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sexta-feira, 27 de junho de 2025
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
Mandaram um ‘pica-fumo’ me prender, disse Braga Netto ao ser preso
Conheça os detalhes inéditos sobre o dia da prisão do general Braga Netto
Eram 5 horas e 30 minutos, do sábado, 14 de dezembro de 2024, quando cerca de dez militares chegaram na frente da sede da Superintendência da Polícia Federal (PF), no centro do Rio de Janeiro. Eles estavam atendendo a ordens da alta cúpula militar de Brasília, capital do Brasil, e ainda não sabiam qual era a missão daquela manhã. O relato a seguir foi feito ao CLIP e ao ICL Notícias, sob condição de anonimato, por dois integrantes da operação.
No grupo de dez militares, estava um coronel e os demais eram oficiais de patentes inferiores. Ao chegar na sede da PF no Rio, eles encontraram um grupo de policiais federais que tinham em mãos um mandado de prisão emitido pelo Supremo Tribunal Federal para cumprir. O papel dos militares era apenas de acompanhar a operação porque um militar de alta patente seria preso.
Nenhum deles sabia, mas estavam a caminho do apartamento do general Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e ex-candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro, em 2022. Em cerca de trinta minutos, ele estaria preso. Mineiro de Belo Horizonte (MG), o militar tem 67 anos e entrou para o Exército em 1975.
Os policiais federais, no comando da operação, informaram aos militares que apenas parte do grupo ia seguir junto com eles em dois carros. A orientação dada era para uma operação sigilosa, ágil e discreta.
Tudo já vinha sendo preparado pelos policiais desde o dia anterior, a sexta-feira (13). Após a emissão da ordem de prisão pelo STF, os investigadores chegaram a discutir sobre quando efetuar o cumprimento do mandado e a data 13 de dezembro, aniversário do Ato-Institucional número 5, um decreto da ditadura que permitiu, por exemplo, uma série de detenções violentas e afundou de vez a população brasileira no horror da ditadura a partir de dezembro de 1968.
Os policiais pensaram que prender Braga Netto no aniversário do AI-5 podia soar uma provocação. No entanto, o sábado, 14 de dezembro, é o aniversário da ex-presidente Dilma Rousseff, petista e ex-integrante de um dos grupos de guerrilha armada contra a ditadura. Não tinha data perfeita para aquela prisão.
Como o general estava em Maceió, capital de Alagoas, em uma viagem de férias com a família, ficou para o sábado. Já no nordeste, ele vinha sendo monitorado enquanto a PF preparava a operação para prendê-lo. Ao saber que ele tinha um voo de Maceió para o Rio de Janeiro, a PF acompanhou o embarque e já destacou uma viatura com agentes para monitorar a chegada dele à capital carioca. Os policiais ainda o acompanharam do aeroporto até a chegada em casa, um apartamento que fica na rua Figueiredo Magalhães, no bairro de Copacabana.
Assim, pouco depois de se reunirem na sede da PF, policiais e militares dividiram-se em dois carros descaracterizados e foram até o edifício “El Cid”, o prédio onde o general Braga Netto vive com a família no Rio de Janeiro. Uma coincidência difícil de ser ignorada. O general ia ser preso, em grande medida, pelas informações prestadas pelo tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, em sua colaboração premiada. Os militares, porém, só entenderam quem estavam prendendo quando chegaram na porta do apartamento.
O grupo entrou pela garagem informando para a portaria que estavam cumprindo mandados judiciais e que os porteiros não deviam informar ao dono do apartamento que eles estavam subindo. O prédio é um desses clássicos, antigos de Copacabana, e tem um apartamento por andar com dois elevadores que atendem aos moradores. Metade do grupo subiu em um elevador social, que possui uma porta com saída direta para a porta de entrada dos apartamentos, e outro é o de serviço.
Um dos policiais tocou a campainha e quem abriu a porta foi logo o general Braga Netto vestido com um shorts e uma camisa de pijama, ambos de um branco com azul. O diálogo de alguns minutos, foi reconstituído por duas fontes, assim:
— Bom dia general, estamos aqui para cumprir uma decisão do ministro Alexandre de Moraes. É um mandado de busca e prisão preventiva.
— Prisão preventiva? Mas nem me chamaram para depor — respondeu um Braga Netto, assustado.
— O senhor tem que ver isso com seu advogado. A minha intenção é ser célere e discreto para preservar a imagem do senhor — completou um dos policiais.
— Agradeço. Tão na casa do Heleno também? — questionou Braga Netto, sem perguntar nada sobre Bolsonaro.
A menção ao colega general da reserva Augusto Heleno não era sem razão. Heleno e Braga Netto foram apresentados em um documento como os líderes do gabinete transitório que iria assumir o país após a conclusão do golpe de estado planejado após a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022.
— Posso entrar em contato com meu advogado? — questionou o general.
— Pode. Deixa só ver as armas — respondeu um dos policiais.
— Ah, as armas vocês levaram da outra vez — relembrou Braga Netto, ao citar as duas pistolas que foram apreendidas em fevereiro de 2024, na Operação Tempus Veritatis.
Pouco depois que os militares e policiais entraram no amplo apartamento, o general falou com o advogado. Em seguida, o celular dele foi apreendido e os investigadores começaram a busca e apreensão por documentos, armas e dinheiro.
Na medida em que o barulho da chegada do grupo avançou pela casa, a mulher do general, a filha e o genro acordaram e vieram para a sala. Os três foram orientados a ficar sentados no sofá enquanto Braga Netto se trocava para sair preso com os policiais.
Ninguém chorou. Estavam todos aborrecidos, mas nenhum deles se desesperou diante dos policiais e militares. Braga Netto levou cerca de 40 minutos para tomar banho e se arrumar para sair com os policiais. Nesse meio tempo, os militares que acompanhavam a operação demonstraram o constrangimento em prender um general. O coronel que liderava os militares chegou a dizer que foi a missão mais difícil que recebeu na carreira.
Quando Braga Netto finalmente ficou pronto, ele saiu andando com os investigadores pela porta da frente. Não foi algemado e saiu do elevador direto para uma das viaturas na garagem. Sentou no banco de trás de uma das viaturas e ficou no meio de dois policiais como qualquer outro criminoso preso pela PF.
No caminho, de Copacabana até o Centro, para aliviar a tensão, o grupo dentro do carro começou a falar amenidades. Primeiro, falaram do Botafogo. O general é torcedor do time que foi campeão da Libertadores em 2024. Depois, ele se queixou do Exército e criticou um projeto de previdência dos militares e, em 20 minutos, estavam de volta ao centro da cidade.
Na Superintendência da PF, a prisão do general foi formalizada. Ele foi levado para uma sala e renunciou ao exame de corpo de delito para evitar a exposição. A ordem de evitar qualquer ato de espetacularização foi seguida à risca. Tanto é que ninguém possui imagens do momento em que ele saiu de sua casa em Copacabana com os policiais. Apenas uma foto foi captada quando Braga Netto chegou na Superintendência da PF.
Enquanto os policiais faziam a burocracia, o general tomou um café e foi recebido pelo Superintendente interino da instituição. A iniciativa, porém, gerou novos desabafos:
— Fui melhor tratado pela PF do que pelo Exército. Colocaram um “pica-fumo” para me prender — reclamou Braga Netto, ao se queixar que um coronel liderava a prisão, não um general. A ausência de um militar com uma patente igual a dele causou enorme irritação em Braga Netto.
Nas histórias de quem se formou no Exército, restou que a tropa costumava fumar charuto ou cigarro de palha nas marchas. Assim, o mais jovem oficial do Regimento de Cavalaria era responsável por picar o fumo de rolo e prepará-lo para seu comandante e alguns oficiais superiores. Dali em diante, passou que “pica-fumo” é o modo como os militares mais experientes chamam os mais jovens.
Outras ausências também foram notadas. Desde o momento em que foi preso, o general não mencionou o nome de Jair Bolsonaro. Quem acompanhou o episódio, avalia que ele contava com a possibilidade de ser preso e já fazia seu cálculo.
A prisão foi formalizada e a PF entregou o general aos militares para que a custódia ficasse a cargo do Exército. Essa também foi a ordem que veio de Brasília. Assim, Braga Netto foi encaminhado para a 1ª Divisão do Exército, que é subordinada ao Comando Militar do Leste e fica na Vila Militar, na zona oeste da cidade. Poucos militares conhecem as instalações do CML tão bem quanto Braga Netto. Ele comandou a instituição entre 2016 e 2019.
Assim, foi preso o primeiro general quatro estrelas da história do Brasil. Antes disso, o marechal Hermes da Fonseca tinha sido preso duas vezes em 1922. Mas o Brasil dos anos 1920 não é comparável ao país de 2024. Braga Netto foi extensivamente investigado em um país democrático, coisa que não se pode dizer sobre o ocorrido no início do período republicano do Brasil. Braga Netto tem direito a defesa e nega todas as acusações.
O advogado José Luis Oliveira Lima, que passou a defender Braga Netto dias depois da prisão, informou que “ele nunca mencionou qualquer irritação relacionada ao cumprimento do mandado de prisão”. Além disso, informou que o general “nega expressamente a prática de qualquer ato ilícito, em especial a alegada entrega de dinheiro vivo”.
Apesar das negativas, é muito difícil de imaginar que tipo de defesa será feita após a Polícia Federal descobrir provas do envolvimento dele em um plano para assassinar o presidente eleito e o vice, além de um ministro do Supremo Tribunal Federal.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2024
Governo Dilma, ascensão de Lira e mais 2011, o ano que mudou a política ...
sexta-feira, 20 de dezembro de 2024
IA, ferramenta da ultradireita? (2)
Não é que a esquerda seja “fraca” em redes sociais. É que estas são programadas para estimular aspectos sombrios da constituição humana, como o individualismo e a conflitividade. Não culpe a tecnologia – mas seus senhores atuais…
A reeleição de Donald Trump em 2024 não foi apenas um ato político; foi um grito vindo do abismo. A maré de votos que o levou de volta à Casa Branca nasceu de feridas abertas, muitas das quais causadas pelo avanço inexorável de tecnologias como a automação industrial e os algoritmos das redes sociais. Não foi um voto por esperança, mas por revanche. A conjunção de máquinas e algoritmos transformou a economia, destruiu identidades e, com isso, reacendeu as chamas do ressentimento que alimentaram sua vitória.
Este artigo é a segunda parte de uma análise feita em dois textos que revela como a inteligência artificial contribuiu para a vitória do Partido Republicano nas eleições estadunidenses de 2024. O artigo anterior avalidou a relevância da IA nas indústrias e como isso tem afetado a classe trabalhadora dos Estados Unidos, este se ocupará dos impactos dos algoritmos das redes sociais na política.
O Império do Medo: Redes Sociais, Algoritmos e a Ascensão de Donald Trump em 2024
Em 1º de janeiro de 2019, durante a posse do ex-presidente Jair Bolsonaro, seus apoiadores o recepcionaram com gritos de “WhatsApp” e “Facebook”. Esses gritos refletem a crença dos eleitores de que essas plataformas foram fundamentais para o crescimento do bolsonarismo. Essa opinião é compartilhada tanto pelos críticos desse movimento quanto por especialistas que estudam o avanço da extrema direita. De maneira semelhante, em outras partes do mundo, as redes sociais também são vistas como facilitadoras do progresso desse tipo de neofascismo. Diante dessas observações, surgem questões como: será que bolsonaristas e trumpistas são mais eficazes na comunicação digital? Ou a esquerda não conseguiu se adaptar ao ambiente virtual?
O papel das redes sociais na ascensão de figuras políticas como Jair Bolsonaro e Donald Trump transcende as questões de competência comunicacional ou adaptação estratégica entre esquerda e direita. Na verdade, o sucesso dessas lideranças está profundamente enraizado na dinâmica emocional alimentada pelas plataformas digitais. Enquanto os gritos de “WhatsApp” e “Facebook” ecoavam em Brasília como símbolos de mobilização política, um fenômeno mais amplo já se consolidava: as redes sociais haviam se transformado em arenas onde medo e ódio não eram apenas tolerados, mas amplificados. Nesse cenário, o ambiente virtual não é um espaço neutro de disputa ideológica; é um sistema moldado para privilegiar emoções intensas e divisivas, as mesmas que impulsionam movimentos populistas ao redor do mundo.
Vivemos uma era onde o medo e o ódio são produtos altamente lucrativos. As redes sociais, inicialmente idealizadas como plataformas para conexão e diálogo, tornaram-se máquinas sofisticadas de manipulação emocional. Seus algoritmos, projetados para maximizar o tempo de atenção, revelaram uma inclinação perversa: o que mais cativa é o que mais destrói. Medo. Ódio. Escândalo.
Os mecanismos algorítmicos não são neutros. Eles se alimentam de nossos instintos mais básicos, amplificando emoções negativas porque estas, diferentemente de uma troca serena de ideias, mantêm os olhos colados às telas. Cada curtida, comentário ou compartilhamento de indignação é analisado, replicado e otimizado para criar um ciclo vicioso. Uma postagem sensacionalista desperta indignação? O algoritmo percebe e amplia seu alcance. O medo prende. O ódio mobiliza. Assim, teorias da conspiração e discursos polarizadores ganham status de relevância, não porque são verdadeiros, mas porque geram engajamento. A lógica é simples: o lucro depende da nossa indignação.
Esse ambiente contaminado tem consequências reais. Em um espaço onde a razão é abafada pelo ruído do pânico, a verdade deixa de ser um norte. Narrativas fabricadas — QAnon, desinformação eleitoral, campanhas antivacinas — florescem porque ecoam os medos que o próprio sistema amplifica. O algoritmo não distingue fato de ficção; ele privilegia aquilo que mantém os usuários imersos. Como resultado, discursos de ódio, teorias conspiratórias e desinformação não são aberrações isoladas, mas pilares do ecossistema digital contemporâneo.
A eleição de Donald Trump em 2024 é um exemplo fulminante desse processo. Sua campanha não apenas navegou nesse mar de indignação, mas o dominou com maestria. Trump foi hábil em capitalizar polarizações e utilizou as redes sociais como uma arena onde seus apoiadores podiam reafirmar medos compartilhados. As plataformas, cúmplices silenciosas, garantiram que suas mensagens fossem amplificadas para milhões. Ele não precisou de uma estratégia convencional; bastou alinhar-se ao fluxo natural dos algoritmos.
Em um ciclo perverso, as redes sociais moldaram o terreno político, tornando-o fértil para narrativas polarizadoras. Os algoritmos incentivaram o tribalismo, fortalecendo discursos que separavam “nós” e “eles”. Trump não venceu apenas por causa do medo e do ódio; ele venceu porque as plataformas que consumimos diariamente cultivaram essas emoções como estratégia de retenção. Ele era a personificação de um sistema digital que recompensa a divisão.
Portanto, não se trata apenas de Trump. Ele é o produto de um sistema que aprendeu a explorar nossas vulnerabilidades emocionais. A vitória de 2024 é um sintoma de um problema muito maior: as redes sociais, enquanto permanecerem focadas em maximizar engajamento a qualquer custo, continuarão a ser um terreno fértil para a desinformação, a polarização e, acima de tudo, o cultivo do medo.
A Caixa de Pandora do neofascismo
É importante repetir que o sucesso de ultradireitistas nas redes sociais não está relacionado a uma superioridade de conhecimento por parte deles, nem a uma falta de habilidade da esquerda. Embora haja exemplos de momentos em que a extrema direita soube aproveitar as novas tecnologias de informação, também existem diversos casos em que esteve atrasada. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Cambridge Analytica (CA) – que mais tarde trabalharia com o Partido Republicano e causaria grande impacto ao ser acusada de manipular as eleições de 2016 – não foi pioneira no uso de Big Data e inteligência artificial em campanhas políticas.
Quando Alexander Nix, fundador da CA, começou a procurar potenciais clientes nos EUA, o Partido Democrata já estava sendo atendido por empresas como Blue State Digital, BlueLabs, NGP VAN, Civis Analytics e HaystaqDNA. A BlueLabs, por exemplo, já havia trabalhado na campanha de Obama e era uma referência no uso de estatísticas para a persuasão política. Portanto, a aliança entre Nix e os republicanos não foi motivada por uma afinidade ideológica, mas sim pela defasagem tecnológica da direita norte-americana.
Sabe-se que o modus operandi da extrema direita baseia-se justamente no sensacionalismo, explorando o ódio e o medo que por vezes se mantém submerso. O viés de confirmação que por muitas vezes guia esse espectro político é justamente baseado nesses afetos. Esse “viés de negatividade” foi encontrado pelos pesquisadores Fessler, Pisor e Navarrete em um estudo empírico que revelou que os conservadores possuem mais tendência em acreditar em teorias da conspiração e em histórias falsas que incitam o pânico. O que a extrema direita fez foi organizar essa negatividade difusa dando-lhe uma finalidade política.
A internet, com suas vastas possibilidades de comunicação e acesso à informação, se tornou um espaço propício para a perpetuação de preconceitos e o surgimento de movimentos de extrema direita. Nas brumas do inconsciente, onde a luz da razão nem sempre alcança, residem os instintos destrutivos, como a raiva e o ódio. A internet, por sua vez, esconde um submundo obscuro onde preconceitos adormecidos aguardam o momento oportuno para emergir. Nesse ambiente virtual, os movimentos de extrema direita assumem o papel de catalisadores, reunindo as frustrações e moldando-as em uma identidade conservadora. É como se navegassem pelas profundezas da rede, despertando os fantasmas do passado e alimentando a chama do ódio e da intolerância.
As grandes empresas de tecnologia, na tentativa de capturar nossa atenção ao máximo, acabaram por abrir a Caixa de Pandora da extrema direita. Embora as big techs não tenham criado o neofascismo, elas têm responsabilidade no crescimento desse movimento, pois desenvolveram algoritmos que favorecem esse espectro político. É provável que essa preferência não seja deliberada, mas também não é puramente acidental. As redes sociais, assim como os meios de comunicação anteriores, sabem que explorar o ódio e o medo é uma maneira eficaz de manter as pessoas engajadas. Por isso, o discurso sensacionalista é tão prevalente em todos os meios de comunicação.
Assim, intencionalmente ou não, os algoritmos acabam promovendo conteúdos que ressoam com os aspectos mais sombrios de nossa natureza. Além disso, as comunidades digitais, ao tentarem unir pessoas, acabam por isolá-las do restante do mundo. Por esses motivos, não basta punir indivíduos que propagam discursos de ódio ou fake news. Em um sistema que privilegia esse tipo de conteúdo, punir alguém é como enxugar gelo: uma pessoa pode ser penalizada, mas muitas outras tomarão o seu lugar.
Dado o papel central dos algoritmos na vida pública (assim como na cultura, nas relações pessoais e na capacidade de concentração, entre outras áreas), não é prudente deixar que as big techs decidam quais sentimentos devem ser cultivados na sociedade. O lucro dessas empresas, que depende de nossa atenção, não pode ser usado como justificativa para o aumento da barbárie.
Muitas vezes, qualquer menção à regulamentação das redes sociais provoca uma reação em defesa da liberdade de expressão. No entanto, em um ambiente onde os algoritmos favorecem o discurso sensacionalista, a liberdade é ilusória. Os criadores de conteúdo nas mais diversas plataformas não estão em igualdade de condições e são incentivados (conscientemente ou não) a abordar certos temas de uma determinada maneira, caso queiram que seus conteúdos alcancem o público. Isso significa que esses criadores não são realmente livres.
Para alcançar a audiência, eles precisam se comportar de uma maneira específica e abordar certos temas. Caso contrário, seus vídeos, podcasts ou postagens terão pouca visibilidade. Nesse contexto, a verdadeira liberdade é a dos algoritmos a quem servimos, se o objetivo é ser visto ou ouvido. Como esses sistemas automatizados não são realmente autônomos, as únicas partes verdadeiramente livres nessa relação são as big techs, que, em nome do lucro, estão minando o que resta de civilidade.
Conclusão
Ao longo dos dois textos, procurei demonstrar a influência da inteligência artificial na vitória de Trump em 2024. Contudo, isso não significa que essa tecnologia seja a má em si nem a única responsável pela ascensão da extrema direita. Sequer defendo que seja a principal responsável. O que aqui se pretende é que essas considerações somem-se a outras que exploram aspectos econômicos, culturais, psicológicos etc.
O ponto fundamental é a relação da IA com afetos “negativos” — a matéria prima do neofascismo. Os dois textos se complementam nessa questão. Neste último, almejei explicar como as redes sociais funcionam como uma espécie de ímã que aglutina conteúdos que incitam o medo e o ódio. No artigo anterior, elaborei como esses sentimentos possuem como uma de suas fontes o desenvolvimento tecnológico nos Estados Unidos que dificultou a vida de muitos trabalhadores.
Nota-se, dessa forma, como a inteligência está nos dois polos do problema: de um lado, a IA potencializa o desemprego estrutural e aprofunda a precarização, substituindo trabalhadores em nome da eficiência; de outro, transforma-se em ferramenta para amplificar os afetos mais sombrios da psique humana. Um ciclo se fecha: máquinas criam o vazio, e outras máquinas o preenchem com gritos de ódio e medo.
É inquietante perceber que o mesmo avanço que prometeu libertar-nos do esforço repetitivo alimenta o maquinário psicológico do neofascismo. As redes sociais, movidas por algoritmos que não dormem nem hesitam, encontram no ódio e no medo seu combustível mais lucrativo. Não é apenas o indivíduo que cai na armadilha do ressentimento, mas toda uma sociedade que é arrastada para espirais de polarização e irracionalidade. A IA, aqui, não é o vilão maquiavélico, mas o arquiteto inconsciente de um novo tipo de desordem.
A grande ironia é que a inteligência, símbolo maior de nossa capacidade criativa, tornou-se um catalisador para afetos destrutivos. E, no entanto, a questão não se encerra. As soluções não estão apenas em regular algoritmos ou conter o avanço tecnológico; estão em transformar os contextos que alimentam os ressentimentos. O neofascismo não nasce apenas da máquina, mas de um tecido social desgastado, de uma economia que se desumanizou e de uma política que perdeu sua âncora ética.
Se quisermos escapar desse ciclo, será necessário revisitar as raízes do problema: a relação entre progresso técnico e o fracasso em distribuir suas promessas. Será a inteligência – artificial ou não – capaz de reverter o estrago que ajudou a causar? Ou estamos fadados a assistir à inteligência tornar-se sua própria antítese, destruindo a civilização que prometeu melhorar? A resposta não está nas máquinas, mas em nós mesmos.
segunda-feira, 2 de setembro de 2024
PT pede cassação de registro de Rodrigo Amorim por agressão a vereador
Candidato a vereador do PT carioca agredido por Amorim está internado com fraturas na face e no nariz
O diretório estadual do Partido dos Trabalhadores vai pedir a cassação da candidatura do deputado estadual Rodrigo Amorim à prefeitura do Rio de Janeiro junto ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Rodrigo Amorim agrediu o candidato a vereador pelo PT no Rio conhecido como Leonel de Esquerda em evento de campanha na Tijuca, Zona Norte do Rio, no domingo (01), afirma a repórter Berenice Seara do site Tempo Real.
O presidente estadual do PT, João Maurício, afirmou que o partido vai “pedir que o TRE acelere a votação dos embargos porque ele já tem condenação por violência política de gênero, e conseguiu a suspensão da condenação por causa dos embargos.Vamos pedir que o tribunal vote logo o recurso para que se decida a situação dele como um candidato impugnado.”
O PT também vai entrar com processo criminal contra Amorim pelas agressões a Leonel Querino da Silva Neto, que está internado na CTI do Hospital Glória D’Or, com fraturas na face e no nariz. Na segunda-feira, o prefeito Eduardo Paes foi visitá-lo no hospital.
Como foi a agressão ao vereador do PT
Leonel Querino da Silva Neto, o Leonel de Esquerda, estava panfletando na Praça Varnhagen, na Tijuca, na manhã de domingo, enquanto o vereador Rogério Amorim (PL, irmão de Rodrigo, fazia um adesivaço. O clima já estava quente, quando o deputado estadual Rodrigo Amorim, candidato a prefeito pelo União Brasil, seguiu em direção ao evento do irmão e passou por Leonel.
O petista começou a gravar imagens do deputado, que chutou o celular. Quando Leonel tentou pegar o aparelho, Amorim chutou mais uma vez. Antes que Leonel se recuperasse, um grupo de rapazes passou a agredi-lo.
Quebra de placa
Rodrigo Amorim ganhou fama nacional quando, em outubro de 2018, quebrou uma placa de rua em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada a tiros junto a seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março daquele ano.
Na ocasião, Amorim concorria ao cargo de deputado estadual pelo PSL e estava acompanhado por Daniel Silveira, então candidato a deputado federal pelo PSL e posteriormente condenado por atos antidemocráticos, e do ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, também do PSL.
terça-feira, 27 de agosto de 2024
domingo, 18 de agosto de 2024
sexta-feira, 12 de julho de 2024
quarta-feira, 5 de junho de 2024
Wladimir Safatle no programa Provocação Histórica #02
sexta-feira, 3 de maio de 2024
segunda-feira, 18 de março de 2024
sexta-feira, 15 de março de 2024
O mundo é um moinho com o historiador João Cesar de Castro Rocha #03
O mundo é um moinho com o historiador João Cesar de Castro Rocha #02
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