo e ao mesmo tempo defender os interesses imediatos dos trabalhadores chega, finalmente, ao seu término: não é possível servir a dois senhores!
Tudo indica que o “pacote” curtido em negociações com banqueiros, latifundiários, grandes comerciantes e industriais decadentes pode, no papel, tocar nos interesses marginais dos capitalistas, mas certamente cortará fundo em algumas leis e programas relativos aos trabalhadores. O “pacote” será enviado ao covil de ladrões e a maioria folgada que a classe dominante possui no parlamento se encarregará de dar a devida “racionalidade” às medidas, eliminando eventuais “exageros” contra a propriedade e os lucros e dividendos dos capitalistas. Assim, o governo petucano simula fazer justiça social e a esquerda liberal seguirá com a ladainha de que Lula não possui maioria para aprovar outro programa.
A conjuntura exige lucidez antes que simulação. Uma PEC ou o mais intenso ativismo midiático são incapazes de mudar a correlação de forças. O problema não pode ser resolvido por um passe de mágica e menos ainda pelo mais intenso ativismo midiático, mas somente no terreno que as maiorias já identificaram: o governo eleito para “barrar o neoliberalismo”, “derrotar o neofascismo” e inverter a correlação de forças diante da ofensiva burguesa acelera o programa econômico da própria burguesia e segue alimentando a mais profunda corrupção do sistema político. Portanto, não há no governo programa econômico alternativo e menos ainda uma tímida “reforma política” para salvar da podridão a república burguesa! O vale de lágrimas se configura eterno diante dos trabalhadores e o povo acumula sua ira de maneira silenciosa até que por um motivo qualquer, num momento indeterminado, se manifeste com a força dos vulcões, varrendo tudo e todos. Haverá, nesse momento, alguma organização política ou liderança com completa independência diante do governo capaz de ganhar a confiança das maiorias e abrir as portas da revolução brasileira?
Nildo Ouriques
Militante pela Revolução Brasileira
quinta-feira, 26 de dezembro de 2024
5 fatos sobre a gigante nuvem de poeira do Saara que chegou às Américas
Por que essa enorme mancha de poeira do Saara viajou pelo Atlântico?
"Eu sou a chuva que lança a areia do Saara/ Sobre os automóveis de Roma". O trecho é da clássica música “Reconvexo”, interpretada pela famosa cantora brasileira Maria Betânia, e composta pelo seu irmão, o também consagrado cantor e produtor Caetano Veloso.
A letra da canção vai além da poesia ou da arte. Ela trata de um fenômeno meteorológico, que acontece todos os anos, no período de fevereiro a junho. Nos últimos dias, meteorologistas identificaram, a partir de satélites, uma enorme nuvem de poeira, deslocando-se, desde o deserto do Saara, na África, viajando pelo oceano Atlântico, e chegando às Américas.
Em plena Ditadura Militar no Brasil, Caetano Veloso vivia seu exílio na Europa. Ele compôs essa canção, depois de acordar um dia em Roma e se deparar com carros empoeirados, todos cobertos de areia. A poeira em Roma era consequência do mesmo fenômeno, observado na última semana, cujos episódios se repetem desde fevereiro.
Para esclarecer por que o fenômeno ocorre e o que ele provoca, o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) monitora o deslocamento da poeira do Saara, transportada pelos ventos, ao longo do oceano Atlântico. Todas as informações sobre o assunto, utilizadas neste post, foram enviadas pelo Laboratório.
A seguir, iremos explicar o fenômeno, bem como a tecnologia utilizada em seu monitoramento, a partir de 5 perguntas e respostas. Você também vai entender como a poeira do Saara, associada aos ventos do ciclone-bomba, ocorrido no Sul do Brasil, em 30 de julho, provocou o lindo fenômeno de céu colorido no Nordeste, na semana seguinte.
O transporte de poeira do Saara, a longa distância, faz parte da combinação de fenômenos atmosféricos locais e de grande escala. No verão do Hemisfério Norte, o aquecimento do Saara ultrapassa a temperatura de 40 °C, durante as tardes.
As altas temperaturas levam à formação de baixas pressões térmicas e à intensificação dos ventos, sobre algumas áreas do deserto.
Com os ventos de leste (alísios), intensificados sobre as vastas terras áridas, no maior deserto quente do mundo, a turbulência gerada, próximo a superfície, suspende poeira na atmosfera. Forma-se, então, uma enorme nuvem de ar do Saara — uma massa de ar muito seco e com poeira do deserto africano.
Todos os anos, entre a primavera e o início do outono, no Hemisfério Norte, é possível ver a jornada da poeira do deserto. Um gigantesco volume de partículas do Saara cruza o Atlântico e atinge outras regiões do Planeta.
Qual o destino dessa nuvem de poeira vinda do Saara?
A vasta nuvem de poeira do Saara, cobrindo o Caribe, no dia 24 de junho de 2020, enquanto seguia viagem. Hoje pela manhã, a pluma atingiu o Texas, nos Estados Unidos. A qualidade do ar, na maior parte da região, é considerada perigosa e eles alertam a população para tomarem medidas de proteção.
A gigante nuvem de poeira, oriunda do deserto do Saara, intensificou-se em 2020. Segundo especialistas, o fenômeno atingiu um tamanho e concentração não vistos em meio século. Desde fevereiro, meteorologistas observam que eventos similares atravessam o Atlântico.
No último dia 18 de junho, a enorme nuvem de poeira foi trazida pelos ventos, viajou pelo Atlântico e atingiu as Américas. A mancha passou pelo extremo norte da Amazônia, em parte da Venezuela, no Caribe e agora chega ao sul dos Estados Unidos.
Parte da nuvem é formada, entre outros elementos, por partículas de poeira no ar, os chamados aerossóis. A presença desses resíduos na atmosfera contribui para a formação de nuvens e, consequentemente, de chuvas. No caso da floresta amazônica, parte dos aerossóis é oriunda do deserto do Saara.
Em geral, essas partículas são confinadas nos primeiros quilômetros de altura da troposfera. Por isso, a poeira que veio do Saara pode ser uma das responsáveis por aquela tempestade de fim de tarde, típica de algumas cidades da Amazônia brasileira, como Belém (PA) e Manaus (AM).
Com essa poeira na atmosfera, ocorre chuvas com resíduos da poeira, que fertilizam as terras da Amazônia, por conta da presença de substâncias como fósforo.
Quais os impactos do passeio da poeira do Saara pelo Atlântico?
Impactos positivos. Além de contribuir com a fertilização das terras da Amazônia, o fenômeno inibe tempestades tropicais, que poderiam formar furacões, no Atlântico. Ao longo da trajetória para oeste, nuvens tropicais profundas costumam encontrar condições mais quentes e úmidas no Atlântico, transformando-se em grandes furacões.
Porém, durante a temporada de furacões no Atlântico Norte, a nuvem gigante de poeira do Saara ajuda a evitar ciclones tropicais. Quando atingem a nuvem de ar seco do Saara, no Oceano, esses eventos perdem intensidade e podem se dissipar.
Por outro lado, uma maior quantidade de poeira faria com que se formassem mais nuvens pela região oceânica, favorecendo o nascimento de furacões. Assim, o efeito dessa poeira do Saara na formação de furacões ainda é incerto.
Impactos negativos. A enorme nuvem de poeira, vinda do Saara, compromete a qualidade do ar e representa riscos para a saúde humana. O ar seco e empoeirado pode afetar a pele e os pulmões, pela redução da umidade, em pelo menos 50%.
O alto teor de partículas também pode ser nocivo às pessoas com problemas respiratórios, causando alergias e irritações nos olhos, especialmente durante a pandemia do novo coronavírus.
Que tecnologia é utilizada para registrar a nuvem gigante de poeira?
Com imagens do satélite Meteosat-11, dos dias 20 e 21 de junho de 2020. O arquipélago do Cabo Verde é a região fora da África mais afetada pela poeira do Saara.
Os entusiastas do Sensoriamento Remoto certamente estão curiosos para saber qual tecnologia foi utilizada para detectar o fenômeno. De acordo com o meteorologista Humberto Barbosa, do Lapis, satélites meteorológicos, em órbita geoestacionária (circular), posicionam-se a 36 mil km da Terra, permitindo captar áreas da atmosfera, a partir de uma posição privilegiada.
As imagens da animação foram captadas e transmitidas pelo satélite Meteosat de Terceira Geração (MTG), em órbita geoestacionária, com alta resolução temporal (a cada 15 minutos). Esse intervalo permite o monitoramento contínuo do tempo e a tomada de decisão, por exemplo, pela Defesa Civil, no caso de risco de um evento meteorológico extremo.
De interesse particular do Brasil, são as imagens do Meteosat-11, localizado sobre o meridiano de Greenwich (0°), que monitora sua costa leste e todo o oceano Atlântico.
O pesquisador ressalta que satélites meteorológicos produzem uma enorme quantidade de dados, sendo necessário métodos específicos para extrair, filtrar e preparar dados, para criação de imagens de fácil interpretação e utilização.
Que conhecimentos os especialistas usaram para interpretar o fenômeno?
A apresentação das cores nas imagens de satélites e a interpretação do que elas representam são muito importantes. Esses fatores permitem concluir sobre a presença de determinado fenômeno. É o caso de eventos como a nuvem gigante de poeira do Saara.
Para Barbosa, a utilização da tecnologia RGB proporciona aos pesquisadores um salto qualitativo, na interpretação de imagens de satélites, especialmente na área de monitoramento ambiental. Dessa forma, contribui para auxiliar na tomada de decisão, na gestão de políticas e no planejamento de respostas a desastres naturais.
A interpretação das imagens de satélites, processadas digitalmente, com uso de técnicas de Sensoriamento Remoto, depende da capacidade da visão humana em discernir tonalidades, texturas e contextos, registrados nessas imagens.
A tecnologia RGB, ainda pouco utilizada no Brasil, permite que as imagens de satélites sejam vistas sob o espectro vermelho, verde e azul (daí seu nome corresponder às siglas, em inglês, das cores Red, Green e Blue). Quando combinadas, de diferentes formas, a tecnologia gera imagens impressionantes, com uma ampla gama de cores.
A interpretação de eventos, como a poeira do deserto africano, exige conhecimento das características das diferentes resoluções das imagens (espacial, temporal, espectral e radiométrica). Também requer experiência com uso de imagens multiespectrais, bem como conhecimento aprofundado em Meteorologia.
Essas imagens podem ser coloridas ou monocromáticas. Quanto mais nítidas, menos confusão visual causam ao especialista, que interpreta essas informações de satélite.
Assim, utilizar tecnologias adequadas à composição dessas imagens e das suas tonalidades, de acordo com o objetivo desejado, é uma ferramenta poderosa para sintetizar, em uma única imagem, uma grande quantidade de informações.
Ciclone-bomba, que devastou Sul do Brasil, deixa céu colorido no Nordeste
Desde o dia 05 de julho, é possível ver uma enorme nuvem de poeira, deslocando-se, desde o deserto do Saara, na África, viajando pelo oceano Atlântico e seguindo uma trajetória incomum. Desta vez, a areia do Saara cruzou o Atlântico e chegou ao Nordeste do Brasil.
A imagem de satélite mostra partículas de fumaça, vindas de queimadas da África, transportadas para o Deserto do Saara, graças à uma forma específica de circulação dos ventos. A concentração de fumaça das queimadas, no centro-sul da África, é bem maior, em cor escura, na imagem de satélite, ao contrário da poeira do deserto, em tom amarronzado.
A fumaça das queimadas, na África, e a poeira do Saara, explicam o fenômeno de céu colorido, em várias cidades do Nordeste, durante o nascer ou pôr do Sol, desta semana.
De acordo com o Lapis, o ciclone-bomba, que devastou o Sul do Brasil, no dia 30 de junho, deslocou-se, nos dias seguintes, para perto da costa sul da África. Os ventos a ele associados espalharam ainda mais incêndios, que ocorrem na região central da África.
Além de aumentar o alastramento do fogo, o ciclone-bomba também ajudou a espalhar poeira do Deserto do Saara, em função do seu padrão de circulação atmosférica.
Ao provocar divergências na direção dos ventos, formou-se uma área de alta pressão, com ventos calmos, céu ensolarado e pouca ou nenhuma chuva. Isso significa que o ar desce. Em baixos níveis, na superfície, o vento vai em direção ao Equador (os alísios).
Com isso, a poeira do deserto do Saara, carregada pelos ventos, associados ao ciclone-bomba, provoca esse efeito de um lindo céu colorido, no Nordeste.
Mais informações
O Lapis possui uma estação de recepção de imagens do satélite Meteosat-11, cuja distribuição é feita pelo Sistema EumetCast África.
Desde 2007, criou uma rede nacional de obtenção de dados de satélites digitais, em tempo real, a partir do serviço de disseminação de dados da Organização Europeia para a Exploração de Satélites Meteorológicos (EUMETSAT).
LETRAS AMBIENTAIS.5 fatos sobre a gigante nuvem de poeira do Saara que chegou às Américas. Acessado em: 26/12/24. Link: https://www.letrasambientais.org.br/posts/5-fatos-sobre-a-gigante-nuvem-de-poeira-do-saara-que-chegou-as-americas
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