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terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Famílias separadas, direitos em disputa: o drama dos brasileiros no labirinto da imigração dos EUA
Quando Pedro* e André* atravessaram o Rio Grande, na fronteira entre México e Estados Unidos, carregavam mais do que mochilas leves e documentos improvisados. Levavam a esperança de recomeçar. Em poucas horas, essa expectativa se transformou em uma longa travessia institucional: detenção, separação familiar, audiências migratórias e, por fim, deportação. O caso dos dois irmãos brasileiros — um maior de idade, o outro menor — tornou-se símbolo de um fenômeno maior: o aumento expressivo de deportações de brasileiros e o endurecimento do sistema migratório norte-americano.
Em 2025, os EUA registraram um dos maiores volumes de deportações de brasileiros da série recente. Foram mais de 2,2 mil pessoas removidas oficialmente, com estimativas que ultrapassam 3 mil quando se incluem voos fretados e repatriações humanitárias. O crescimento em relação a anos anteriores foi significativo, acompanhando o fortalecimento de políticas de “tolerância zero” para entradas irregulares e a ampliação de mecanismos como a deportação sumária.
O caminho até a detenção
O roteiro é recorrente. Após cruzar a fronteira, muitos imigrantes se entregam à Patrulha de Fronteira (CBP) na tentativa de iniciar um pedido de asilo. A partir daí, dois caminhos são possíveis. O primeiro é a expedited removal, a deportação acelerada, sem audiência formal com juiz. O segundo, mais longo, envolve o encaminhamento ao tribunal de imigração, administrado pelo Departamento de Justiça.
Pedro e André seguiram esse segundo percurso — mas separados. Por ser menor de idade, André foi enviado a um sistema de acolhimento federal. Pedro, adulto, foi encaminhado a um centro de detenção administrado pelo ICE, a agência responsável por prisões migratórias internas e execução de deportações. Durante meses, os irmãos ficaram sem contato direto.
A separação familiar não é exceção. Ela decorre de protocolos administrativos distintos para adultos e menores, frequentemente criticados por organizações de direitos humanos. “É uma política que fragmenta laços e aprofunda traumas”, afirma uma advogada de imigração em Houston que acompanha casos semelhantes.
Dentro do tribunal de imigração
O processo judicial migratório nos EUA não ocorre no Judiciário tradicional. Ele é administrativo, vinculado ao Executivo. Tudo começa com o Notice to Appear (NTA), documento que acusa formalmente o imigrante de violar leis migratórias.
A primeira audiência, chamada de Master Calendar Hearing, dura poucos minutos. O juiz confirma dados, pergunta se há advogado e identifica quais pedidos legais serão apresentados — como asilo ou cancelamento de deportação. A decisão real ocorre na Individual Hearing, quando o imigrante apresenta provas, testemunhas e seu próprio depoimento.
É nessa etapa que o sistema revela uma de suas maiores desigualdades: não há defensor público garantido. Quem não pode pagar advogado depende de listas de assistência gratuita. Dados de pesquisas acadêmicas mostram que a chance de sucesso em pedidos de asilo praticamente triplica quando o imigrante está assistido por um profissional.
Pedro compareceu às audiências acompanhado por intérprete, mas sem defesa robusta. Seu pedido de asilo foi negado. Sem novos recursos viáveis, recebeu ordem de remoção. Em um voo fretado, retornou ao Brasil meses depois. André, por ser menor, teve acompanhamento diferenciado, mas também acabou retornando ao país.
Direitos no papel, limites na prática
Mesmo sem documentos, imigrantes detidos possuem direitos básicos garantidos por tratados internacionais e pela Constituição dos EUA. Entre eles:
• saber o motivo da detenção;
• fazer ligações para familiares, advogados e consulados;
• ter acesso a intérprete;
• solicitar asilo ou proteção contra tortura;
• receber atendimento médico básico;
• não ser coagido a assinar deportação voluntária.
Na prática, porém, denúncias de violações são frequentes. Organizações relatam dificuldades de acesso a advogados, barreiras linguísticas, atendimento médico precário e pressão psicológica para que detidos aceitem sair do país rapidamente.
“Existe uma diferença enorme entre o que a lei garante e o que acontece dentro dos centros de detenção”, resume um pesquisador especializado em políticas migratórias.
O perfil dos deportados
Os dados disponíveis indicam que a maioria dos brasileiros deportados está em idade economicamente ativa. Em um voo oficial analisado pelo governo brasileiro, quase 65% dos repatriados tinham entre 21 e 40 anos. Também há presença de adolescentes e crianças, ainda que em menor proporção.
Quanto à origem no Brasil, estados como Minas Gerais, São Paulo e regiões do Norte aparecem com frequência entre os destinos finais após o retorno, refletindo antigas redes migratórias que conectam cidades brasileiras a polos de trabalho nos EUA.
Um sistema sobrecarregado
O sistema de imigração norte-americano opera sob forte pressão. Juízes acumulam milhares de processos em atraso. Audiências por videoconferência tornaram-se rotina, principalmente em centros de detenção afastados dos grandes centros urbanos. Para críticos, a velocidade imposta a certos casos compromete a qualidade das decisões.
Ao mesmo tempo, o discurso político de endurecimento migratório reforça a ideia de que a deportação rápida é um instrumento de controle fronteiriço. O resultado é um paradoxo: enquanto o país depende historicamente da mão de obra imigrante, intensifica mecanismos que produzem instabilidade social e familiar.
O impacto humano
Para além das estatísticas, histórias como a de Pedro e André expõem a face humana do fenômeno. O período de detenção deixou marcas físicas e emocionais. A separação forçada agravou o sofrimento psicológico. No retorno ao Brasil, ambos enfrentaram o desafio de recomeçar sem o dinheiro investido na travessia e com a sensação de derrota.
“Eles não voltam ao ponto de partida. Voltam diferentes”, afirma um assistente social que atua em programas de acolhimento a repatriados.
Um debate que atravessa fronteiras
O caso dos irmãos brasileiros sintetiza uma questão maior: até que ponto a soberania dos Estados pode se sobrepor aos direitos humanos universais? Nos EUA, na Europa e em outras regiões do mundo, o controle migratório tornou-se campo de disputa política, ideológica e ética.
Enquanto governos falam em segurança, organizações humanitárias alertam para o risco de normalizar a desumanização. No meio desse embate, milhares de brasileiros continuam tentando atravessar fronteiras — físicas e burocráticas — em busca de oportunidades.
E, como Pedro e André aprenderam da forma mais dura, o caminho raramente termina na linha do horizonte. Muitas vezes, termina diante de um juiz, dentro de uma sala fria, onde o futuro depende de poucos minutos de audiência.
*Nomes alterados para preservar a identidade dos envolvidos.
Por Alexandre Rangel
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
sexta-feira, 27 de junho de 2025
terça-feira, 15 de outubro de 2024
Litígios internacionais miram empresas e setores-chave do Brasilo
Matéria publicada originalmente no link: https://www.migalhas.com.br/quentes/417443/litigios-internacionais-miram-empresas-e-setores-chave-do-brasil
Fundos abutres financiam ações internacionais contra empresas nacionais, mirando setores estratégicos para o Estado brasileiro.
Ninguém duvide: estamos diante de um novo tipo de guerra econômica entre Estados soberanos.
Agora, pretensos fundos de "investimento" - compostos por indivíduos não identificados - financiam litígios internacionais contra empresas brasileiras, com foco especial nos setores essenciais da nossa economia.
Embora esses processos aleguem buscar justiça, o que ocorre, na prática, é um impacto negativo sobre setores nos quais o Brasil possui forte presença no mercado internacional. Paralelamente, promete-se aos investidores uma rentabilidade surreal de até 22% ao ano, transformando esses litígios em uma fonte de lucro considerável.
A estratégia envolve ações contra empresas brasileiras em tribunais europeus, considerados mais lucrativos e favoráveis aos reclamantes. No entanto, para as comunidades e trabalhadores diretamente afetados, o que resta, ao final, são migalhas.
O modelo de negócios dos fundos abutres
O funcionamento desses fundos é cuidadosamente elaborado e envolve diversas partes em uma cadeia bem organizada.
Primeiro, investidores não identificados alocam recursos nesses fundos, atraídos pela promessa de retornos altos e consistentes, estimados em 22% ao ano. As aplicações, geralmente de longo prazo, mantêm o capital imobilizado para garantir a continuidade das operações.
Em seguida, o fundo contrata escritórios de advocacia especializados em litigância predatória contra empresas brasileiras, com foco especial naquelas que detêm uma presença significativa no mercado global em setores estratégicos. Para atuar no Brasil, estabelecem parcerias com bancas locais, que funcionam, na prática, apenas como intermediárias.
A partir daí, monta-se uma verdadeira guerrilha judicial, tanto no Brasil quanto no exterior, e muitos acabam cooptados pela aparência de que essas ações são humanitárias. Até mesmo municípios brasileiros têm se envolvido nessas demandas. Não por acaso, o ministro Flávio Dino impôs restrições rigorosas à contratação de escritórios estrangeiros por entes municipais.
Ao final, quando a demanda é bem-sucedida, apenas uma pequena parcela dos valores obtidos é destinada às vítimas. A maior parte, no entanto, alimenta o fundo, remunerando os investidores e viabilizando novas investidas.
Assim, cria-se um ciclo contínuo e lucrativo de litígios, onde o lucro prevalece sobre o propósito.
Esse modelo não apenas lucra com ações judiciais, mas transforma problemas sociais e ambientais em oportunidades financeiras. Na prática, o verdadeiro interesse dos fundos está em maximizar a rentabilidade para seus investidores, enquanto às vítimas restam compensações mínimas e valores residuais. E tudo isso sem sequer considerarmos um provável interesse oculto em prejudicar setores estratégicos da economia brasileira, numa guerra comercial velada.
Litígios estratégicos na Europa contra empresas brasileiras
Atualmente, pelo menos cinco litígios internacionais significativos envolvem empresas brasileiras:
Brumadinho: Após o rompimento da barragem da Vale, que causou centenas de mortes e destruição ambiental, fundos abutres movem ações na Europa. Embora aleguem buscar compensações para as vítimas, o verdadeiro foco é financeiro, explorando a possibilidade de ganhos vultosos.
Mariana: A tragédia de Mariana, que está prestes a ser repactuada no Brasil, também é alvo de litígios em Londres. Os processos internacionais argumentam que o Judiciário brasileiro seria incapaz de fornecer compensação adequada, buscando reparações adicionais para além dos acordos locais.
Setor Citrícola: No setor de cítricos, ações anticompetitivas estão sendo movidas contra grandes empresas brasileiras, tanto em Londres quanto no Brasil. Litígios patrocinados no STJ reforçam a tese apresentada na Europa. Mesmo com acordos firmados e prescrição do caso no Brasil, os processos continuam, em uma estratégia de prolongar as demandas e criticar o Judiciário brasileiro nos tribunais europeus.
Barcarena: O naufrágio do navio Haidar, que transportava 5 mil bois vivos e resultou em derramamento de óleo no rio Pará, é alvo de ações adicionais em Londres e Amsterdã. Mesmo com um acordo firmado com autoridades brasileiras, fundos abutres buscam mais compensações no exterior, explorando as diferenças entre as jurisdições.
Braskem: A Braskem enfrenta litígios internacionais devido a alegações de danos ambientais causados por sua produção de cloro-soda em Alagoas.
Impacto na economia brasileira e na soberania nacional
Esses fundos, conhecidos como "fundos abutres" por se aproveitarem de situações adversas, focam deliberadamente em empresas que atuam em setores-chave do Brasil, revelando uma estratégia bem definida. Os litígios movidos não são aleatórios: agronegócio, mineração e indústria alimentícia são os principais alvos, setores que, notoriamente, são vitais para a economia e para a balança comercial brasileira.
Essa estratégia não apenas impacta a economia diretamente, mas também enfraquece a competitividade do Brasil no mercado global.
Nesse sentido, tal litigância funciona como um instrumento indireto de pressão econômica.
Do contencioso estatal à litigância privada: uma nova forma de guerra comercial?
A atuação desses fundos lembra os contenciosos internacionais que, outrora, foram travados por países na OMC. A roupagem é nova, mas a intenção é antiga. No passado, disputas comerciais eram conduzidas por nações para pressionar economias concorrentes. Um exemplo clássico foi o caso do algodão, em que o Brasil enfrentou sanções e retaliações comerciais num duro litígio na Organização Mundial do Comércio.
Hoje, a estratégia parece ter mudado. Agora, são fundos compostos por investidores anônimos que patrocinam litígios contra grandes empresas brasileiras. Mudou-se o nome, mas os impactos permanecem semelhantes aos dos contenciosos internacionais tradicionais.
Assim, o país se vê pressionado por ações judiciais que, embora pareçam isoladas e legítimas, atingem seus principais produtos de exportação e interferem na estruturação das cadeias produtivas nacionais.
Como em tudo no mundo das finanças, basta seguir o rastro de quem se aproveita desse mecanismo para descobrir quem o financia. A grande pergunta é: o que está por trás desse súbito interesse em prejudicar o minério, a agricultura e a pecuária brasileiros? Quem será o verdadeiro "patrocinador" dessas disputas?
Ganha uma flor quem souber nos responder!
quinta-feira, 10 de outubro de 2024
Sem clima: o domingo em que a direita tomou o poder em Sinop por 4 anos
Em menos de 24 horas entre a véspera e o domingo de eleição, quatro cenas em diferentes pontos de Sinop (MT), a 500 km da capital Cuiabá, ajudam a explicar o resultado da corrida eleitoral e a correlação de forças na “capital do Nortão” de Mato Grosso, mais antigo polo do agronegócio na rota da BR-163.
Na véspera do pleito, Marcos Vinicius Borges, um jovem advogado condenado por estelionato e tráfico de influência, famoso nas redes sociais por sua vida de ostentação, percorre as ruas da cidade num veículo conversível de luxo avaliado em R$ 450 mil, escoltado por 14 membros de um motoclube, pedindo votos para sua própria candidatura a vereador pelo PSDB.
Na tarde quente do domingo de eleição, um armador de vigas na construção civil da cidade faz, em sua folga, uma porção de concreto sob um sol escaldante diante de sua casa, numa favela que nem nome possui, próxima ao Jardim Araguaia. Ele vai erguer um batente para proteger os bens de sua família antes de as chuvas começarem, pois sua casa fica em um leve desnível por onde a água verte com força no período chuvoso. À Agência Pública, ele sorriu ao contar que não iria votar – “Eu tô ocupado”, disse.
Próximo ao aeroporto da cidade, dois idosos e um homem na casa dos 30 anos usam dois baldes de água, galhos umedecidos e um rastelo de metal para combater, de improviso e sem apoio, um incêndio criminoso no loteamento rural São Lucas – repleto de chácaras e casas de madeira, vizinho a uma fazenda com 4,2 mil hectares voltados ao plantio de milho e soja. O incêndio só foi controlado graças à chegada providencial de uma chuva por 20 minutos no local, evitando o alastramento das chamas.
Enquanto isso, a menos de 100 metros dali, com a apuração praticamente encerrada, pouco mais de 50 militantes do PT consolam a mulher mais bem votada na disputa por uma vaga na Câmara Municipal. Mesmo com seu bom desempenho nas urnas, Graciele Marques dos Santos, a única vereadora de esquerda em Sinop, não se reelegeu.
A vaga deixada pela vereadora do PT se soma a outras sete que terão novos titulares a partir de 1º de janeiro de 2025. A Câmara será inteiramente composta por políticos de direita e acolherá o “advogado ostentação” do PSDB, que pedia votos na véspera da eleição a bordo de um carro esportivo de luxo.
O resultado das urnas no último domingo (6) representou a posição de pouco mais de dois terços da população da cidade. Tal como o armador de vigas que trabalhava em melhorias para sua casa, mais de 37 mil eleitores – 31,5% do total – não foram votar.
Um dos dilemas para Sinop é a prevenção e o combate aos incêndios criminosos. A cidade tem uma série de terrenos baldios e lavouras em seu perímetro urbano, como o loteamento rural São Lucas, que são alvos constantes de queimadas ilegais como a observada pela Pública no domingo de eleição.
“Aqui tem gente que parece que não se importa com o outro, que taca fogo por maldade mesmo, porque todo mundo sabe do risco disso pras famílias daqui – minha mãe mora aqui do lado, por isso vim correndo assim que vi a fumaça subindo”, disse à reportagem um dos homens que combatia o fogo no loteamento, que se apresentou apenas como Felipe.
Mulher mais votada, vereadora não se reelege pelo estigma contra a esquerda
Única mulher na atual legislatura, a vereadora Graciele Marques dos Santos, a Professora Graciele (PT), está entre os oito vereadores que não se reelegeram. Pedagoga e representante dos profissionais da educação na Câmara, ela ficou conhecida na cidade como uma defensora de pautas ambientais, feministas, LGBTQIA+ e da agricultura familiar em meio ao fenômeno do bolsonarismo na política sinopense.
Não à toa, Graciele sofreu uma série de ataques e intimidações nos últimos quatro anos. “Divulgaram uma fake news que eu ia protocolar um projeto para impedir o bloqueio da BR[163], e a Câmara foi tomada, houve um monte de ofensas, havia mensagens em grupos de WhatsApp, e os manifestantes vieram, xingaram, tentaram impedir minha fala, atacaram minha assessoria e o então presidente [da Câmara, Elbio Volkweis] não fazia nada… nesse dia, que a gente mais precisava, não tinha um policial”, disse à Pública.
“Na eleição atual, teve gente envolvida com toda a crise pós-eleições em 2022 aqui que tentou capitalizar seu papel, tentando se eleger e atuando nas candidaturas de extrema direita… contamos umas dez candidaturas, incluindo a do ex-presidente da Câmara [Elbio Volkweis, reeleito em 2024], que teve envolvimento com muitas ações na época”, afirmou também.
Mesmo com o viés conservador do eleitorado de Sinop, Graciele conseguiu uma das maiores votações entre todos os candidatos a vereador, com 1.882 votos, tornando-se também a mulher mais bem votada para a Câmara Municipal em 2024.
Mas os outros dez candidatos da chapa não alcançaram o coeficiente eleitoral mínimo para fazer valer seus votos. “É muito triste, sim, mas temos de celebrar o trabalho da nossa campanha, que conseguiu um resultado histórico – que nos mantém na luta, porque não podemos parar”, disse a vereadora à Pública.
Para Graciele, sua votação expressiva renova o ímpeto de manter-se ativa, defendendo pautas progressistas, mas o contexto ampliado de Sinop segue alinhado ao bolsonarismo. “Tudo que ele [Jair Bolsonaro] representa ‘colou’ muito bem aqui: negacionismo em relação à vacina, o trato horroroso com a imprensa, com as mulheres, com pessoas negras, tudo isso ecoa muito aqui, na vida prática de muitas pessoas”, afirmou.
“As lideranças do agro aqui têm muito dessas práticas, inclusive com denúncias de trabalho análogo à escravidão, uso de veneno [agrotóxico] dentro da cidade. Vemos um desrespeito sistemático ao ser humano, à vida e aos direitos humanos no discurso e na prática de grandes fazendeiros”, disse a vereadora.
Advogado se elege vereador à base de ostentação e polêmicas
Se a esquerda perdeu sua única representante na Câmara de Sinop, a direita avançou e dominou a “renovação” na Casa. Entre os oito novos vereadores eleitos em 2024, aparece o advogado Marcos Vinicius Borges, o Dr. Marcos Vinicius (PSDB) – mais conhecido como “advogado ostentação”, que desfilava em um carro de luxo pedindo votos sob a escolta de um motoclube na véspera da eleição. Ele se elegeu com menos votos que Graciele dos Santos: 1.261 votos, pois sua chapa majoritária alcançou o coeficiente eleitoral.
A ficha de Marcos Vinicius Borges é cheia de polêmicas, incluindo uma tentativa de assassinato sofrida dentro do seu escritório em Sinop. Ele já foi condenado por estelionato contra clientes, caso no qual alega inocência; teve sua licença da OAB suspensa por um mês, graças à sua ostentação nas redes, e defendeu um homem envolvido numa chacina de sete pessoas – incluindo uma garota de 12 anos – em um bar de Sinop, um crime motivado por uma partida de sinuca, retirando-se da defesa do acusado pouco antes do julgamento do caso.
Na campanha para vereador, Vinicius Borges usou lemas típicos da direita, como a cruzada “anticorrupção”, e focou no eleitorado jovem da cidade, como observado in loco pela Pública. Ele percorreu bares frequentados pela juventude universitária de classe média e alta, fazendo panfletagem nos locais atulhados de jovens.
“Eu não uso um centavo de dinheiro público na minha campanha! Vou trabalhar contra a corrupção, já denunciei os ‘esquemas’ na saúde do município – tá tudo na rede”, disse o candidato à Pública, durante uma de suas panfletagens em Sinop.
A prestação de contas de Borges ao TSE, porém, mostra que ele usou verba do fundo eleitoral em sua módica campanha. Ao todo, o candidato arrecadou R$ 3,2 mil para concorrer a uma vaga na Câmara, incluindo recursos do diretório municipal do PSDB. Indagado pela reportagem sobre quais seriam os “esquemas na saúde” de Sinop, Borges não se aprofundou – “Tá tudo lá no meu ‘insta’, me segue lá!”, disse.
Como um típico influenciador digital, ele se aproveitou das redes, integrando a chapa derrotada para a prefeitura de Sinop de Mirtes Eni Leitzke Grotta, a Mirtes da Transterra (Novo), cujo marido e filha foram denunciados por participação da tentativa de golpe no dia 8 de janeiro em Brasília (DF).
Um dos principais apoiadores da candidata é o ruralista Antônio Galvan, ex-diretor da Aprosoja na mira do STF por envolvimento em atos antidemocráticos durante o governo Bolsonaro.
A Pública perguntou a Mirtes e Galvan, que estavam lado a lado durante uma carreata na véspera da eleição, sobre quais eram os planos ambientais da chapa, considerando-se o avanço da destruição ligada ao agronegócio na região. Tanto ela quanto Galvan disseram apenas que era “um dia de celebrar a candidatura”.
Já outros apoiadores de Mirtes aderiram ao sinal do M, tanto pelo nome da candidata quanto por referência ao candidato derrotado em São Paulo Pablo Marçal (PRTB), outro que usou e abusou das redes sociais para conquistar votos.
Por trás da riqueza do agro, uma ocupação sem nome
Longe da ostentação e da fama de riqueza de Sinop, existe uma pequena ocupação urbana ao lado do Jardim Araguaia, nas margens da sede municipal, que passou discreta pelo período eleitoral, esquecida pelos candidatos da cidade.
Sem nome, a favela de três ruas de chão batido é o lar de famílias de trabalhadores subalternos no comércio local, que não ganham o suficiente para alugar imóveis mais bem estruturados em outros bairros de Sinop.
“Assim, nosso problema aqui é a terra, né? Tudo é muito caro aqui, não tem condição de trabalhar só para pagar um aluguel de R$ 1,5 mil. É a nossa alternativa, tentar conquistar um pedacinho de terra”, disse à Pública o armador de vigas Jaílson Severino dos Santos.
Baiano de Feira de Santana, ele é mais um dos migrantes que se mudaram para Sinop em busca de melhores oportunidades de emprego. Como em outros municípios na rota da BR-163, a cidade atrai migrantes nordestinos devido à fama de local rico, com diversas empresas do agronegócio e também da construção civil.
“Do que eu posso dizer, não veio nenhum candidato pedir voto pra gente aqui, não. A gente sabe que nessa época sempre eles andam pela cidade prometendo as coisas, mas aqui ninguém veio me pedir voto… aqui a gente fortalece uns aos outros, sabe?”, afirmou Santos.
Ele disse ainda que não votaria porque estava “ocupado”, trabalhando em sua folga por melhorias em sua casa. “Eu sempre justifico, melhor aproveitar o dia fazendo as minhas coisas aqui, logo começam as chuvas… já perdi tudo aqui outras vezes, a água invade mesmo, não é fácil. Mas a gente recomeça, não tem outro jeito. O bom aqui da comunidade é que a gente é unido, do asfalto pra lá não dão muita atenção pra gente… eu até entendo o lado deles, nós estamos free, de graça, mas é o que a gente pode ter agora”, disse.
Na rua que divide a ocupação do bairro Jardim Araguaia, Antônio Francisco, maranhense que vive em Sinop há sete anos, tinha uma visão levemente diferente daquela de Santos.
“A gente foi votar, sim, votei num vereador que esteve aqui, mais por consideração mesmo, porque ele veio, não porque a gente imagina que vai fazer alguma coisa pela gente. Pra prefeito, nós votamos no que já tava… só pra gente não votar em branco mesmo”, disse, em referência ao candidato reeleito com 50,7 mil votos, pouco mais de 68% dos votos válidos naquele dia – o megaempresário e fazendeiro Roberto Dorner (PL).
Francisco trabalha há quatro anos no ramo da construção civil em Sinop e vive sob a expectativa de regularização fundiária da ocupação, inclusive por ter feito melhorias em sua casa no local. “Muitos moram aqui não é porque quer, é porque não têm outra opção. Já morei de aluguel, mas, com quatro crianças, medicação, a comida da família, fica pesado”, disse ao lado de sua esposa, Cleide.
“Já teve oportunidade de oferecerem coisa melhor pra gente, mas teve problema, não informaram direito nossa opção, sabe? Mas a gente sabe o que pode acontecer – que nem as outras ocupações mais ali pra cima, que o pessoal tirou um tempo atrás. Morar aqui é que nem comprar um bilhete da Mega-Sena: se ganhar, tá bom, mas se não ganhar a gente já sabe do risco”, afirmou ainda Francisco.
Sinop, terra grilada?
Porém, um caso em andamento no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) sugere que a área controlada pelo atual Grupo Sinop à beira da BR-163 seria, na verdade, “fruto de fraude”. O caso veio à tona na região por meio do veículo local GC Notícias, em 2018, que teria tido acesso a um relatório elaborado pela Polícia Federal, ainda nos anos 2000, para checar a procedência de áreas na faixa da BR-163 disputadas pelo grupo com o órgão predecessor do atual Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
Aberta em 1998, a ação segue em curso até hoje, com movimentações recentes. Em fevereiro de 2023, o juiz federal da 1ª Vara Federal Cível e Agrária em Sinop, Ciro José de Andrade Arapiraca, resumiu o caso como um “incidente de falsidade de título dominial”, da parte do Grupo Sinop, que foi “acolhido em primeira instância e confirmado em instâncias superiores”.
Porém, o Grupo Sinop conseguiu uma vitória recente no caso, por meio de uma liminar que cancelou a “nulidade da matrícula 1717”, o registro que deu origem à cidade e que mantém parte do controle territorial do município com a empresa. A informação consta na decisão mais recente da ação em andamento na Vara Federal de Sinop, assinada pelo mesmo juiz federal Ciro José de Andrade Arapiraca em 25 de julho de 2024.
A Pública entrou em contato com o Grupo Sinop, para saber sua posição diante da suspeita de grilagem a partir do caso em curso na Justiça Federal, mas não teve retorno até o fechamento. Caso haja, o texto será atualizado.
terça-feira, 8 de outubro de 2024
segunda-feira, 7 de outubro de 2024
Lula diz que vai ‘acabar’ com as bets caso regulamentação não funcione
Presidente também comentou que não é 'aceitável' beneficiários do Bolsa Família utilizarem dinheiro com apostas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, no último domingo (6), dia das eleições municipais em todo o país, que irá “acabar” com as apostas esportivas no Brasil caso a regulamentação não funcione.
As declarações foram dadas na Escola Estadual João Firmino Correia de Araújo, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, local de votação do presidente.
“Nós estamos fazendo uma regulação e, ainda em outubro, vamos tirar 2 mil sites de apostas desse país. Depois vamos saber o que a regulamentação vai garantir de benefício, de certeza que a coisa está sendo feita com seriedade. Se não der resultado com a regulamentação, eu não terei nenhuma dúvida em acabar definitivamente com isso”, disse Lula.
Bets e Bolsa Família
No discurso, o presidente também comentou que não é “aceitável” beneficiários do Bolsa Família utilizarem dinheiro com apostas. “Nós não aceitamos a ideia de que o pessoal do Bolsa Família está gastando dinheiro fazendo apostas, não é possível que tenha alguém fazendo isso”, ressaltou.
Impacto das bets
O presidente afirmou que trata o vício em bets como uma “doença”. De acordo com o Banco Central (BC), apenas em agosto, beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em apostas por meio de pix.
“Conheço gente que perdeu casa, que perdeu carro, que gasta o salário todo numa sexta ou sábado. Isso é uma doença que nós precisamos tratar também com o aspecto da saúde”, disse.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou, na última semana, que sites de apostas irregulares serão retirados do ar. A partir de 11 de outubro, serão bloqueadas as casas de apostas que não solicitaram autorização de funcionamento à Fazenda ou que tiveram suas solicitações recusadas.
A lista com as 199 marcas autorizadas a operar no país foi publicada pelo Ministério da Fazenda. Com a divulgação, o usuário deverá consultar a lista para ver se o site ou a empresa está nela. Caso não esteja, o dinheiro está depositado em um site irregular e deverá ser retirado para não provocar prejuízo ao apostador.
sexta-feira, 27 de setembro de 2024
Governo Lula pode proibir uso do cartão do Bolsa Família para pagar bets
Lula pediu providências urgentes depois de nota técnica do BC sobre gastos com apostas
O presidente Lula (PT) cobrou do governo providências urgentes para conter o endividamento e o comprometimento da renda da população mais pobre por conta das bets, informam os repórteres Marianna Holanda e Ricardo Della Coletta da Folha de S. Paulo. Entre as medidas estudadas pelo governo, está a proibição do uso do cartão do Bolsa Família para apostas.
O pedido foi originado após divulgação da nota técnica do Banco Central na terça-feira (24), que aponta que beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bi com bets em agosto de 2024.
Governo: regra de limite zero
O ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, afirmou que Lula “a regulamentação das bets, coordenada pelo Ministério da Fazenda e Casa Civil, deve conter regra com limite zero para o cartão de benefícios sociais para jogos e controle com base no CPF de quem joga.” Lula, segundo o ministro, defende que o “programa é para alimentação e necessidades básicas’.
O veto ao uso do cartão do Bolsa Família para pagar apostas será possível pelo monitoramento por CPF que está previsto nisténas regras e normas para a regulação das bets enviados pelo Ministério da Fazenda ao Congresso.
De acordo com o ministro da Fazenda Fernando Haddad, “você vai ter CPF por CPF de quem está apostando, tudo sigiloso, mas ele vai abrir essa conta. Vamos poder ter um sistema de alerta em relação às pessoas que estão revelando uma certa dependência psicológica do jogo”.
As bets são liberadas no país desde 2018 em lei aprovada no governo Michel Temer (MDB). Jair Bolsonaro (PL) deveria ter regulamentado o mercado em sua gestão (2019-2022), mas não tomou providências para regular o mercado.
No governo Lula, foi criada uma secretaria para cuidar de prêmios e apostas no Ministério da Fazenda para elaborar as leis que vão regulamentar o mercado. A lei das bets só em vigor em janeiro de 2025, mas a partir de outubro, os sites que não se cadastraram para serem regularizadas junto à Fazenda deverão ser derrubados.
Erika Hilton pede ao MPF o bloqueio do ‘Jogo do Tigrinho’ no Brasil
Deputada disse que medidas urgentes são necessárias 'antes que mais gente morra'
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) protocolou nesta quinta-feira, 26, representação no Ministério Público Federal para que o chamado “Jogo do Tigrinho” seja bloqueado no Brasil.
“Acabo de pedir à Justiça, por meio do Ministério Público Federal, o bloqueio do acesso aos sites, aplicativos e plataformas de jogos como o ‘Tigrinho’, o ‘Aviãozinho’ e outros caça-níqueis online em todo o território nacional”, informou a deputada.
“Nos últimos tempos, revelou-se que esses jogos estão DESTRUINDO o patrimônio de famílias, inclusive as beneficiárias do Bolsa Família, e também o patrimônio do nosso País, que perde bilhões todos os meses para esse mercado abusivo”, Hilton escreveu numa rede social.
“Por meio de publicidade ilegal, inclusive com ‘influencers mirins’ recomendando os jogos à crianças (que estão jogando até durante a aula), promessas de ‘dinheiro fácil’ e influenciadores que fraudam seus seguidores, esses jogos têm entrado nos lares, e levado o vício às famílias brasileiras. Diferente das apostas esportivas, por exemplo, esses jogos online são verdadeiros cassinos, abertos 24 horas por dia, que sugam, a cada segundo, um pouco mais da renda e do patrimônio do brasileiro”, diz o texto de Hilton.
Segundo a parlamentar, a prática configura “crime contra a dignidade humana, contra a criança e o adolescente, e contra a economia do nosso país”.
“A ação precisa ser rápida, e precisa ser JÁ. E é papel de nós, Parlamentares, trabalharmos de todas as formas possíveis pra pararmos essa sangria antes que mais gente MORRA”, ela escreveu.
Erika Hilton: ‘Não dá tempo de esperarmos a regulamentação surtir efeito’
No pedido, a deputada diz que as empresas PG Soft Games e Sribe LTDA, detentoras dos jogos “Tigrinho/Fortune Tiger” e “Coelhinho/Fortune Rabir” e “Aviazinho/Aviator”, agem de acordo com métodos que caracterizam crimes contra a economia popular, a publicidade abusiva contra consumidores e a publicidade infantil.
Erika Hilton argumenta que o jogo deve ser bloqueado até que o processo de regulamentação dos jogos de apostas no Brasil seja finalizado.
A parlamentar paulista alertou para publicidades feitas por influenciadores famosos e diz que a divulgação dos jogos costuma ser voltada para jovens e adolescentes, especialmente por causa da iconografia do jogo.
‘Dinheiro do Bolsa Família não é para apostas’, diz Wellington Dias
Nota foi divulgada após BC apontar gasto de R$ 3 bilhões em bets
O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, divulgou nota nesta quarta-feira (25) afirmando que os programas sociais de transferência de renda, como o Bolsa Família, foram criados para garantir a segurança alimentar e atender às necessidades básicas das famílias em situação de vulnerabilidade.
“A prioridade sempre será combater a fome e promover a dignidade para quem mais precisa”, destacou.
A nota foi divulgada logo após publicação de nota técnica elaborada pelo Banco Central (BC) que aponta que os beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em bets (empresas de apostas eletrônicas) via Pix em agosto.
Propósito do Bolsa Família
Dias afirma ter solicitado esclarecimentos ao Ministério da Fazenda e destacou ainda a proposta em andamento para a regulamentação desse mercado no Brasil.
“Tenho certeza de que o governo federal, ao tratar desse tema, levará em consideração a proteção dos mais vulneráveis e os impactos sociais que possam surgir”, reforçou, destacando que irá acompanhar a regulamentação e encontrar mecanismos para evitar que dinheiro dos benefícios sociais sejam utilizados em jogos.
“Nosso foco permanece firme: garantir que o Bolsa Família continue sendo um instrumento eficaz de combate à pobreza e à insegurança alimentar. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que esse objetivo se mantenha”, disse, em nota.
segunda-feira, 23 de setembro de 2024
Após crítica do ICL, Ministério da Justiça notifica Engenhão por anúncio de site de acompanhantes
Notificação foi feita "em atenção especial às situações de vulnerabilidade de crianças e adolescentes"
O Ministério da Justiça expediu hoje notificação ao representante legal do Estádio Olímpico Nilton Santos, conhecido como Engenhão, no Rio de Janeiro, para dar explicações sobre a propaganda do site de acompanhantes Fatal Model exibida durante o jogo Botafogo x Corinthians, realizado no dia 14 de setembro.
O documento do ministério cita comentário feito no programa ICL Notícias por Eduardo Moreira, que criticou esse tipo de publicidade feita em evento com classificação indicativa livre.
“A paixão das crianças é o futebol, aí elas veem isso aqui e entram no site para saber o que é… E se depararam com a maior plataforma de acompanhantes do Brasil”, criticou Eduardo Moreira no programa ICL Notícias – 1ª Edição do dia 16 de setembro.
Edu mostrou que o site trata mulheres como “sonho de consumo”. “Além das apostas, além das bebidas, agora pode anunciar prostituição em rede nacional?”, questionou. “O Brasil virou uma distopia onde pode tudo”.
O texto da notificação do Ministério da Justiça informa que foi emitida “em atenção especial às situações de vulnerabilidade de crianças e adolescentes e em respeito à sua proteção constitucional e ao Estatuto da Criança e do Adolescente”.
Ministério da Justiça dá 5 dias para resposta
A SAF do Botafogo, que tem a concessão do estádio, está convocada a “apresentar esclarecimentos sobre a veiculação de publicidade de jogos de aposta, bebidas alcoólicas e plataforma de acompanhantes, especificando o
amparo legal para a realização de tais publicidades” em prazo “não superior a 05 (cinco) dias”, a contar do recebimento da notificação.
O estádio do Engenhão, porém, não é o único a exibir publicidade da Fatal Model durante os jogos. O site anuncia em vários jogos do Campeonato Brasileiro e esse tipo de propaganda é exposta em praticamente todas os locais de jogos do Brasileirão.
Além disso, o site participou do pool de patrocinadores oficais dos campeonatos do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul em 2024.
A jogada mais ousada da Fatal Model, porém, foi o contrato firmado com a CBF para exibição da marca nos dois amistosos preparatórios do Brasil para a Copa América, contra México e Estados Unidos.
A notificação do Ministério da Justiça está assinada por Maria Fernanda Castro Velloso, coordenadora de Monitoramento de Mercado, Daiane Lopes Lima, coordenadora-Geral de Estudos e Monitoramento de Mercado e Vitor Hugo do Amaral Ferreira, diretor do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor.
quinta-feira, 19 de setembro de 2024
X começa a cumprir ordens do STF e Moraes diz que é preciso ‘paciência’
Empresa tirou contas do ar e pagou multas; ainda falta indicar representante legal do X no Brasil
O X começou a cumprir ordens judiciais do Supremo Tribunal Federal (STF) na noite de quarta (18) e retirou do ar contas que o ministro Alexandre de Moraes determinou que fossem suspensas.
O próprio STF está monitorando o movimento. A reportagem também confirmou que os perfis de fato foram apagados.
Foram retidas por ordem judicial as contas do X do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, que está foragido nos EUA, de Paulo Figueiredo, ex-apresentador da Jovem Pan e investigado no inquérito que apura tentativa de golpe de estado no Brasil, e do youtuber Monark, entre outras.
A suspensão foi entendida no STF como um sinal de que o bilionário Elon Musk finalmente pode estar revendo a decisão de descumprir ordens judiciais no Brasil. Até agora, ele se negava a retirar as contas do ar, a pagar as multas aplicadas pelo STF por causa disso, e a indicar um representante no Brasil.
Em agosto, o X anunciou que estava fechando o escritório no país para que seu representante não fosse preso. Descumprir ordem judicial no país é crime, com pena prevista de detenção de 15 dias a seis meses. O conjunto de descumprimento de decisões levou Alexandre de Moraes a bloquear o X no país.
Nota sobre volta do X considerada sinal positivo
Um outro sinal positivo emitido por Musk nesta semana foi a nota divulgada pela empresa para tentar explicar a restauração parcial do X no Brasil. A plataforma voltou a ficar acessível para os usuários na quarta (18) mesmo com a determinação de Alexandre de Moraes para que fosse bloqueada.
A empresa de Elon Musk afirmou que a restauração foi involuntária e mostrou espírito de colaboração. “Continuamos os esforços para trabalhar com o governo brasileiro para que ela retorne o mais breve possível para o povo brasileiro”, diz a nota.
O X também pagou nesta semana as multas determinadas pelo STF, num total de R$ 18,3 milhões.
A única coisa que resta a ser cumprida, portanto, é a indicação de um representante no Brasil. A coluna apurou que o bilionário já se reuniu com advogados brasileiros para tentar resolver o problema.
Diante das iniciativas da empresa de Musk, o ministro Alexandre de Moraes afirmou a interlocutores na Corte que é preciso ter “paciência”, indicando acreditar que, apesar de idas e vindas da plataforma e de ataques de Elon Musk, ele acabará cumprindo todas as decisões do STF.
O bilionário pessoalmente segue emitindo sinais trocados em relação ao STF. Na quarta (18), depois de o X voltar a ficar acessível no país, ele escreveu em seu perfil: “Qualquer magia suficientemente avançada é indistinguível da tecnologia”. A frase foi entendida como uma provocação a Alexandre de Moraes.
Apesar das conversas com escritórios brasileiros, o X está tendo dificuldade de encontrar um profissional disposto a assumir a missão, diante da possibilidade de a empresa seguir descumprindo ordens judiciais.
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
PF aprofunda investigação da conexão do plano de tentativa de golpe com ataques no 8/1
Serão tomados novos depoimentos e também avaliou-se a necessidade de novas diligências e análises de dados
A Polícia Federal (PF) está trabalhando nos dados que vinculam fatos e provas entre a tentativa de golpe de estado após a derrota de Jair Bolsonaro (PL) na eleição de 2022 e os ataques aos prédios da Praça dos Três Poderes no dia 8 de janeiro. No entanto, a conclusão do caso foi adiada para outubro.
Os investigadores querem evitar qualquer lacuna e também a possibilidade de que o MPF peça novas diligências após a conclusão do caso na PF, como já ocorreu após os relatórios finais de inquérito do caso das joias e também da falsificação do cartão de vacinação.
A coluna apurou que serão tomados novos depoimentos e também avaliou-se a necessidade de novas diligências e análises de dados.
Existia expectativa de conclusão ainda em setembro, independente das eleições municipais. Mas o compartilhamento de provas após a evolução do caso da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) também deu muitos elementos novos para a investigação sobre o golpe.
quarta-feira, 4 de setembro de 2024
Marcos Pereira desiste de candidatura à sucessão de Lira para abrir caminho a colega de partido
Desistência do presidente do Republicanos dá espaço para surgir solução de consenso
Por Catia Seabra, Julia Chaib e Victoria Azevedo
(Folhapress) – O presidente do Republicanos, Marcos Pereira (SP), indicou a aliados que deve desistir da presidência da Câmara em prol do líder de seu partido na Casa, Hugo Motta (PB). Dessa forma, a disputa pela sucessão de Arthur Lira (PP-AL) ganha novos contornos, com a possibilidade de Motta se tornar um candidato de consenso.
Pereira comunicou sua decisão ao presidente Lula (PT) e a Lira. Ainda nesta noite, o presidente da Câmara conversará com o líder do União Brasil, Elmar Nascimento (BA), para alinhavar a costura desse acordo.
Além de informar Elmar sobre a articulação, falta convencer o líder do PSD, Antonio Brito (BA), a abrir mão da candidatura em nome de um acordo. Segundo um cardeal do centrão, isso ainda não aconteceu.
Integrantes do Planalto, porém, veem com otimismo a chance de construir um acordo.
Impasse na sucessão de Lira
O nome de Motta era ventilado nos bastidores como possibilidade de uma candidatura de consenso, mas esbarrava em Marcos Pereira –que, até então, negava qualquer possibilidade de desistir da disputa.
De acordo com aliados do parlamentar, essa mudança se deu após ele ficar contrariado com a atitude do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, em não abrir mão da candidatura do partido.
Kassab se reuniu com Pereira na semana passada e com Lula na terça-feira (3). Nas duas ocasiões, afirmou que o PSD não retiraria a candidatura de Brito neste momento.
O líder do Republicanos tem a simpatia de membros do governo Lula, além de ser próximo do presidente do PP, Ciro Nogueira (PI).
segunda-feira, 2 de setembro de 2024
STF julga suspensão da rede social X no Brasil; Moraes e Dino deram votos favoráveis
Ministros têm 24 horas para votarem no plenário virtual do STF
A primeira turma do Supremo Tribunal Federal (STF) julga nesta segunda-feira (02) a decisão de bloqueio do X, determinada peo ministro Alexandre de Moraes na sexta-feira (30 de agosto). Os ministros tem até 23h59 da segunda-feira (02) para justificarem os votos no plenário virtual so STF.
Moraes já registrou seu voto favorável na madrugada de segunda-feira. O ministro Flávio Dino acompanhou Alexandre de Moraes e também deu seu voto favorável: “Voto para referendar a decisão (…) sem prejuízo de futuro e imediato reexame à vista da eventual correção da conduta ilegal da empresa em foco.”
Ainda faltam os votos da a ministra Cármen Lúcia e dos ministros Luiz Fux e Cristiano Zanin. A expectativa é que os ministros referendem a decisão de Moraes e mantenham a suspensão da rede social de propriedade do bilionário Elon Musk. A rede foi suspensa na sexta-feira (30 de agosto) por falta de pagamento de multas e pela ausência de representante legal no país.
Entenda o bloqueio do X determinado pelo STF
Desde abril de 2024, Elon Musk tem descumprido ordens do ministro Alexandre de Moraes de bloquear contas de investigados pelo STF por envolvimento em atos antidemocráticos. Musk também não pagou as multas da ordem de R$ 18,35 milhões pelo descumprimento das ordens judiciais.
O escritório da plataforma no Brasil foi fechado em 17 de agosto e, desde essa data, não está sem representante legal no Brasil. A suspensão do X foi determinada até que sejam cumpridas as ordens judiciais, as multas sejam pacas e a rede indique novo representante legal no país.
Decisão de Moraes
O ministro Alexandre de Moraes afirmou, na decisão da sexta-feira (30), que o X incorreu em desobediência judicial e incitou o ódio contra a Suprema Corte. Em seu perfil pessoal, Musk postou imagens com imagens manipuladas de Moraes e passou a acusar o ministro de censura e a dizer que o Brasil vive sob uma ditadura.
O ministro disse escreveu na sentença que “a instrumentalização criminosa de diversas redes sociais, em especial a rede X, também vem sendo investigada em outros países”, citando o caso do dono do Telegram, que foi preso na França.
sexta-feira, 30 de agosto de 2024
Os segredos de Textor (4) — Na sombra dos oligarcas
A proximidade de Textor com oligarcas russos e um endereço na Suíça que une todos os fios da teia
Por Lúcio de Castro*
Testemunha ocular da história.
Para poucas pessoas o batido lugar comum realmente deveria ser aplicado.
Sergey Skaterschikov estava no olho do furacão quando um dos mais significativos capítulos do século 20 aconteceu.
Invisível, ocupou lugares estratégicos no regime que nascia na Rússia quando o muro desabou.
O dom da invisibilidade segue intacto. Sem ser visto, tem sido “coinvestidor e consultor” em negócios de John Textor ao longo dos anos. Presente também na nova empreitada do americano no mundo do futebol através da Index Atlas, nascida na Rússia, com filial em Nova Iorque e agora na Basileia, Suíça. No endereço que une a financeira de Skaterschikov, Textor e por onde passa até a SAF Botafogo, como está ao fim dessa história.
Nascido em 1972 numa Moscou ainda sob a União Soviética, Skaterschikov teve seu nome publicado no Ocidente pela primeira vez em 1994.
Apenas três anos depois do fim do regime comunista e no mesmo ano em que se formou na Universidade Estadual de Moscou em Geografia e Estudos Americanos, o rapaz de então 22 anos foi apontado pelo Wall Street Journal como “o melhor jovem empresário da Europa Central”.
No ano seguinte, em 1995, foi a vez do The New York Times, em reportagem na edição de 23 de julho sobre jovens russos empreendedores, destacar o “rapaz atrapalhado”, e “novo rico”.
Nesse momento, Skaterschikov fundou em Moscou seu primeiro negócio: a Skate Press Consulting Agency, uma empresa de informações financeiras. De acordo com aquele NYT de 1995, um empreendimento já com 50 pessoas. O exato instante no qual, ao mesmo tempo, está se forjando no país o que viria a ser conhecido como “a cleptocracia russa”.
Ainda sob a liderança de Boris Yeltsin, as estatais foram vendidas e o patrimônio nacional entregue a preços irrisórios aos amigos do rei. Aqueles que viriam a ser chamados de oligarcas. Um processo levado adiante e ainda mais radical com a ascensão de Vladimir Putin ao poder, em 1999.
Era Putin marca enriquecimento de empresário próximo a Textor
É nesse cenário que Sergey Skaterschikov deslanchou para a fortuna, ampliando sua teia empresarial. Sempre ligado a empreendimentos que prosperaram nessa Rússia dos anos Putin.
Em 2000, fundou a Index Atlas. Era o rosto da empresa em Moscou e um sócio em Nova Iorque.
No ano de 2002, passou a ser também o Diretor Geral Adjunto de Finanças da OMZ (United Heavy Machinery), empresa russa que atua principalmente na indústria pesada e engenharia. Foi o organizador da entrada da OMZ na Bolsa de Valores de Londres. O período é o mesmo em que o Gazfond, um fundo de pensões ligado a estatal Gazprom, maior empresa de energia da Rússia, e também a maior exportadora de gás natural do mundo, envolvida em uma série de escândalos de corrupção, iniciou significativa compra de ações da OMZ.
Skaterschikov atuou na empresa que viria a ser denunciada por Navalny em desvio de US$ 4 bilhões no oleoduto
O projeto de construção de um oleoduto que levasse o petróleo bruto da Rússia para os mercados do Pacífico asiático como Japão, China e Coreia existia desde os anos 70, ainda na União Soviética. Em 1996, Boris Yeltsin assinou com a China um acordo energético incluindo a construção do “Oleoduto East Siberia — Pacific Ocean” (ESPO).
Com a chegada ao poder em 1999, Putin decidiu tirar do papel o “ESPO”. Em maio de 2003, o governo russo decidiu que duas empresas seriam as responsáveis: a Transneft ficaria responsável pela construção e a Yukos forneceria o petróleo e ambas iniciam as licitações para contratações de empresas parceiras para a obra, que começaria em abril de 2006.
Nesse momento de efervescência, entre 2001 e 2005, Skaterschikov ocupou o cargo de consultor em desenvolvimento estratégico, finanças corporativas e relações com investidores da Transneft.
Em seu material corporativo, a Index Atlas destaca a Transneft como uma das joias da coroa no portfólio de clientes da empresa.
Os contratos da Transneft para a construção do oleoduto são um dos pilares das denúncias que iriam notabilizar Alexey Navalny. Advogado que depois passaria a ser o mais destacado opositor a Putin.
Em 2010, Navalny publicou em site próprio denúncias documentadas acusando a Transneft de ser a ponta do esquema que desviou US$ 4 bilhões, sendo que US$ 2 bilhões teriam sido lavados em contribuições para instituições de caridade.
Em 2021, os documentos revelados pelo Pandora Papers, em reportagem publicada na BBC, terminaram por desenhar o esquema de corrupção que vazou do oleoduto russo: uma rede formada por diversas camadas de empresas em paraísos fiscais, passando por Luxemburgo, Malta e nas Ilhas Virgens Britânicas, com a finalidade de ocultar a origem do dinheiro e as empresas beneficiadas, e tendo como proprietários, ao menos no papel, fundos de investimento.
Em 21 de agosto de 2020, Navalny passou mal durante um voo entre Tomsk e Moscou, com sinais de envenenamento. Removido para Berlim, teve o envenenamento confirmado pelo governo alemão. Recuperado, voltou para Moscou e foi imediatamente preso ao desembarcar.
Em 16 de fevereiro de 2024, morreu em uma prisão do Círculo Polar Ártico.
No epicentro de grandes negócios nos anos Putin
Entre os anos de 2005 e 2007, Sergey Skaterschikov comandou o escritório russo do banco alemão Dresdner Kleinwort Capital, sendo chefe dos negócios de IPO (oferta pública inicial) do banco na Rússia e na Ucrânia, e diretor de investimentos. Nesse período, o escritório foi o epicentro de grandiosos negócios envolvendo empresas gigantes de setores estratégicos da Rússia.
Em dezembro de 2005, o Dresdner marcou a grande entrada alemã no setor bancário russo ao anunciar a compra de um terço do Gazprobank por US$ 803 milhões. Dois meses antes, em outubro, o banco alemão assessorou a Gazprom na compra da petrolífera Sibneft. Preço: US$ 13 bilhões. A Sibneft pertencia ao provavelmente mais famoso oligarca russo: Roman Abramovich, alçado a fama planetária durante o período em que foi proprietário do Chelsea.
O acordo foi assim tratado pelo New York Times de 7 de dezembro de 2005: “É uma transação complexa em que as ações da Gazprom nunca são registradas nos livros do Dresdner”.
Stanislav Belkovsky, analista político russo, especialista em temas relacionados a oligarcas e suas relações com o estado, afirmou sobre a transação: “As empresas estatais pagaram substancialmente a mais quando compraram empresas a empresários privados ‘favorecidos”.
Indicação direta do filho de oligarca
Em 2005, Skaterschikov entrou para o conselho de administração da Kirovsky Zavod por indicação direta do proprietário, Georgy Semenenko, herdeiro do oligarca Petr Semenenko, como está relatado no terceiro capítulo desta série de reportagens.
Em fevereiro de 2007, Skaterschikov assumiu a vice-presidência de estratégia do MTS Group, a gigante de telefonia móvel russa com subsidiárias em diversos países, entre eles Armênia, Ucrânia, Uzbequistão, Bielorrussia e Turquemenistão, e cuja maior acionária é a holding financeira “Sistema”, controladora também de 49% da produtora de petróleo russa Russneft.
Em janeiro de 2008, Skaterschikov passou para a vice-presidência de desenvolvimento de negócios. O período é o mesmo em que a empresa está passando por uma total reestruturação, que vai até 2012. Caracterizado sobretudo por uma estratégia de aquisições agressivas e marcado muitas vezes por intimidações por parte da MTS, usando o Estado para tal. A era de aquisições agressivas está detalhadamente retratada em “Aquisições coercitivas lideradas pelo Estado na Rússia de Putin: explicando os motivos subjacentes e resultados de propriedade”, tese
de doutorado de Andrew Yorke apresentada na London School of Economics and Political Science em abril de 2014 e posteriormente transformada em livro, que tem amplo material sobre a MTS nesse momento.
Os escândalos de corrupção e fraude da MTS no período são abundantes e estão espalhados nos noticiários internacionais e nas cortes de Justiça do mundo inteiro, além de estarem retratados em ação movida pelo Departamento de Justiça americano e pela CVM, que resultaram em US$ 2,6 bilhões de acordos naquele país por acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e suborno e de violação da FCPA, a “Foreign Corrupt Pratices Act”, ou “Lei de Práticas de Corrupção no Exterior”. Nos processos, estão detalhados subornos de funcionários de diferentes governos durante o período de aquisições da MTS.
Acima de Skaterschikov, à frente de tudo na MTS, estava um dos maiores e mais poderosos oligarcas russos: Vladimir Yevtushenko, detentor de 64,18% da holding e muito próximo a Putin. Uma proximidade íntima demonstrada ao estar junto a Putin no palácio recentemente, no dia da invasão da Ucrânia.
Parceria afinada: depois da MTS, Skaterschikov e Yevtuschenko formaram novamente na Redline e em revista de arte
Skaterschikov e Yevtushenko estiveram juntos em outro negócio chave do oligarca. Detentor de 100% da empresa de investimentos Redline Capital, no paraíso fiscal de Luxemburgo, Yevtushenko nomeou o velho conhecido como diretor geral da empresa em 2011. Cargo que Skaterschikov ocupou até 2014, presente também no conselho de administração.
Juntos, os dois repetiram o mesmo modus operandi de aquisições agressivas com que haviam se destacado na Rússia, agora em um novo ramo: em 2011, foram para cima do Artnet, site do mercado de arte sediado na Alemanha, que opera um banco de dados muito utilizado de preços de leilões. O fundador, Hans Neuendorf, resistiu por um tempo, mas, endividado, por fim sucumbiu e a dupla da Redline ficou com o comando. Em entrevista para a Artmagazine, em 2019, Hans Neuendorf abordou o episódio, sem poupar Sergey Skaterschikov.
“Um cara suspeito que faz todo tipo de negócios”
“Não sei por que ele decidiu desempenhar um papel no mundo da arte, mas era isso que ele queria. O que descobrimos é que ele fazia parte do conselho de administração de uma empresa (MTS) de um dos grandes oligarcas russos, Vladimir Yevtushenko, que apoiava Sergey”, afirmou Neuendorf, que completou: “Yevtushenko tinha, entre outras participações, uma empresa de aquisições, e Sergey fazia parte desse conselho”. Por fim, Hans Neuendorf jogou no ar uma série de indagações sobre o histórico de Skaterschikov e seus negócios, e o interesse do russo por entrar no universo da arte, tradicional mercado sob suspeita por histórico de lavagem de dinheiro de bilionários envolvidos em corrupção ao redor do mundo. Com protagonismo de oligarcas russos.
“Ele é um cara suspeito. Um cara ventoso, e me perguntei por que ele queria isso. Mas ele fez todos os tipos de negócios. Ele é banqueiro de investimentos de profissão e só estava interessado em fazer fusões e aquisições e aumentar o valor das empresas adicionando outra empresa a elas”, diz, abordando um traço dos negócios do russo. No mundo das artes, Skaterschikov também comandou a feira Viennafair, assumida por ele em 2012, ao lado do bilionário russo Dmitri Alksenov. Na ocasião, Skaterschikov fundou a Art Vectors Investment Partnership, com objetivo de atrair investidores. No ano seguinte, Dmitry Aksenov assumiu o controle acionário da empresa e fez a Viennacontemporary, feira até hoje na cena das artes.
O clube dos bilionários russos fundado por parceiro de Textor com patrocínio de um dos “sete banqueiros oligarcas”
Bilionários russos, Skaterschikov e o mercado de arte já tinham se encontrado em empreitada anterior.
Em 2010, Skaterschikov fundou o Insiders Club, em Moscou, para juntar todas essas pontas.
Em 11 de agosto de 2010, o investidor deu entrevista ao The Observer londrino sobre o clube. “A ideia por trás do Insiders Club é, neste momento, a elite russa. Convidamos 90 pessoas de alto patrimônio. A lista veio da Sotheby’s, da Sotheby’s Realty, de bancos suíços, mas eles normalmente não gostam de ser identificados, e da Alfa. Tivemos David Yakobashvili. Outros, a maioria com US$ 80 milhões a US$ 200 milhões, e tivemos três bilionários”.
David Yakobashvili citado por Skaterschikov como um dos sócios e compradores do seu clube é mais um bilionário russo que fez fortuna após o fim da União Soviética. Seu primeiro negócio é representativo quanto à origem do dinheiro. Com um grupo de dez empresários de diversos ramos, fundou a Trinity, que, entre outras empresas, tinha a Metelitsa, a famosa boate e cassino que marcou época na Moscou dos primeiros anos capitalistas até o fim da década de 2000, conhecida por ser o ponto de encontro na noite de novos milionários, gangsters e mafiosos do
país. A Trinity está citada no relatório de corrupção do consórcio de reportagem de “Denúncia ao Crime Organizado e Corrupção” (OCCRP). O grupo de Yakobashvili chegou a ter 300 empresas na Rússia, entre elas a que explora caça-níqueis por Moscou.
Na entrevista ao The Observer, Skaterschikov cita um dos patrocinadores do clube que reúne bilionários russos compradores de arte: o Alfa Bank, maior banco privado russo.
Mikhail Fridman, o fundador do banco, é um dos “semibankirschina”, termo russo que batiza o grupo de sete banqueiros poderosos que exerceram grande influência política e econômica na Rússia durante a década de 1990. “Sem” (sete) e “Bankir” (banqueiro), a “oligarquia dos sete banqueiros”, completada por Boris Berezovsky, Mikhail Khodorkovsky, Vladimir Gusinsky, Alexander Smolensky, Vladimir Potanin e Pyotr Aven. No ano passado, o patrocinador de Skaterschikov foi preso em sua mansão londrina pela “National Crime Agency” (NCA-Agência Nacional de Combate ao Crime), através da especializada Kleptocracy Cell (Célula de Combate à Cleptocracia). Entre as acusações, estava a de lavagem de dinheiro e de ter financiado um projeto de caridade dirigido pela filha mais velha de Putin.
O endereço que liga todos os fios da teia
Gerbergasse 48, 4001. Basileia, Suíça.
Parece apenas mais um pacato escritório em uma rua aparentemente tranquila, quase tediosa, coberta de paralelepípedos, em um prédio cinzento de esquina com cinco andares.
Os principais personagens dessa história se encontram nesse endereço. Juntos e misturados. Depois de darem uma volta no mundo com escala em quase todos os paraísos fiscais, os fios dessa teia se unem.
De acordo com o registro comercial de empresas suíço, o Facebank, ligado a John Textor, e o Index Atlas, de Sergey Skaterschikov, estão juntos nesse endereço. No quarto andar. Na mesma sala. Sob o mesmo teto. A Youngtimers, já presidida pelo russo, também está lá. Para completar, nesta sala ainda está a Nexway AG, parte das subsidiárias do Facebank.
Imagem do Botafogo é comercializada a partir do mesmo endereço do bilionário russo ligado a oligarcas
Parte da imagem do Botafogo também está sendo comercializada a partir de Gerbergasse 48, 4001.
Vendido como a principal ideia do Facebank atualmente, “the big idea”, um banco virtual para armazenar, proteger e ativar a imagem do rosto e corpo do cliente, o “aplicativo Facebank” tem na peça principal de propaganda uma face pintada com as cores alvinegras e a inconfundível estrela solitária. É a teia de Textor se ampliando.
A pequena rua suíça carrega boa parte da teia. Dos segredos de Textor.
E do silêncio sombrio no entorno.
Os ex-sócios se recusam a falar. Sequer em off.
Testemunhos sobre ele, somente em registros com mais de uma década. Ou em processos.
Como no caso de uma publicação perdida no tempo em que o depoimento de alguém próximo, então mantido no anonimato, ilumina o personagem.
“Se ele conseguir levantar dinheiro dessa vez, será espantoso. Os investidores não têm Google?”, perguntou na ocasião. Para pouco adiante parecer se render, como numa profecia.
“Mas John é como um gato. Ele simplesmente continua voltando.”
Parece que a predição estava certa.
Dezenas de processos mundo afora, acusações e acordos, intricadas conexões, dívidas e múltiplas falências depois, John Textor está de volta.
Mais em casa do que nunca. Agora em dois universos que parecem os mais próprios e férteis para negócios e negociantes controversos:
O futebol e o Brasil.
Outro lado: John Textor
A reportagem enviou uma série de questões para John Textor em diferentes ocasiões. Por diferentes formas: através da assessoria de imprensa da SAF Botafogo, por telefone e e-mail do
diretor de comunicação, assim como também para a assessoria do Eagle Footbaal. Todos sem resposta. A Index Atlas, de Sergey Sktarschikov, foi citada ao longo da série e confirmou para a reportagem ser “co-investidora ou ter aconselhado o sr Textor em diversas transações no passado”.
terça-feira, 27 de agosto de 2024
domingo, 25 de agosto de 2024
Os segredos de Textor (2) — Novos negócios, velhas acusações
Relatório da Comissão de Valores Mobiliários americana jogou luz sobre modus operandi dos negócios do empresário
Lúcio de Castro*
A segunda temporada da história do lado B dos negócios de John Textor parecia ser uma monótona repetição da primeira.
Acusações de fraude, desvio de dinheiro, pirâmide financeira, dívidas, falência iminente. O mesmo modus operandi.
Tudo novamente. A primeira, desenrolada entre 2006 e 2012, tendo como marco a falência da Digital Domain, ficara para trás.
Mas a fase que começava trazia algumas grandes diferenças: a chegada de outros personagens e novos protagonistas, como investidores.
E um fato novo: a menção, pela primeira vez, da existência de uma teia de empresas e offshores conectadas ao empreendimento da ocasião do agora proprietário da SAF Botafogo, para onde escoava o capital.
Enquanto uma nova Digital Domain se erguia na China após a falência da matriz americana, sem a presença de Textor e envolta em uma nuvem de suspeições, ele começava nos Estados Unidos uma nova empreitada, ainda com os escombros da empresa no chão.
No fim de 2013, o empresário fundou a Pulse Evolution.
A mesma matéria-prima: vender emoções, sonhos. A materialização do sobrenatural em cima de um palco. Na prática, humanos digitais hiper-realistas projetados em shows ao vivo. Realidade virtual, realidade aumentada, inteligência artificial na cara da multidão. Tudo em milagrosos hologramas.
Na essência, a Pulse Evolution trazia uma única grande diferença em relação à antecessora Digital Domain: dali para a frente, toda a estratégia da empresa seria focada em humanos virtuais e não mais em efeitos visuais de cinema. E a aposta na propriedade de imagens.
Pouco antes do início da Pulse Evolution, no dia 15 de abril de 2012, nos estertores da Digital Domain, um momento do Festival Coachella de música, na Califórnia, assombrou o mundo.
Quinze anos depois da trágica morte com cinco tiros, o rapper Tupac Amaru Shakur estava no palco. Diante de 80 mil espectadores embasbacados, com “Thug Life” tatuado na barriga, anéis espalhados pelos dedos, a calça caída, e o dueto com o presente fisicamente Snoop Doggy Dogg. Os sucessos “Hail Mary” e “2 Of Amerikaz Most Wanted” levaram a multidão ao delírio. As imagens ganharam o mundo e deram a certeza de sucesso. Uma máquina de fazer dinheiro na mão.
Quem viu naquela noite o que parecia o prenúncio de um novo tempo certamente não imaginou que dali a cinco meses a Digital Domain estaria fechando as portas. Mas o choque causado pelo Coachella, com o produto único capaz de mobilizar milhões, deixava uma porta aberta para nova empreitada, a despeito do histórico caótico.
Já em fevereiro de 2014, a Pulse Evolution contratou uma empresa para captar investidores e botar de pé seus projetos.
Em 18 de maio de 2014, ancorados na expertise anterior da Digital Domain, a Pulse Evolution abalou a noite do Billboard Music Awards, no MGM Grand Garden Arena, Las Vegas, com o holograma de Michael Jackson dando vida a uma póstuma “Slave to the Rhythm”. Era o que faltava para os investidores abrirem os bolsos.
Em pouco tempo, seduzidos pelo hábil canto de Textor, que prometia cachoeiras de mel no fim da realidade virtual, começou a jorrar dinheiro na Pulse Evolution. Tudo de novo. A promessa de Textor aos investidores tinha números e lucros estratosféricos: a Pulse Evolution desenhou um modelo de negócio onde ela e futuros sócios ficariam com entre 20 e 40% nos lucros das turnês. Embora no mercado fosse voz corrente que os restritos contratos com os espólios das lendas, além de deixar para a Pulse Evolution todos os altos custos de produção, asseguravam somente 20% das receitas para a empresa.
Em setembro daquele ano, a PB Invest, de Philipp Boeringer, botou US$ 770 mil no “Projeto Michael Jackson”, que prometia repetir a noite do maio anterior no MGM Grand, agora em turnês pelo mundo.
No início de 2015, a mesma PB Invest se juntou a outros investidores e formaram uma empresa, a Holotrack AG, inscrita na Suíça e voltada para os investimentos nesses projetos da Pulse Evolution. Em troca, a empresa receberia ações da Pulse Evolution e 10% dos vencimentos do projeto. Bernhard Burgener entrou como investidor e sócio através da Highlight Communications, parte do grupo HLEE (Burgener e Alexander Studhalter). Além de ficar como produtor do projeto, Burgener passou a ter um lugar no conselho de administração da Pulse Evolution.
Buraco sem fundo
No começo de 2015, a Holotrack acertou um investimento de US$ 3.700.000,00 (três milhões e setecentos mil dólares) na Pulse Evolution, a ser feito em seis parcelas entre janeiro e junho.
Textor e o sócio Rene Eichenberger dobravam a aposta para captar mais recursos em agora dois projetos: além de Michael Jackson, prometiam ressuscitar Elvis Presley e botar ambos pelo mundo requebrando as cadeiras e cantando. Quatro décadas depois da morte, a lenda urbana de que “Elvis não morreu” se tornaria verdade. E a garantia de sinônimo para fazer milhões de dólares em turnê pelo mundo.
Em agosto, a Pulse Evolution apresentou nova demanda: US$ 620 mil. Com a justificativa da sequência do financiamento das despesas comerciais dos dois projetos, já rebatizados como “Primeiro Investimento Holotrack” e “Segundo Investimento Holotrack”. A empresa de Textor ainda apresentou aos então parceiros um outro plano, o “Terceiro Investimento”: uma turnê virtual com o ABBA.
Outubro chegou com o pedido de mais US$ 1 milhão de subsídio. Por Skype e e-mails, Textor e Eichenberger argumentavam que precisavam de injeções adicionais de dinheiro para que os projetos seguissem.
Dois meses depois, em dezembro, ainda em 2015, mais US$ 1 milhão de dólares solicitados.
Com um apelo sentimental: além de manter o projeto, a verba seria também para cobrir a folha de pagamento dos funcionários. Um caso de emergência. Em troca, cada investidor receberia 6 mil ações da empresa.
Em setembro de 2016, mais US$ 1.050.000,00 (um milhão e cinquenta mil dólares).
Em março de 2017, a Pulse Evolution voltou a passar o chapéu e pediu mais US$ 600 mil. Dessa vez, só para a PB Invest, de Philipp Boeringer. Mais uma vez o dinheiro foi disponibilizado.
Mas nesse momento aconteceu uma ruptura.
Diligência apontou que empresa de Textor captou US$ 8,7 milhões de investidores mas não entregou projeto
Exatos US$ 8.740.000,00 (oito milhões e setecentos e quarenta mil dólares) injetados depois, uma Pulse Evolution quebrada e moribunda, sem dinheiro do Natal dos funcionários, nada de Elvis, nada de Michael Jackson, ABBA, nenhum show, nenhuma turnê, os prazos vencidos, a PB Invest resolveu entender o que acontecia e investigar a Pulse Evolution, considerando as respostas que recebia de retorno como “falsas e enganosas”, como viria a classificar posteriormente.
Como parte do acordo do procedimento instaurado pela PB Invest, a Pulse Evolution nomeou um consultor financeiro, Grant Murray, para interlocução com os investidores, que tiveram acesso às contas, recibos e pagamentos da Pulse Evolution numa pasta nomeada como “Março — Reunião de 2017”.
Um processo de “due diligence” para ter um raio-x da empresa de Textor. Documentos salvos, revisados, checados…
O resultado da investigação causou perplexidade aos investidores.
Em um “memorando de entendimento” de janeiro de 2016, de acordo com o relatório da PB Invest, Textor aparece autorizando para ele mesmo pagamentos de bônus não sancionados, violando os estatutos da própria Pulse Evolution e o acordo com os investidores.
No rastro das transferências eletrônicas da Pulse Corporation, saques para cartões de crédito pessoais, pagamentos para familiares e até empresas laranjas. Total: em dois meses, entre janeiro e fevereiro de 2016, de acordo com as diligências, um desvio de quase US$ 500 mil, mais exatamente US$ 479.166,67 da quantia injetada pelos investidores na Pulse Evolution.
Ação fala em “conduta Ilícita, fraude, farsa, desvio e roubo”
Encerradas as diligências dos investidores nas contas da Pulse Evolution, diante do volume de informações e documentos encontrados, o caminho escolhido foi buscar indenização na Justiça.
Uma ação foi iniciada pela Holotrack e pela PB Invest, com entrada em 11 de agosto de 2017, na Corte Distrital da Flórida. Contra John Textor, Rene Eichenberger e um terceiro sócio, Frank Patterson, além da própria Pulse Evolution.
“Conduta ilícita, fraude, farsa e desvio” são os termos utilizados na peça inicial dos investidores para justificativa do pleito, estimado em uma indenização de US$ 25 milhões: “Esta ação visa remediar a conduta ilícita dos réus em fraude induzindo os requerentes a investir e emprestar milhões de dólares para a farsa dos réus produtora de efeitos visuais, Pulse, cujos rendimentos em dinheiro os Srs. Textor e Eichenberger desviaram para financiar o estilo de vida luxuoso e o estilo de vida de seus amigos e família.”
O histórico judicial de John Textor e, de acordo com a denúncia, o modus operandi semelhante na empreitada anterior, a Digital Domain, é lembrado logo no início. “Após o colapso da produtora anterior do Sr. Textor, Digital Domain, enfrentando vários processos judiciais acusando-o de fraudar investidores da Digital Domain em aproximadamente US$ 100 milhões e efetuando um esquema Ponzi para enriquecer, o Sr. Textor fundou a Pulse com os Srs. Eichenberger e Patterson.”
Informações falsas sobre o andamento dos projetos também estão na acusação. Em 19 de agosto de 2015, os representantes da Holotrack pediram para Textor e Eichenberger, em uma videoconferência, um gráfico com os marcos de produção e desenvolvimento do “Projeto Elvis”.
Receberam e-mails no dia seguinte, com diversas etapas dadas como “concluídas”, o que, de acordo com a ação, nunca se confirmou.
Além do exame dos documentos e contas, no fim desse mesmo mês de março em que promoviam a devassa na Pulse Evolution, os representantes dos investidores visitaram o escritório da empresa para reunião com os funcionários, conhecer o estúdio e ver o andamento das produções.
Ação fala em transferências da conta corporativa Pulse Evolution até para a mãe de John Textor
Um dos pontos da ação é sobre transferências da conta corporativa da empresa para benefício pessoal:
A) 11 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 45 mil para a conta American Express de John Textor.
B) 20 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 29.166,67 para a Clematis Properties. (Nota da reportagem: registrada em 7/4/1997, Flórida, em nome de Rene Eichenberger).
C) 26 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 50 mil para a Alternative Holdings. (Nota da reportagem: registrada em 18/2/2009, Zurique, Suíça, em nome de Rene Eichenberger).
D) 29 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 50 mil para a Alternative Holdings. (Nota da reportagem: registrada em 18/2/2009, Zurique, Suíça, em nome de Rene Eichenberger).
E) 29 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 50 mil para a Textor Ventures. (Nota da reportagem: registrada em 24/2/1997, Flórida, em nome de John Textor).
F) 1º de fevereiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 50 mil para John Textor individualmente.
G) 3 de fevereiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 180 mil para Dale Lovett, mãe de John Textor.
H) 19 de fevereiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 25 mil para a conta E-trade de John Textor. (Nota da reportagem: “Conta E-trade” é uma plataforma de serviços financeiros que permite aos usuários comprar e vender uma variedade de ativos financeiros, entre eles ações, fundos negociados em bolsa, etc.).
Pela primeira vez há menção a uma rede transnacional ligada a Textor por onde o capital circula
Em meio ao detalhamento de um novo “esquema Ponzi” (pirâmide financeira), no qual “investimentos em dinheiro e dívidas em nome da Pulse foram usados principalmente para pagar credores… promovendo assim a ilusão de que a empresa estava gerando fluxo de caixa legítimo e permitindo que Textor e Eichenberger continuassem a executar seu esquema para enriquecer fraudulentamente”, surgiram acusações de novas “fraudes e farsas em acordos de consultoria”.
Envolviam milhões de dólares e balanços falsos, um episódio citado no relatório de diligência e na ação na Justiça aparece pela primeira vez nos muitos processos e registros públicos que citam Textor: uma rede de empresas, incluindo offshores, por onde escoavam ações da Pulse Evolution: “emissões de ações para entidades nacionais e offshore de propriedade e controlada por Textor e Eichenberger individualmente e seus amigos e familiares”.
Uma teia que irá ser desenhada na terceira reportagem.
Defesa de Textor chamou acusações de falsas e calúnias para obter o controle da empresa
Na Justiça, a defesa de John Textor afirmou que as acusações eram falsas, e que o consórcio tinha interesses muito menos nobres no episódio:
“Sendo as alegações de apropriação indébita de fundos apenas calúnias que ajudam os investidores suíços a alcançar o seu objetivo final de obter o controle da Pulse Evolution”.
Em 13 de junho de 2018, o processo foi encerrado por iniciativa da Holotrack e PB Invest, que haviam proposto a ação. Na notificação de encerramento não consta se houve acordo entre as partes.
Venda de partes da propriedade e empréstimos: relatório da CVM relata modus operandi em negócios de Textor
A repetição de todas as práticas da Digital Domain na Pulse Evolution está registrada também em um relatório da Comissão de Valores Mobiliários americana, publicado em 2020. No documento, está traçado o perfil da empresa ao longo dos anos.
Primeiro, descreve “déficit acumulado de US$ 458,6 milhões em 30 de setembro de 2020”. E depois prossegue com a senha para entender o funcionamento e modo de financiamento da Pulse Evolution ao longo dos anos, além da teia que se formou no entorno: “Desde a sua criação, as operações da companhia têm sido financiadas principalmente por meio da venda de títulos de capital e de dívida. A companhia tem incorrido em perdas operacionais e fluxos de caixa negativos das atividades operacionais desde o início”.
Ou seja, basicamente, a empresa levantou dinheiro vendendo ações (títulos de capital), partes de sua propriedade e pegando empréstimos (títulos de dívida) para financiar as atividades, com pagamento periódico de juros. Um relatório com semelhanças ao que se descrevia sobre as mazelas da Digital Domain no passado. E nos negócios de Textor.
Outro lado: John Textor
A reportagem enviou uma série de questões a John Textor em diferentes ocasiões. Por diferentes formas: através da assessoria de imprensa da SAF Botafogo, por telefone e e-mail do diretor de comunicação, assim como também para a assessoria do Eagle Football. Todos sem resposta.
quinta-feira, 22 de agosto de 2024
Os segredos de Textor: o lado B do milionário americano que comprou o Botafogo Falências, parceria com magnatas russos e acusações de pirâmides financeiras estão na trajetória desse personagem pouco conhecido
Por Lúcio de Castro*
Vestindo capa de mocinho, bandeira da modernidade na mão, estrela de xerife da moralidade no peito e apontando o dedo para os pecados do Terceiro Mundo. Como num roteiro de cinema, John Charles Textor desembarcou no Brasil.
Ato seguinte, assumiu o controle do Botafogo, transformado em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) em 11 de março de 2022, e inscrita também no registro de empresas da Flórida em nome dele como “SAF Botafogo USA Inc.”, em 28 de abril de 2022.
Dois anos depois, numa terça-feira, 22 de abril, Textor estava no Senado Federal, na condição de protagonista e agendado para prestar o depoimento mais esperado da “CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas”. Às 15h16, jurou dizer a verdade.
Com tradução simultânea, transmissão ao vivo e cobertura de toda imprensa, desfilou uma série de denúncias sobre manipulação de resultados nos jogos dos campeonatos aqui realizados. Com base unicamente em análises comportamentais feitas por Inteligência Artificial na empresa por ele contratada, citou árbitros, falou sobre adversários beneficiados, disse que “os jogos de 2022 e 2023 foram manipulados contra os nossos principais adversários” e que os relatórios que recebe sobre outros países “não enxergam o nível de manipulação de resultados como nós temos aqui em nenhum outro lugar”. No ano anterior, já tinha falado em “corrupção e roubo”.
Às 15h28, exatos 12 minutos depois de disparar incessantemente a metralhadora giratória contra tudo e todos sem qualquer prova factual, fez uma pausa e, ato contínuo, sacou as credenciais para estar na Casa Alta do país. “Muitas pessoas não sabem o que produziu a riqueza para que eu pudesse comprar a empresa e estar aqui hoje. É que eu fui o fundador de uma empresa de Inteligência Artificial e, com esse dinheiro, pude comprar um time”.
John Textor fala no Senado. Foto: Roque de Sá/Agência Senado
A declaração sobre como fez a riqueza não dá conta da história toda. Ficaram faltando os caminhos. E os métodos.
Como em toda boa trama hollywoodiana, existem mistérios na jornada do herói. Lacunas de um quebra-cabeças ainda a ser montado.
É no rastro da infinidade de documentos públicos produzidos em mais de duas décadas que esse personagem é revelado por inteiro. Os registros estão por toda parte. Nos tribunais americanos, nos processos da Comissão de Valores Mobiliários, no histórico de falências, em instituições da burocracia da Flórida, nas denúncias por ser o mentor de pirâmides financeiras.
No caminho do dinheiro. Numa imensa caixa-preta.
E acima de tudo, nas conexões. Entre elas, uma sombra indelével: a onipresença de milionários ligados às oligarquias russas. E uma rede de negócios extensa. Extensa e intricada.
Alguns nomes atravessam esse círculo ao longo dos anos em interseção com o agora cartola de futebol, de 58 anos, natural de Kirksville, Missouri, centro-oeste dos Estados Unidos, e uma vida na Flórida. Dois russos e dois suíços, todos com estreitas ligações junto aos oligarcas do poder surgidos no pós-União Soviética.
Sergey Skaterschikov, onipresente nas relações comerciais de Textor. Além dele, Ivan Shabalov (GS Finances), Alexander Studhalter e Bernhard Burgener, os dois últimos suíços, ambos ligados ao HLEE Group.
No fim dessa história, depois de passarem por diversos países e paraísos fiscais, a imensa teia se conecta em um só lugar. Um pacato endereço de Basileia, Suíça.
A entrada no futebol e um histórico co-investidor
De 2021 para cá, John Textor entrou de sola no mundo do futebol.
Desde então, quatro clubes ao redor do mundo ganharam o selo “Eagle Football Holdings”, a rede de empresas do empresário para aquisição e gestão de times: Crystal Palace (Inglaterra), Botafogo, RWD Molenbeek (Bélgica) e Olympique de Lyon (França). Na última semana, Textor recebeu um período de prioridade para negociar a compra do inglês Everton.
A Eagle tem Textor como acionista majoritário, com 55,48% e a participação de empresas como YMK Holdings, Ares Management Corporation, Iconic Sports e Elmwood Partners.
Um nome segue passando batido nas aquisições de Textor: o Index Atlas Group. Fundo de investimentos aberto em Nova Iorque no ano de 2000, e que se mudou para a Suíça em 2017. Com origem em Moscou, onde o escritório foi fechado.
Sem maior barulho sobre a parceria com Textor no futebol, falando apenas nos relatórios para investidores em situações pontuais. Como na aquisição do Olympique de Lyon, onde consta como o grupo que organizou a transação.
Em resposta para o ICL Notícias sobre o envolvimento da empresa com o dono do Botafogo no futebol e em outros negócios, a Index Atlas, através da assessoria, confirmou os investimentos realizados em parceria com Textor. “A IndexAtlas co-investiu e/ou aconselhou o Sr. Textor em diversas transações no passado”. Questões foram enviadas pela reportagem também para Textor em diferentes ocasiões, através da assessoria de imprensa da SAF Botafogo, por telefone e e-mail, assim como para a Eagle Football, sempre sem resposta.
Mesmo em negociações de Textor no futebol que não se concretizaram, a exemplo do tradicional Benfica, de Portugal, a atuação do fundo de Skaterschikov era próxima em datas com a do americano, como entre 13 de julho de 2021 e 13 de janeiro de 2022, quando Benfica, Textor e a Index Atlas protagonizaram uma série de movimentos paralelos na Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) de Portugal, tanto na compra de ações como na desistência de ambos, como mostram os documentos obtidos pela reportagem. O fundo nega parceria com Textor no Benfica.
Parceiro de Longa Data
O empresário russo Sergey Skaterschikov é o dono do Index Atlas. Embora o nome não apareça no registro de abertura no equivalente à junta comercial da Suíça, no site da empresa está assim: “O sr. Skaterschikov continua sendo 100% proprietário do Index Atlas Group”.
Os caminhos de Textor e Sergey Skaterschikov se cruzam muito além dos negócios do futebol. E as teias também. Em dimensão suficiente para fazer do russo um co-protagonista ao longo dessa história. Uma parceria em investimentos definida assim pela Index Atlas, via assessoria: “O sr. Skaterschikov é proprietário da Index Atlas e aconselhou e co-investiu com o Sr. Textor em diversas transações no passado”.
Nos anos mais recentes, antes de entrar no mundo da bola com sua Eagle Football, o principal negócio de Textor vinha sendo a Pulse Evolution. Onde a relação com a Index Atlas, de Sergey Skaterschikov, também esteve presente.
Sergey Skaterschikov
A Pulse Evolution é uma startup fundada por Textor em 2014, em cima dos escândalos que o negócio anterior, a Digital Domain, deixou para trás em 2012. Antes de se chegar aos últimos anos e toda essa sequência frenética que marca a operação Pulse Evolution e a história de Sergey Skaterschikov, vale recuar um pouco até a Digital Domain. Entre a compra em 2006 e a quebra, em 2012.
Milhões em verba pública, omissão de dados, cooptação de parlamentar e pirâmide financeira
O marco inicial dessa história ocorre em 16 de maio de 2006, quando Textor fez um lance ousado: por meio da sua Wyndcrest Holdings, comprou a Digital Domain, com sede na Califórnia. Com ele estavam outros investidores e sócios: Jonathan Teaford, o diretor de cinema Michael Bay e o ex-executivo da Microsoft, Carl Stork.
A Digital Domain era a mítica empresa californiana fundada em 1993 por nomes como James Cameron, Stan Winston e Scott Ross. Dona de um portfólio estelar, como os efeitos visuais de “Titanic”, entre outros, e algumas estatuetas do Oscar na prateleira.
O primeiro ano de Textor na empresa foi de perdas significativas. Relatório da CVM americana mostra prejuízos de US$ 20 milhões nas operações.
Assim como 2007, o ano de 2008 também foi de seguidos empréstimos e dívidas crescentes. Na iminência de perda total, o novo dono da Digital Domain Califórnia sacou um coelho da cartola. Textor tinha um plano simples de entender em linhas gerais:
A primeira parte era a criação de uma nova empresa: a Digital Domain Flórida.
Valendo-se do histórico e fama mundial da Digital Domain da Califórnia, prometia reproduzir tudo aquilo na Flórida. Com isso, obteria subsídios estatais. Era o “Projeto Bumblebee”.
Obtidos os subsídios estatais com a Digital Domain Flórida, o passo seguinte seria promover a fusão e salvar a Digital Domain Califórnia, prestes a ser entregue aos credores. Uma clássica pirâmide financeira, de acordo com o entendimento verificado em diversos depoimentos na justiça.
Assim, o passo seguinte para botar o plano em execução foi ir atrás de dinheiro público.
O mercador de ilusões: Textor promete uma nova Hollywood para obter verba pública
No dia 3 de dezembro de 2008, às 13h, depois de inúmeras festas promovidas para receber o governador da Flórida e intensas agendas em comum, Textor estava no gabinete do mandatário republicano no estado, Charles Crist. Com um PowerPoint de vinte páginas, lembrou as glórias da Digital Domain Califórnia.
Nenhuma linha da apresentação citava a dramática condição financeira da empresa. Prometeu centenas de empregos com salários médios anuais de US$ 64.233 mil, fora benefícios.
Na virada de 2009, John Textor apeou oficialmente seu novo negócio numa Flórida devastada pela recessão americana.
Trazia o remédio. E vendia sonhos. Como um mercador de ilusões.
John Textor não fez por menos. Batizou o futuro de Port St. Lucie com um nome carregado de poesia. Em breve, aquele pedaço da Flórida, com 165 mil habitantes e a 192 quilômetros de Miami, seria a “Hollywood do Oriente”. Luzes, holofotes, glamour, prosperidade e uma nova febre do ouro, tudo convergindo para lá.
Modus Operandi: Dívidas, Empréstimos e Financiadores
Em 22 de janeiro de 2009, a Digital Domain apresentou um pedido de subsídio no valor de US$ 20 milhões para o governo do estado da Flórida, encaminhado via Enterprise Florida, a instituição encarregada de avaliar financiamento para potenciais projetos de desenvolvimento econômico no estado.
Três meses depois, diligências feitas, análise concluída, veio a resposta da Enterprise Flórida. Mais do que uma resposta. Um raio-x completo cuja descrição serviria profeticamente para traçar um modus operandi repetido ao longo do tempo e em outros negócios. Exatamente no dia 16 de abril de 2009:
“Finanças da empresa extremamente fracas…litígios recentes e modelo de negócios insustentáveis, não podendo atender à relação de retorno de 5 para 1 exigida”.
Veredito: Não.
O “Projeto Bumblebee” não atendia aos requisitos de elegibilidade para o programa de incentivos econômicos da Enterprise Florida, que se recusou a recomendar o financiamento estatal de US$ 20 milhões.
Textor não se fez de rogado. Montou sua banca de lobby na Câmara dos Representantes da Flórida e incrementou novamente o cerco ao gabinete do governador Charles Crist. Atuando nas sombras, deu uma volta no relatório da Enterprise Flórida.
Uma investigação do fim de 2009 do Palm Beach Post, com uma série de reportagens sobre irregularidades no processo mostrou que, em abril, no apagar das luzes da legislatura daquele ano, duas salvaguardas na lei de cessão de incentivos foram removidas. Com uma emenda, o governador recebeu autonomia para sancionar lei de concessão dos incentivos. A Digital Domain levou US$ 20 milhões e as outras oito dividiram os outros US$ 20 milhões. Tudo protegido pelo sigilo que transformou o nome de cada empresa em um código, uma espécie de orçamento secreto versão Flórida. Dois meses depois, em 30 de junho, saiu o benefício.
A gambiarra que permitiu dar uma volta na negativa do subsídio se deu assim: o deputado republicano Kevin Ambler apresentou uma disposição no orçamento do estado que dava autoridade ao “Gabinete do Governador de Turismo, Comércio e Desenvolvimento Econômico” (OTTED) para conceder incentivos de desenvolvimento econômico com o propósito de criar altos empregos assalariados e recrutamento de empresas para a Flórida. E então, sem passar mais pela Enterprise, todos os alertas de caos financeiro da Digital Domain que geraram a negativa do empréstimo foram varridos para baixo do tapete do governador.
Poucos dias depois, Textor doou US$ 5 mil para a conta da campanha do governador Charles Crist, US$ 2 mil para Kevin Ambler, e US$ 1.500 para David Rivera, o responsável pela Comissão de Orçamento Legislativo, ambos republicanos, fundamentais na alteração da regra. Mais do que o valor doado, Textor deu o intangível: organizou arrecadação de fundos para Kevin Ambler em Palm Beach e conseguiu para o deputado em campanha de reeleição o apoio do ex-quarterback do Miami Dolphis, Dan Marino, acionista da Digital Domain e extremamente popular no estado.
A benesse alcançada gerou mais laços. Analisando documentos da época, a reportagem do ICL Notícias encontrou na CVM um recibo com uma opção de compra de ações da Digital Domain para Kevin Ambler, datada de 23 de novembro de 2011.
Textor foi além em sua generosidade e fez a porta giratória rodar. Em 2011, Kevin Ambler entrou para o conselho de administração da Digital Domain, com vencimentos de US$ 20 mil por ano e mais US$ 2 mil por reunião. Entre as despesas de Textor também estava uma consultoria paga para Cynthia Henderson, muito próxima ao governador.
US$ 84 milhões em subsídios e retorno zero
Com os US$ 20 milhões do estado da Flórida garantidos e sancionados em 30 de junho de 2009, o empresário seguiu passando o chapéu.
O dinheiro público seguiu jorrando. Em Port St. Lucie conseguiu mais US$ 62 milhões, incluídos aí terrenos e um estúdio de última geração e totalmente equipado. E mais US$ 2 milhões em Palm Beach. Numa primeira rodada em 2009, US$ 84 milhões do contribuinte no bolso. Além dos subsídios em dinheiro do estado, de Port St. Lucie e Palm Beach, esta última ainda cedeu um terreno no centro da cidade, no valor de US$ 10 milhões para a Digital Domain construir um estúdio de animação em parceria com a escola de cinema da Florida State University.
Uma fusão como salvação
Paralelo ao chapéu que seguia passando, a parte mais importante do plano de Textor também entrava em ação: promover a fusão entre a mais nova Digital Domain, a da Flórida, agora com a caixa cheia, alimentada por dinheiro público de subsídios, e a Digital Domain da Califónia, alquebrada em dívidas e de falência iminente.
Entre 30 de junho de 2009, data da sanção da lei liberando o empréstimo de US$ 20 milhões, e 1º de outubro, a Digital Domain Florida comprou US$ 16,8 milhões em ações da “Digital Domain California Series CP”, além de pagar para a matriz pelos direitos de royalties de “Titanic”. Passando assim a ter o controle de 51% da empresa californiana. Nem os rios de dinheiro público estavam bastando. A Digital Domain seguiu afundando em dívidas.
A auditoria amiga
Depois de alguns anos operando com a PWC e a Deloitte, que emitiram pareceres de “preocupação contínua” nos anos anteriores e apontaram que a Digital Domain California não conseguia financiar suas operações por meio de receitas, John Textor recorreu a um velho conhecido.
Contratou a SingerLewak, do dublê de cantor e auditor Lewak, que já havia prestado serviços para Textor entre 2005 e 2007, então na Baby Universe. Sempre sem ressalvas. Pouco depois, a Baby Universe entrou em falência.
Apesar do conhecido caos nas finanças da Digital Domain, a mágica aconteceu de novo com a SingerLewak. Todas as auditorias para os anos encerrados em 31 de dezembro de 2009, 2010 e 2011 foram favoráveis.
Agoniza e morre: a renúncia de Textor e a falência
Em novembro de 2011, Textor fez nova investida para salvar a empresa e a Digital Domain e ofereceu suas ações na bolsa de valores. A arrecadação foi menor do que a expectativa. Só deu para adiar um pouco a tempestade total.
Que veio em prestações, agonizando dia após dia e desenhando o fim.
O desesperado canto do cisne veio numa última tentativa de levantar capital. Junto a um grupo de fundos de hedge (fundos para gerenciar riscos), buscou o que nos Estados Unidos chamam de “financiamento em espiral da morte” ou “conversíveis tóxicos”, um tipo de financiamento que envolve a emissão de títulos conversíveis podendo ser convertidos em ações ordinárias da empresa. Não adiantou.
Em 20 de agosto de 2012, a Digital Domain entrou em “default” (não pagamento) dos empréstimos que explodiam. Como bola de neve.
Em 7 de setembro, o estúdio foi fechado e 346 funcionários demitidos. Pressionado pelos demais sócios, Textor apresentou sua carta de renúncia da empresa.
No dia 11 de setembro de 2012, a Digital Domain declarou falência..
Empresa ressurgiu na China pós-falência envolvida em escândalo de corrupção
Nem a falência desacelerou o ritmo frenético dos negócios da Digital Domain, agora sem os antigos sócios.
No leilão de falência, em 21 de setembro de 2012, a empresa foi comprada por US$ 30,2 milhões pela Beijing Galloping Horse (com 70%), produtora de cinema e televisão na China, e o restante pela indiana Reliance Media Works, passando a ser a Digital Domain 3.0, ligada a Digital Domain Holdings, com sede em Hong Kong e sem Textor nos registros. A entrada dos chineses já tinha ocorrido numa pequena participação antes da falência, ainda com o americano na direção.
Menos de um ano depois, em julho de 2013, uma nova transação de venda. A tradicional revista americana Variety em sua edição de 29 de julho de 2013, descreve com os seguintes termos as transações da Digital Domain no período: “bilionários misteriosos e negócios clandestinos”, “investidor misterioso”, “série complexa de transações, nenhuma das quais é exatamente o que aparece na superfície”, “caminho sinuoso”. Reportagem do The New York Times, em 4 de junho de 2014, afirma que a Galloping Horse foi usada na aquisição como uma empresa de fachada. É nessa empresa que irá ocorrer anos depois um movimento surpreendente:
Skaterschikov é nomeado na Digital Domain Chinesa
Em dezembro de 2020, a Index Atlas, de Sergey Skaterschikov, anunciou investimento na Digital Domain Holdings (Hong Kong) e em sua subsidiária no paraíso fiscal de Bermudas.
Um mês depois, em janeiro de 2021, a Index Atlas anunciou desistência do investimento, mas em 22 de janeiro de 2021, Skaterschikov foi nomeado para o conselho da Digital Domain Holdings. O russo ainda aparecerá nos próximos capítulos dessa história, assim como as empresas de Bernard Burgener, Alexander Studhalder e Ivan Sabalov, que se conectam à Digital Domain Holdings.
Regras para concessão de subsídios na Flórida mudaram após escândalo de Textor e Digital Domain
Milhares de páginas em uma infinidade de documentos públicos, como relatórios da Enterprise Flórida e do Departamento de Oportunidades Econômicas (DEO), relatam os seis intensos anos de Textor (2006 a 2012) à frente da Digital Domain.
Entre muitos, dois documentos principais analisados pelo ICL Notícias são extremamente detalhados sobre o período.
Em 2013, sob novo governador Rick Scott, o estado da Flórida promoveu uma devassa sobre o subsídio concedido à Digital Domain pelo antecessor Charles Crist, que ignorou os relatos alarmantes da Enterprise Flórida.
O documento mais completo dessa devassa é o “Review of the 2009 Economic Development Incentive Award to Digital Domain Group”, o “relatório 2013-11”, de 26 de março de 2013. Este relatório detalha os números capengas da empresa, o processo de concessão do subsídio e inclui depoimentos dos funcionários envolvidos, além de trechos de e-mails de John Textor pressionando pela concessão. O escândalo foi tão marcante que gerou mudanças nos procedimentos para futuros empréstimos.
Processo do Estado da Flórida contra Textor fala em fraudes e esquema de pirâmide financeira
O “relatório 2013-11” é a base do processo iniciado em 22 de julho de 2014, no qual o estado da Flórida interpôs ação contra a Digital Domain, John Textor e outros sócios no Tribunal do 19º Circuito Judicial, no Condado de St. Lucie.
A peça começa assim, antes de reproduzir a sequência de fatos que resultou na concessão do subsídio e de pedir indenização para o estado:
“O roteiro tinha as características de um grande sucesso de bilheteria de Hollywood: ganância, corrupção, efeitos especiais e um público fascinado e disposto a apoiar a crença. No mundo real, não houve final feliz em Hollywood. O herói não salvou o dia. O vilão não foi derrotado. Em vez disso, a história terminou com os contribuintes da Flórida sendo enganados em mais de US$ 80 milhões de dólares. Esta é uma ação para recuperar milhões de dólares indevidamente tomados pelos diretores do Digital Domain Florida.”
Dois anos depois, em maio de 2016, o processo foi encerrado por um acordo judicial. O estado foi indenizado em US$ 3 milhões. A cidade de Port St. Lucie ficou com US$ 3,2 milhões. O acordo judicial, de 115 páginas, incluiu outros participantes, vítimas como investidores, em um custo total de US$ 33,2 milhões. O ônus do investimento fracassado foi suportado por 13 companhias de seguro da Digital Domain.
Como parte do acordo, Textor também conseguiu redução de US$ 8,5 milhões na hipoteca de uma propriedade em Telluride, Colorado, usada para garantir um empréstimo de US$ 10 milhões para a Digital Domain, e, ao fim, a despeito de todo o fracasso e denúncias, saiu mais rico do que entrou.
Em 1º de junho de 2016, o editorial do TC Palm, noticiário do jornal USA Today encartado na região de Palm Beach, abordou a decisão assim:
“Talvez isso, em poucas palavras, seja o grande problema aqui. Empresários experientes em Wall Street, como Textor, manipulam o sistema e acrescentam ao fardo financeiro dos contribuintes, então saem com contas bancárias muito bem recheadas.”
Ações contra a Digital Domain e acusações de fraude contra Textor se espalharam pelos Estados Unidos
Um rastilho de processos contra John Textor e a Digital Domain se espalhou pelo país. Nas cortes de Delaware, Nova Iorque, Califórnia e Flórida, investidores denunciaram Textor e a empresa por fraude. Em uma dessas ações, no Tribunal Distrital da Califórnia, um ex-sócio revelou que o famoso diretor de Hollywood, Michael Bay, descobriu que estava sendo enganado por Textor e vendeu suas ações.
“Esquema Ponzi de fato”
Entre tantas acusações, o estado da Flórida foi veemente em um ponto: a estratégia de Textor ao obter fundos para uma nova Digital Domain na Flórida, cobrindo o buraco existente nas contas da Digital Domain Califórnia, configurou um “Esquema Ponzi”. A falência estava prevista:
“Como todos os Esquemas Ponzi, o fim da Digital Domain era uma certeza.”
E resumia:
“A Digital Domain California era um Esquema Ponzi de fato. Era um mutuário em série que substituía dívidas antigas por novas dívidas para manter a empresa funcionando.”
Nova negociação de Textor no futebol tem digitais de oligarca russo como pano de fundo
O avanço das negociações de Textor para aquisição do Everton, time da Premier League inglesa, bota no radar o nome de um outro oligarca russo: Alisher Usmanov.
O bilionário uzbeque, de 70 anos, com fortuna estimada em US$ 14 bilhões, dono, entre outros negócios, da USM, holding russa com grandes investimentos em minerais, telecomunicações e tecnologia e muito próximo a Putin, era um dos maiores patrocinadores e investidores do Everton.
A “Oligarch Files”, investigação do londrino The Guardian sobre os negócios de oligarcas russos, apontou que o empresário inglês-iraniano Farhad Moshiri, proprietário do Everton, realizou uma série de transações entre o dono do Everton e Usmanov entre 2018 e 2022, como a venda de 270 milhões de libras em ações de empresa onde o russo era o acionista.
Os documentos do jornal indicam que as ações jamais teriam sido pagas por Moshiri. Antes disso, em 2016, ambos tinham ações em conjunto no Arsenal. Nesse mesmo ano, Moshiri teria “vendido” suas ações do Arsenal e assim financiado seu investimento inicial no Everton, deixando desde então a suspeita de que Usmanov seria de fato o proprietário do Everton, agora na mira de Textor.
Desde março de 2022, Usmanov está sob sanção do governo do Reino Unido pela invasão da Ucrânia pela Rússia.
Luis Henrique, jogador do Botafogo. Foto: Reuters
O Botafogo e a Ciranda de Textor
Nos “multi-club ownership” de John Textor, os empréstimos, transações e as dívidas entre as partes já começaram.
Reportagem de Rodrigo Mattos publicada no UOL em 4 de maio de 2024, mostrou, a partir de análise do balanço de 2023, que houve empréstimo da XP Investimentos para a SAF Botafogo no valor de R$ 340 milhões. O documento registra que o dinheiro saiu do Botafogo e foi emprestado para o próprio John Textor, além de ir para outra perna da empresa, o belga RWD Molenbeek, aumentando o endividamento do clube carioca. O balanço mostrou que o Botafogo teve déficit de R$ 101 milhões no ano passado. Se não for considerada a venda de 20% dos direitos do campeonato brasileiro para investidores da Liga Forte União (LFU), esse rombo de quem gastou muito mais do que arrecadou sobe para R$ 267 milhões em 2023.
A mesma estratégia de transações entre empresas do grupo dos negócios anteriores de Textor segue no clube carioca. As transações entre os braços da rede, no caso, os clubes, têm marcado a breve existência da SAF Botafogo.
No início de 2023, Textor afirmou que Jeffinho seria emprestado pelo Botafogo ao Lyon. Três dias depois, o dono dos clubes anunciou que o atacante estava indo para a perna francesa da rede, mas vendido por 10 milhões de euros. O atleta está de volta ao clube.
Em janeiro desse ano, o goleiro Lucas Perri, (26 anos), e o zagueiro Adryelson, (25 anos), foram negociados para o Olympique de Lyon. Por 6,83 milhões de euros (R$ 36,4 milhões na ocasião). Perri saiu por 3,25 milhões de euros (R$ 17,3 milhões) e Adryelson por 3,58 milhões de euros (R$ 19,1 milhões). Ambos, de acordo com todas as análises e expectativas, muito abaixo do que se esperava. Na ocasião, o mercado especulava que os dois sairiam por 20 milhões de euros. (então R$ 107 milhões), praticamente três vezes mais.
Também em janeiro outra transação entre os clubes da rede foi feita, quando o Lyon acertou a contratação do atacante Luís Henrique junto ao Betis mas por fim acabou no Botafogo como a mais cara transação do futebol brasileiro até então, 20 milhões de euros, equivalente ali a R$ 106 milhões. O valor foi batido recentemente na contratação do argentino Tiago Almada, que veio para o Botafogo por 22 milhões de euros mas deve ir para o clube francês.
Com Luís Henrique e Tiago Almada, a SAF Botafogo fez as duas transações mais caras da história do futebol brasileiro, muito acima da receita. O tempo irá dizer se aquele veredito da Enterprise Flórida em 16 de abril de 2009 ao negar financiamento para a empresa de Textor era uma profecia: “modelo de negócio insustentável”.
Outro lado
John Textor – A reportagem enviou uma série de questões a John Textor em diferentes ocasiões, por diferentes meios: através da assessoria de imprensa da SAF Botafogo, por telefone e e-mail do diretor de comunicação, e também para a assessoria da Eagle Football. Todas as tentativas de contato não foram respondidas. As respostas da Index Atlas, de Sergey Skaterschikov, estão na própria reportagem.
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