A criação e consolidação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) no Brasil é um dos capítulos mais marcantes da história do direito do trabalho e da economia nacional. O processo envolveu debates acalorados entre trabalhadores, sindicatos, empresários e executivo federal durante os anos 1960.
O Contexto Histórico: A Estabilidade Decenal
Antes da existência do FGTS, o regime de proteção ao trabalhador urbano era regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) através do instituto da Estabilidade Decenal e da indenização proporcional.
Como funcionava: Se o trabalhador acumulasse 10 anos ininterruptos na mesma empresa, ele adquiria estabilidade no emprego e não podia ser demitido sem a comprovação de justa causa mediante um inquérito judicial.
O problema prático: Na tentativa de evitar que os funcionários completassem o ciclo de 10 anos e atingissem a estabilidade, muitas empresas demitiam os trabalhadores quando estes atingiam 8 ou 9 anos de casa. Isso gerava alta rotatividade coercitiva, insegurança jurídica para os empregados e resistência empresarial a investimentos de longo prazo em qualificação profissional.
A Luta e a Proposta de Reforma (1964–1966)
Após o golpe militar de 1964, a equipe econômica do governo de Humberto de Alencar Castelo Branco — sob a liderança do ministro do Planejamento, Roberto Campos, e do ministro da Fazenda, Octávio Gouvêa de Bulhões — elaborou uma reformulação profunda no sistema trabalhista e bancário.
Objetivo Econômico do Governo: A meta principal era acabar com a rigidez da estabilidade decenal, incentivar a contratação e criar uma poupança compulsória de longo prazo para financiar projetos estatais de infraestrutura e habitação popular através do recém-criado Banco Nacional da Habitação (BNH).
Resistência Sindical e Política: Houve forte oposição por parte dos lideres trabalhistas, sindicatos e parlamentares de oposição. A crítica central era de que o FGTS retiraria um direito histórico (a estabilidade no emprego) e daria margem a demissões sem justificativa real.
O Compromisso e o Regime de Opção: Como solução intermediária para aprovar a medida, o projeto de lei trouxe o FGTS não como uma substituição compulsória imediata para quem já estava trabalhando, mas sim como um regime opcional.
A Aprovação da Lei nº 5.107/1966
Após debates no Congresso Nacional, a legislação foi promulgada em 13 de setembro de 1966 (entrou em vigor em 1º de janeiro de 1967).
Regime Misto: Os trabalhadores podiam escolher entre permanecer no sistema da CLT tradicional (com direito à estabilidade após 10 anos) ou optar pelo regime do FGTS. Na contratação, o trabalhador assinava o termo de opção.
Funcionamento Inicial: As empresas passaram a depositar mensalmente uma porcentagem (inicialmente 8%) do salário do empregado optante em uma conta vinculada mantida pelo sistema bancário.
A Consolidação na Constituição de 1988
A coexistência entre os dois regimes perdurou por mais de duas décadas, embora a esmagadora maioria das empresas passasse a exigir a opção pelo FGTS no momento da contratação.
Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, a controvérsia foi definitivamente encerrada:
O artigo 7º, inciso III, da Constituição tornou o FGTS um direito compulsório e universal para todos os trabalhadores urbanos e rurais com carteira assinada.
O instituto da estabilidade decenal da CLT foi formalmente extinto para novos contratos.
Foi introduzida a multa rescisória (inicialmente de 40% sobre o saldo do fundo) para coibir demissões sem justa causa, atuando como o novo mecanismo de proteção ao emprego.
Impacto Socioeconômico do FGTS
Desde a sua criação, o fundo exerceu duplo papel na sociedade brasileira:
Proteção Individual: Funciona como uma reserva financeira de emergência para o trabalhador em casos de demissão sem justa causa, aposentadoria, doenças graves ou compra da casa própria.
Desenvolvimento Nacional: Constitui o maior fundo de financiamento habitacional, saneamento básico e infraestrutura urbana do país, administrado pelo Conselho Curador do FGTS e operado centralidamente pela Caixa Econômica Federal desde os anos 1990.


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