sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Governo avalia cortar bolsa milionário para substituir MP do IOF

Com a derrubada da medida que taxava bancos, bets e bilionários, Fazenda e CFT discutem reduzir renúncias fiscais para recompor a arrecadação
Com a derrota da MP do IOF no Congresso, o governo Lula busca uma alternativa para evitar uma perda bilionária de receita e recompor o espaço fiscal sem aumentar impostos. A solução em análise no Ministério da Fazenda e na Comissão de Finanças e Tributação (CFT) da Câmara é cortar parte das renúncias fiscais que drenam cerca de R$ 800 bilhões por ano dos cofres públicos. A estratégia, defendida pelo presidente da CFT, Rogério Correia (PT-MG), é acelerar a votação do relatório da subcomissão temática que propõe uma triagem nos incentivos e subsídios tributários. O texto deve ser apreciado já na quarta-feira e servirá de base para o PLP 182/2025, que reduz linearmente os incentivos e define responsabilidade solidária para plataformas e bancos que operem com apostas não autorizadas. Correia afirmou que o governo analisa medidas que mantenham o foco em tributar grandes fortunas e proteger programas sociais. “As hipóteses que o governo está vendo nisso são no sentido de continuar a proposta de taxação dos ricos e de não permitir corte nos programas sociais. Então, uma das hipóteses que nós vamos ver é colocar para andar os projetos que dizem respeito à diminuição da renúncia fiscal e benefícios fiscais. Há ainda a hipótese levantada de diminuir também as emendas parlamentares, aquelas que não são impositivas. E outras hipóteses que certamente serão vistas quando o presidente Lula voltar da viagem na próxima semana”, disse o deputado ao ICL Notícias. A Fazenda considera o projeto uma alternativa imediata à MP do IOF, derrubada após pressão de lobbies de bancos, bilionários e do setor de apostas. A pasta entende que o corte de renúncias pode gerar impacto semelhante ao previsto na medida, sem aumentar a carga tributária da população. “O foco é eliminar isenções sem critério e proteger o que tem função social”, resumiu um integrante da articulação econômica do governo.
O relator da subcomissão, que será lido na quarta, organiza os gastos tributários em três grupos: os que devem ser preservados, os que precisam ser reavaliados e os que podem ser extintos. Entre os que permanecem, estão a cesta básica, programas sociais como o Minha Casa Minha Vida e entidades sem fins lucrativos. No alvo estão os benefícios a setores com baixo retorno econômico e regimes que seguem ativos sem revisão ou prazo de validade. IOF e a política tributária O ICL Notícias teve acesso a um esboço do relatório preliminar da Subcomissão das Isenções Fiscais sobre o projeto e que propõe uma reestruturação completa da política de incentivos tributários no país. O documento reconhece que o volume atual de renúncias ultrapassa o dobro do limite constitucional e sugere uma estratégia de convergência até 2029. A ideia central é eliminar gastos tributários ineficientes e manter apenas os que têm impacto social e econômico comprovado. O texto defende um corte linear inicial de 10% nas renúncias sem avaliação, medida que poderia gerar cerca de R$ 80 bilhões em arrecadação extra — o suficiente para compensar a perda de receita após a derrubada da MP 1303. Também propõe a criação de um Conselho de Avaliação de Gastos Tributários, que teria participação da Receita Federal, do TCU, do IPEA e de representantes da sociedade civil. Entre as prioridades de revisão estão regimes como o Simples Nacional, a Zona Franca de Manaus e incentivos setoriais ao agronegócio, combustíveis e automotivo. O relatório também recomenda a criação de um painel público para detalhar os beneficiários e o custo de cada incentivo, fortalecendo a transparência e o controle social. A proposta se integra ao PLP 182/2025, que formaliza a redução linear de incentivos e fixa regras de responsabilidade tributária. O documento é visto pela Fazenda como o eixo central da nova estratégia fiscal pós-MP do IOF e deve ser apresentado oficialmente na quarta-feira na CFT. Os principais pontos do relatório: Integração com o PLP 182/2025: o relatório recomenda que o projeto seja usado como base legal para o corte linear das renúncias e para o estabelecimento de critérios permanentes de revisão e transparência. Cronograma de convergência: fixa metas anuais de redução progressiva das renúncias até atingir 2% do PIB em 2029. Proteção a benefícios sociais: o texto reitera que programas voltados à população de baixa renda e setores essenciais não sofrerão cortes. Controle e monitoramento: criação de um mecanismo de prestação de contas anual ao Congresso, com revisão técnica feita pela Receita Federal e o IPEA. A medida também busca cumprir a Emenda Constitucional 109/2021, que determinou a redução gradual das renúncias fiscais para um teto de 2% do PIB até 2029. Hoje, elas consomem mais que o dobro disso. Mesmo um corte de 10% já representaria uma arrecadação adicional de cerca de R$ 80 bilhões, montante superior ao impacto estimado da MP 1303. A discussão reacende o embate entre governo e o Centrão, que na semana passada derrubou a MP do IOF sob pressão de setores econômicos. Agora, o Planalto tenta converter o desgaste político em resposta fiscal, deslocando o foco das alíquotas para os privilégios tributários. A expectativa no governo é que a CFT aprove o texto na próxima sessão e envie o relatório à CCJ ainda em outubro. Por Cleber Lourenço

Rueda esteve em reunião com chefe de esquema do PCC que negociava venda de empresa de gás

Três fontes ouvidas pelo ICL Notícias disseram que Rueda convidou executivo do setor de GLP para reunião com Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco" O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, atuou como intermediário em uma negociação para a venda de uma empresa de gás de cozinha ligada à dupla acusada de comandar um mega-esquema de lavagem de dinheiro que atendia ao PCC, de acordo com três líderes do mercado que pediram anonimato por medo de represálias. Conforme os relatos, em abril de 2024, Rueda convidou um executivo do setor de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) para reunião em Brasília com Roberto Augusto Leme da Silva — que se apresentou na ocasião como investidor da TankGás. Um mês depois, os ativos da empresa foram vendidos para uma firma de São Paulo, a Consigaz. Roberto Leme, mais conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, apelidado de “Primo”, são apontados pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) como líderes de uma rede de lavagem de dinheiro por meio de fraudes fiscais no setor de combustíveis e uso de fundos de investimentos da Faria Lima. Ambos são considerados foragidos pela Justiça. Investigação do ICL Notícias revela que os dois suspeitos também atuavam no mercado de GLP, conhecido popularmente como gás de cozinha. Beto Louco, Primo e Rueda viajavam em jatos executivos operados por uma mesma empresa de aviação, a TAP (Táxi Aéreo Piracicaba), segundo depoimento prestado à PF pelo piloto Mauro Mattosinho. Ex-funcionário da TAP, Mattosinho afirma que o presidente do União Brasil é sócio oculto de quatro aeronaves ligadas à empresa, o que Rueda nega. Procurado pela reportagem, Rueda também negou ter participado de qualquer reunião relacionada à TankGás. Porém, ele não respondeu se conhece “Beto Louco” ou “Primo”, apesar de ter sido perguntado três vezes a respeito. “Repudio de forma veemente essas insinuações levianas e politizadas. Desconheço qualquer reunião ou tratativa mencionada e nego, categoricamente, qualquer vínculo com o que foi citado”, afirmou Rueda. “Nunca tive nenhuma reunião sobre esse tema, não conheço essa empresa. Não considero sério esse tipo de ilação. Trata-se de uma tentativa de criar fatos inexistentes, sem base ou responsabilidade. Minha trajetória empresarial e política é pautada pela transparência, responsabilidade e trabalho”, completou. A reportagem voltou a questionar Rueda ontem sobre a reunião, uma semana depois do primeiro contato. O presidente do União Brasil não respondeu dessa vez. Também procurados, os advogados de Beto Louco e Primo não responderam.
Negociação em Brasília Segundo relatos de três lideranças do mercado de GLP, Rueda participou de uma reunião realizada em abril do ano passado, que tinha como pauta a possível venda da TankGás, empresa especializada na comercialização de botijões de gás de cozinha. Um executivo do setor, convidado por Rueda para discutir o tema, relatou ter se surpreendido ao chegar ao local do encontro, em Brasília, e ser recebido também por Beto Louco, que participava da reunião como representante da TankGás. À época, Beto Louco já era conhecido pela suspeita de seu envolvimento com o crime organizado. Em março de 2023, ele foi alvo da Operação Cassiopéia, do MP-SP, que investigou um esquema de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis e serviu como base para a investigação que resultou na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto pela PF. Segundo os relatos, o objetivo da reunião era apresentar uma proposta às grandes empresas nacionais de GLP, por meio desse executivo, que serviria de interlocutor. Na ocasião, Beto Louco teria proposto que, em troca de R$ 60 milhões pela operação de GLP da TanKGás, ele e seus sócios deixariam o mercado. Sua atuação agressiva já causava incômodo no setor naquele período. O executivo, no entanto, se recusou a ser o porta-voz da proposta de Beto Louco, se espantou com o envolvimento de Rueda e contou sobre a reunião para pessoas próximas. TankGás operava no Paraná e em São Paulo A empresa que Beto Louco ofereceu na negociação que Antonio Rueda participou, segundo os relatos colhidos pela reportagem, foi a TankGás Comércio Varejista de Gás Liquefeito de Petróleo S/A, com sede em Jandaia do Sul, no Paraná. Ela foi aberta em fevereiro de 2020, e posteriormente passou a se chamar Petróleo Distribuidora de Petróleo. Conforme documentos consultados pela reportagem, o representante oficial da empresa na negociação foi Antônio César Assunção. Procurado, ele nega ter qualquer relação com Beto Louco e Primo. A partir de 2021, a TankGás se aproveitou de uma lei em vigor no Paraná que autoriza as distribuidoras a encherem botijões vazios de outras marcas. A legislação paranaense contraria a atual diretriz da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). A norma federal determina que apenas a própria empresa pode envasar botijões com sua marca para comercialização. Com isso, a TankGás passou a ser alvo de ações judiciais de seus concorrentes por meio do sindicato patronal do setor, o SindiGás (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo). A ANP ajuizou também ação contra a TankGás. Sob crescente pressão do mercado, Beto Louco e Primo decidiram ofertar a empresa para seus concorrentes, com ajuda de Rueda, conforme contaram as fontes do mercado. A proposta de venda da TankGás chegou ao conhecimento da Copa Energia, uma das maiores companhias de GLP do país, dona das marcas Copagaz e Liquigás. A empresa rejeitou a ideia, segundo apurou a reportagem. Procurada, a Copa Energia informou que não se manifesta sobre o tema. Em maio de 2024, os ativos operacionais da TanKGás foram vendidos para a Consigaz, uma empresa de alcance regional com sede em Barueri, região metropolitana de São Paulo. Segundo um empresário do setor, que pediu anonimato, após virar alvo de ações judiciais das distribuidoras de SP, a TankGás decidiu mirar apenas no mercado da Consigaz. “Ela desistiu de atacar todas as empresas e atacou uma única. Ela mirou exclusivamente nos revendedores da Consigaz. A TankGás sequestrou o mercado da Consigaz. A Consigaz não comprou a empresa. Ela pagou o resgate”, ressaltou. Ele contou ainda que “o negociador central era o César, mas na hora de sentar à mesa quem apareceu foi o César com o Beto Louco”, o que César Assunção nega. Procurada, a Consigaz afirmou que a compra dos ativos operacionais se deu por uma questão estratégica. A empresa não revelou o valor da operação. Ainda em sua resposta, a Consigaz informou que foi procurada por representantes da Ruby Capital que lhe ofereceram a compra da TankGás. A Consigaz já tinha demonstrado interesse anterior na base da empresa em Jandaia do Sul. “A Ruby Capital verificou nosso interesse na aquisição da pessoa jurídica TankGás, o que foi recusado. Contudo, após essa negativa foram oferecidos ativos operacionais da TankGás, momento em que foi demonstrado o interesse na aquisição destes ativos”, lê-se na resposta enviada pela Consigaz. O CNPJ da Ruby é o mesmo do fundo Altinvest Asset, alvo da Operação Carbono Oculto por suspeita de lavar dinheiro para o PCC. Hub de soluções financeiras, a empresa é liderada pelo advogado Rogério Garcia Peres e tem 10 fundos citados pelos promotores da operação. O MP-SP afirma que Peres é um dos responsáveis pelas “dinâmicas fraudulentas envolvendo fundos e a BK Instituição de Pagamento”. Ele também é apontado pela promotoria como “administrador de fundos de investimento, amplamente envolvido com o grupo Mohamad, sócio em postos de combustíveis”. Em pronunciamento enviado logo após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Altinvest diz “repudiar veementemente toda e qualquer relação com o crime organizado”, que está colaborando com a investigação e com as autoridades desde o início e que Peres “nunca manteve qualquer relação ou conhecimento de atividades do crime organizado” A Consigaz afirma que nunca tratou com Beto Louco e Primo sobre a compra de ativos da TankGás. “As tratativas para a aquisição dos ativos da Tankgás e operacionalização desta transferência foram realizadas diretamente pelos representantes legais desta empresa, que em nenhum momento eram as duas pessoas citadas”, reforçou a empresa. A Consigaz disse ainda defender “que a participação de pessoas suspeitas de envolvimento com o crime organizado no mercado de GLP ou de qualquer outro mercado devem ser investigadas e apuradas pelos órgãos governamentais competentes e se comprovada qualquer irregularidade devem responder pelos seus atos com o rigor da lei”. Como funcionava o esquema da TankGás Conforme apurou o ICL Notícias, a TankGás envasava botijões no Paraná e os transportava até São Paulo para serem distribuídos no estado vizinho, aproveitando-se da permissão dada pela legislação paranaense. Em 2023, uma fiscalização da ANP na TankGás localizou 272 botijões cheios de outras marcas. Também foram identificados botijões e cilindros vazios de outras marcas, com defeito ou na esteira para envase. O transporte interestadual dos botijões é corroborado pelo relato de um ex-motorista da TankGás, que ajuizou uma ação trabalhista em São Paulo contra a empresa. O motorista narrou no processo que trabalhou na TankGás de setembro de 2023 a fevereiro de 2024; que transportava botijões de gás de Jandaia do Sul para São Paulo; e que fazia duas viagens por semana. Sobre a rotina do seu trabalho, ele disse: “Que pegava o caminhão carregado em Jandaia do Sul aproximadamente às 10h00/11h00; que chegava em São Paulo aproximadamente às 02h00/03h00; que entrava na cidade e ficava na porta do cliente; que o cliente abria aproximadamente às 07h30/08h00; que a descarga e a nova carga duravam aproximadamente 06 horas; que saía do cliente aproximadamente às 15h00; que voltava para Jandaia do Sul”. O motorista foi contratado por uma TankGás que usava um CNPJ registrado em São Paulo, no nome de uma sócia de “Primo”, mas de número diferente da TankGás do Paraná. O negócio está em nome de Jivanilde Francisca dos Santos, sócia de Mourad na G8 Log Serviços Ltda. — que, segundo as investigações da PF e do MPSP, transportava os caminhões de combustível vendidos pelos grupos Aster e Copape, alvos da Operação contra o esquema do PCC. Questionado a respeito, César Assunção não soube explicar o fato. Flexibilização discutida na ANP pode favorecer crime organizado
A lei paranaense permitiu a entrada clandestina de Beto Louco no mercado de GLP em São Paulo, transportando botijões do Sul para o Sudeste do país. Atualmente, a ANP avalia a possibilidade de estender, em âmbito nacional, a permissão para que qualquer empresa possa envasar botijões de marcas diferentes. A proposta também inclui a autorização do envase fracionado. No entanto, representantes do setor alertam que essas medidas podem abrir brechas para a atuação do crime organizado no mercado de gás de cozinha. As duas propostas foram incluídas no Relatório de Análise de Impacto Regulatório (AIR), aprovado pela ANP em 10 de julho, sob a relatoria de Daniel Maia — cujo nome foi defendido pelo senador piauiense Ciro Nogueira (PP) para a diretoria-geral da agência. O parlamentar é presidente nacional de seu partido e um dos responsáveis pelas articulações da federação do PP com o União Brasil, ao lado de Rueda. O AIR é um processo que visa orientar a tomada de decisão regulatória, e tem como objetivo apresentar os impactos positivos e negativos de possíveis mudanças. A TankGás foi uma das empresas ouvidas na fase aberta para a participação social, na elaboração da AIR. Conforme consta no relatório, a videoconferência com representantes da empresa, realizada em setembro de 2023, “foi importante entender quais são as principais barreiras à entrada de um novo agente, no segmento de distribuição”. O presidente do Sindigás (Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo), Sergio Bandeira de Mello, ressaltou que a entidade tem “críticas severas” às soluções às quais a ANP apresentou na AIR. Ele ressaltou que “baixar a régua” da exigência para quem engarrafa, “pode atrair ainda mais o crime organizado”. Além disso, Bandeira destacou que o custo fiscalizatório “seria impossível” e que a ANP não apresentou análise econômica que justifique as mudanças. “Eles não apresentaram razões econômicas sustentáveis. Eles apresentaram razões qualitativas”, afirmou Bandeira.“Você não vai ter nenhuma resposta de redução de preço para o consumidor, nem vai ter uma resposta de aumento de competitividade, porque você vai inserir uma solução menos competitiva que a atual”, acrescentou. Flávio VM Costa e Alice Maciel — ICL Notícias

terça-feira, 7 de outubro de 2025

As casas que a internet destruiu

Uma rua de Diadema virou alvo de ódio nas redes da extrema direita — e teve até quem pedisse a morte dos moradores. Fui até lá descobrir os motivos por trás da “favelização”. Na última sexta-feira, 2, publicamos um teaser da reportagem que você vai ler hoje em Cartas Marcadas. Em menos de 48 horas, o vídeo ultrapassou 5 milhões de visualizações — uma audiência que cresceu de forma explosiva, turbinada por perfis da extrema direita sedentos por conseguir atenção às custas do ódio. Isso aconteceu porque fui o primeiro repórter a ir presencialmente a uma rua periférica que foi transformada em metáfora moral e usada como arma política por políticos e influenciadores nas semanas anteriores. Esta reportagem nasceu para contar o outro lado da história. Fui ouvir as pessoas que a internet decidiu odiar. Descobri histórias de trabalho, medo e esperança. Mas, sobretudo, encontrei um espelho do país: um lugar abandonado pelo estado, rejeitado pelo mercado e desprezado pela sociedade. O resultado é este retrato do Novo Habitat — um nome que prometia recomeço, mas acabou reproduzindo velhos problemas. Vamos aos fatos. Eram oito horas da manhã quando cheguei à Rua Novo Habitat, em Diadema, município na Grande São Paulo. Nas duas semanas anteriores, fotos comparando as casas em 2019 e 2025 tinham viralizado como exemplo de “favelização”. O deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, disse que aquilo expunha “o caráter, a cultura e o espírito” dos moradores, e houve até quem escrevesse que “favelados assim tinham que morrer” em um comentário no post dele. Nikolas não foi o único: outros deputados, jornalistas e movimentos de extrema direita, como o MBL, também se mostraram obcecados com o caso. Por causa disso, estava apreensivo para ver como seria recebido por ali. Andei alguns metros pela rua para conhecer o local. Até que vi um homem olhando para mim da janela de um dos sobrados. Perguntei se ele poderia descer para falar comigo. Era George Araújo, 49 anos, morador do lugar desde 1997. Começamos a conversar. Logo percebi o impacto daquela enxurrada de comentários na vida daquelas pessoas. Araújo não hesitou quando questionei se ele toparia ser entrevistado. “Estamos engasgados com isso”, disse, concordando que eu gravasse. ‘Os barracos eram no meio da rua. Ninguém comentava’ Araújo chegou à Rua Novo Habitat há quase trinta anos – informação que já derruba uma das mentiras que circularam nas redes sociais: a de que os beneficiados pelos imóveis entregues pelo programa habitacional da Prefeitura de Diadema venderam a posse das residências. Na maior parte dessas três décadas, Araújo viveu em um barraco de madeira. “Os barracos eram no meio da rua. Nessa época, ninguém comentava, estava preocupado com a calçada ou veio aqui ajudar”, disse. “Eu matava rato aqui. A água invadia. Depois é que vieram essas casas”. As casas coloridas que viralizaram nas redes foram inauguradas em 2018. O projeto das moradias foi concebido pela arquiteta Fabrícia Zulin, prevendo sobrados de 48,5 metros quadrados, em lotes de cinco por cinco metros, cercados por uma área industrial e um pedaço de mata fechada. Na época, as casas foram apresentadas como um modelo de habitação popular inovador e chegaram a ser citadas como exemplo pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Elas foram entregues pelo Fundo Municipal de Habitação na gestão do então prefeito Lauro Michels, do PV. A proposta surgiu após famílias como as de Araújo se recusarem a trocar o local por unidades de conjuntos habitacionais em outras regiões da cidade. Para evitar o despejo forçado, a prefeitura optou por construir as chamadas “casas cubo”, com dois cômodos em cima e dois embaixo. As ampliações que viraram alvo de ataques “Já são sete anos desde que estamos fazendo essas mudanças, e agora é que vieram esses comentários. Não dá pra entender nada”, disse Araújo. Ele afirmou que conversou com representantes da prefeitura, e que checou a documentação antes de fazer as mudanças nos imóveis. “Os papéis falavam de não mexer na estrutura. Crescemos pra frente”, explicou, enquanto me convidava para entrar na garagem de sua casa. Foi ali que comecei a questionar as motivações das mudanças. “O carro dormia na rua e amanhecia riscado”, explicou, sobre ter construído sobre o recuo de 5,5 metros que separava a porta de sua casa da rua. Araújo, que é pintor, também usa o espaço agora coberto para trabalhar em dias de chuva. Ele repetiu que as ampliações nasceram da necessidade, não por capricho: “Tem casa aqui que a família era maior. Era um sofrimento pra conviver. Eram dois cômodos para famílias com dois, três filhos”. Durante a conversa, percebi a insistência do morador em responder às críticas sobre a aparência de sua casa. Por isso, fez questão de me levar ao interior da residência. “Vem ver o acabamento que fizemos aqui dentro. É de porcelanato. Nós estamos fazendo o melhor que podemos. Eu pretendo terminar, deixar tudo bonitinho. Aos poucos, nós vamos chegar lá. Vou realizar esse sonho”, repetiu. A mágoa com o linchamento digital era evidente. “Pior são os políticos, que deveriam fazer alguma coisa”, disse, quando comentei sobre o tweet feito por Nikolas Ferreira. “Na eleição, querem vir aqui atrás de voto, fazer reuniãozinha. Pra mim, é tudo zé povinho”, desabafou. ‘Quando entregaram, foi no grosso’ Enquanto conversávamos, Thaís Lima, 27 anos, apareceu com o filho no colo. Ela passou a observar a entrevista até que perguntou: “Posso falar também?”. Concordei, dizendo que estava ali justamente para ouvir os moradores. “Desde que eu me conheço por gente, eu moro aqui”, contou, também relembrando o tempo em que habitava em um barraco de madeira. “Entregaram uma casa para duas famílias: a minha e a do meu tio. Eu já tinha dois filhos. A casa era de dois quartos. Como que vive eu, meus filhos, meu marido, meu tio e os filhos dele? Não tem como. Eu ampliei por isso”, disse. Thaís também lembrou do estado do imóvel entregue pela prefeitura: “Quando entregaram, foi no grosso: só tinha piso no banheiro e na lavanderia. Quando chovia, a calha enchia. As paredes já estavam corroídas. A água do banheiro não ia pro ralo, ela passava. Por fora são mil maravilhas. Quando entrava, descobria o que era”. Enquanto conversava com Thaís, seu tio, Heraldo, que é mestre de obras, apareceu. Ele reforçou as críticas ao projeto original do imóvel: “A casa está toda rachando. E uma calçada é pra ter dois metros, não seis metros como tinha aqui”, reclamou. Menos de dois anos após a entrega das casas, veio a pandemia. Thaís, o marido e as crianças ficaram confinados no espaço apertado. “Era enlouquecedor”, ela me disse, enquanto apontava para o quarto que virou cozinha. “A gente pensava: ou aumenta, ou morre sufocado.” Hoje com quatro filhos, ela também se mostrou afetada pelas críticas nas redes sociais. “O povo da internet me chamou de favelada, sem educação, que eu não estudo, que eu tenho que passar educação pros meus filhos. A minha moradia não significa que não tenho educação.” Medo de represálias Conversei com outros moradores, que pediram para que eu não gravasse entrevista com medo da exposição e de eventuais represálias. Segurança e falta de privacidade foram outros motivos apontados para a ampliação. Eles responderam a críticas sobre a “tomada das calçadas” dizendo que o trecho nunca teve passagem livre: nem no tempo dos barracos, nem nos imóveis entregues pela prefeitura, que previam os carros estacionados onde passariam os pedestres. “E tem calçada do outro lado. É que na foto está circulando por aí, não aparece”, disse um dos moradores. Nessa conversa, ouvi outras motivações para as ampliações das casas. Entre elas, a ausência de privacidade, já que as portas e janelas davam direto na rua, bem como o barulho constante. “Minha filha é autista, precisa de espaços mais protegidos”, disse uma gestante. O temor, agora, é de que a repercussão do caso faça com que eles não possam mais morar ali. “Eu estou desesperado com isso. Todo mundo aqui é honesto, trabalhador e não tem para onde ir. Vão tirar a gente daqui?”, me perguntou um homem. Novo Habitat, velhos problemas A verdade é que o caso da Rua Novo Habitat, em Diadema, não expôs apenas a violência nas redes sociais. Revelou também os limites de uma política habitacional que, décadas depois de sucessivos programas públicos, ainda não consegue garantir moradia digna e acompanhamento adequado às famílias de baixa renda. Para entender o problema mais profundamente, resolvi ir atrás do responsável pela entrega dos imóveis em 2018, o ex-prefeito Lauro Michels. Ele me atendeu e relembrou que o projeto nasceu de uma tentativa de evitar o despejo de famílias que viviam em barracos “insalubres e desumanos”. Perguntei a ele como reagiu às ofensas feitas por figuras da extrema direita. “Ninguém tem mais ou menos caráter por morar aqui ou ali”, afirmou Michels. Para ele, a discussão nas redes se tornou “cansativa” e marcada por generalizações políticas, enquanto as verdadeiras questões — moradia, segurança e acompanhamento — foram deixadas de lado. O ex-prefeito afirma que as moradias atendiam às necessidades das famílias naquele momento. “No verão, os barracos eram um forno microondas; no inverno, um freezer. O projeto buscou garantir o mínimo de dignidade”, disse. Sobre as ampliações feitas depois da entrega, o ex-prefeito reconhece que “cada um tem sua necessidade”, mas defende que cabe ao poder público fiscalizar e orientar. “Durante a minha gestão, as casas estavam em ordem. As ampliações respeitavam os recuos e as calçadas”, afirmou. ‘A arquitetura no Brasil ainda é elitista’ Conversei também com a doutoranda em arquitetura e urbanismo Ester Carro, que preside o Instituto Fazendinhando e pesquisa moradia digna nas periferias. Segundo ela, o espanto gerado pelas imagens do Novo Habitat revela mais sobre o olhar de quem critica do que sobre os moradores. “É como se a periferia tivesse aparecido agora”, diz. Ela lembra que a estética das favelas — marcada por puxadinhos, cores e improvisos — é frequentemente lida como sinal de desordem, quando, na verdade, expressa autonomia e criatividade. “O que muitos chamam de feio é, na verdade, uma arquitetura viva, diversa, feita por quem mora e conhece o território.” Carro aponta que o distanciamento entre arquitetos e moradores é uma das causas da descaracterização dos conjuntos habitacionais. “Quem desenha as nossas cidades? Há consulta aos moradores para entender o que eles querem ou precisam?”, questiona. “A arquitetura no Brasil ainda é elitista. Atende ao gosto da classe média alta e ignora as necessidades reais das famílias populares.” A pesquisadora, que atualmente cursa o doutorado na USP e na universidade holandesa TU Delft, destaca ainda que o problema vai além das casas. “No Brasil, não existe uma política pública de acompanhamento pós-ocupação”, explica. Para Carro, o caso de Diadema é um retrato dessa ausência de políticas integradas. “Isso não é exceção. Acontece em praticamente todos os conjuntos que não têm zeladoria ou administração interna”, afirma. Ela defende que o poder público crie conselhos de moradores e processos coletivos de decisão. “Quando há diálogo e gestão, o espaço é cuidado. Quando não há, cada um tenta resolver do seu jeito.” ‘A política habitacional no Brasil é um fracasso’ Uma das maiores referências em urbanismo no país, a professora Raquel Rolnik, da USP, também vê o episódio como sintoma de um problema estrutural. “A história da política habitacional no Brasil é uma história de fracasso”, diz. “A maior parte das moradias foi construída por autoconstrução — pessoas explorando a si mesmas, sem recursos e sem apoio técnico.” Rolnik critica o fato de a política de moradia ser desenhada a partir dos interesses do mercado e não das pessoas. “Ela é pensada entre a indústria da construção, a imobiliária e a financeira — e muito pouco com base nas necessidades reais da população.” Para Rolnik, há ainda uma contradição no discurso moralista de políticos que atacaram os moradores de Diadema. “É curioso que alguém como Nikolas Ferreira, defensor da liberdade de construir e do empreendedorismo popular, condene essas famílias. O que elas fizeram é justamente o que ele exalta: criaram soluções por conta própria, sem apoio do estado.” A gramática do ódio na extrema direita Foi justamente essa contradição — entre o discurso moralista e a realidade concreta — que me levou a procurar a professora Letícia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina, uma das principais pesquisadoras do país sobre extrema direita e linguagem digital. Quis entender por que a história de uma rua periférica virou metáfora moral nas redes e combustível para o discurso de ódio. Segundo ela, o caso de Diadema mobiliza códigos profundos do imaginário político brasileiro. “A extrema direita transformou o senso comum em arma de guerra”, afirma. “Eles operam com uma gramática de oposições — feio e bonito, ordem e desordem, perigo e segurança — que ativa reações viscerais nas pessoas.” Para Cesarino, esse tipo de discurso funciona porque apela à emoção e demarca fronteiras entre grupos. “Quando reiterado, ele leva à desumanização. O outro deixa de ser visto como humano.” Ela explica que o ataque aos moradores de Diadema ecoa a velha narrativa segundo a qual o “cidadão de bem” seria parasitado pelos pobres. “A ideia é que quem trabalha e produz está sendo explorado por quem não quer trabalhar — os favelados, os assistidos, os que bagunçam o que recebem. É um subtexto de parasitismo social que pega muito porque está no senso comum.” Para ela, essa moralização das causas sociais é o que torna o discurso perigoso. “Eles não enxergam fatores estruturais ou econômicos. Atribuem tudo ao caráter, ao espírito, à moral das pessoas”, diz. “E quando se naturaliza que alguém é ‘irrecuperável’, abre-se a porta para justificar sua exclusão — ou até sua eliminação simbólica.” Entre as falhas da política habitacional e a ignorância de quem condena, as casas do Novo Habitat se tornaram símbolo de uma velha história: a distância entre o Brasil idealizado e o Brasil que existe — aquele que, sem escolha, precisa continuar construindo sozinho. Por Paulo Motoryn

Caetano Veloso um camaleão da música universal,

Caetano Veloso é uma das figuras mais emblemáticas e influentes da cultura brasileira. Nascido em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em ...