sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Os segredos de Textor (4) — Na sombra dos oligarcas

A proximidade de Textor com oligarcas russos e um endereço na Suíça que une todos os fios da teia
Por Lúcio de Castro* Testemunha ocular da história. Para poucas pessoas o batido lugar comum realmente deveria ser aplicado. Sergey Skaterschikov estava no olho do furacão quando um dos mais significativos capítulos do século 20 aconteceu. Invisível, ocupou lugares estratégicos no regime que nascia na Rússia quando o muro desabou. O dom da invisibilidade segue intacto. Sem ser visto, tem sido “coinvestidor e consultor” em negócios de John Textor ao longo dos anos. Presente também na nova empreitada do americano no mundo do futebol através da Index Atlas, nascida na Rússia, com filial em Nova Iorque e agora na Basileia, Suíça. No endereço que une a financeira de Skaterschikov, Textor e por onde passa até a SAF Botafogo, como está ao fim dessa história. Nascido em 1972 numa Moscou ainda sob a União Soviética, Skaterschikov teve seu nome publicado no Ocidente pela primeira vez em 1994. Apenas três anos depois do fim do regime comunista e no mesmo ano em que se formou na Universidade Estadual de Moscou em Geografia e Estudos Americanos, o rapaz de então 22 anos foi apontado pelo Wall Street Journal como “o melhor jovem empresário da Europa Central”. No ano seguinte, em 1995, foi a vez do The New York Times, em reportagem na edição de 23 de julho sobre jovens russos empreendedores, destacar o “rapaz atrapalhado”, e “novo rico”. Nesse momento, Skaterschikov fundou em Moscou seu primeiro negócio: a Skate Press Consulting Agency, uma empresa de informações financeiras. De acordo com aquele NYT de 1995, um empreendimento já com 50 pessoas. O exato instante no qual, ao mesmo tempo, está se forjando no país o que viria a ser conhecido como “a cleptocracia russa”. Ainda sob a liderança de Boris Yeltsin, as estatais foram vendidas e o patrimônio nacional entregue a preços irrisórios aos amigos do rei. Aqueles que viriam a ser chamados de oligarcas. Um processo levado adiante e ainda mais radical com a ascensão de Vladimir Putin ao poder, em 1999. Era Putin marca enriquecimento de empresário próximo a Textor É nesse cenário que Sergey Skaterschikov deslanchou para a fortuna, ampliando sua teia empresarial. Sempre ligado a empreendimentos que prosperaram nessa Rússia dos anos Putin. Em 2000, fundou a Index Atlas. Era o rosto da empresa em Moscou e um sócio em Nova Iorque. No ano de 2002, passou a ser também o Diretor Geral Adjunto de Finanças da OMZ (United Heavy Machinery), empresa russa que atua principalmente na indústria pesada e engenharia. Foi o organizador da entrada da OMZ na Bolsa de Valores de Londres. O período é o mesmo em que o Gazfond, um fundo de pensões ligado a estatal Gazprom, maior empresa de energia da Rússia, e também a maior exportadora de gás natural do mundo, envolvida em uma série de escândalos de corrupção, iniciou significativa compra de ações da OMZ.
Skaterschikov atuou na empresa que viria a ser denunciada por Navalny em desvio de US$ 4 bilhões no oleoduto O projeto de construção de um oleoduto que levasse o petróleo bruto da Rússia para os mercados do Pacífico asiático como Japão, China e Coreia existia desde os anos 70, ainda na União Soviética. Em 1996, Boris Yeltsin assinou com a China um acordo energético incluindo a construção do “Oleoduto East Siberia — Pacific Ocean” (ESPO). Com a chegada ao poder em 1999, Putin decidiu tirar do papel o “ESPO”. Em maio de 2003, o governo russo decidiu que duas empresas seriam as responsáveis: a Transneft ficaria responsável pela construção e a Yukos forneceria o petróleo e ambas iniciam as licitações para contratações de empresas parceiras para a obra, que começaria em abril de 2006. Nesse momento de efervescência, entre 2001 e 2005, Skaterschikov ocupou o cargo de consultor em desenvolvimento estratégico, finanças corporativas e relações com investidores da Transneft. Em seu material corporativo, a Index Atlas destaca a Transneft como uma das joias da coroa no portfólio de clientes da empresa. Os contratos da Transneft para a construção do oleoduto são um dos pilares das denúncias que iriam notabilizar Alexey Navalny. Advogado que depois passaria a ser o mais destacado opositor a Putin. Em 2010, Navalny publicou em site próprio denúncias documentadas acusando a Transneft de ser a ponta do esquema que desviou US$ 4 bilhões, sendo que US$ 2 bilhões teriam sido lavados em contribuições para instituições de caridade. Em 2021, os documentos revelados pelo Pandora Papers, em reportagem publicada na BBC, terminaram por desenhar o esquema de corrupção que vazou do oleoduto russo: uma rede formada por diversas camadas de empresas em paraísos fiscais, passando por Luxemburgo, Malta e nas Ilhas Virgens Britânicas, com a finalidade de ocultar a origem do dinheiro e as empresas beneficiadas, e tendo como proprietários, ao menos no papel, fundos de investimento. Em 21 de agosto de 2020, Navalny passou mal durante um voo entre Tomsk e Moscou, com sinais de envenenamento. Removido para Berlim, teve o envenenamento confirmado pelo governo alemão. Recuperado, voltou para Moscou e foi imediatamente preso ao desembarcar. Em 16 de fevereiro de 2024, morreu em uma prisão do Círculo Polar Ártico. No epicentro de grandes negócios nos anos Putin Entre os anos de 2005 e 2007, Sergey Skaterschikov comandou o escritório russo do banco alemão Dresdner Kleinwort Capital, sendo chefe dos negócios de IPO (oferta pública inicial) do banco na Rússia e na Ucrânia, e diretor de investimentos. Nesse período, o escritório foi o epicentro de grandiosos negócios envolvendo empresas gigantes de setores estratégicos da Rússia. Em dezembro de 2005, o Dresdner marcou a grande entrada alemã no setor bancário russo ao anunciar a compra de um terço do Gazprobank por US$ 803 milhões. Dois meses antes, em outubro, o banco alemão assessorou a Gazprom na compra da petrolífera Sibneft. Preço: US$ 13 bilhões. A Sibneft pertencia ao provavelmente mais famoso oligarca russo: Roman Abramovich, alçado a fama planetária durante o período em que foi proprietário do Chelsea. O acordo foi assim tratado pelo New York Times de 7 de dezembro de 2005: “É uma transação complexa em que as ações da Gazprom nunca são registradas nos livros do Dresdner”. Stanislav Belkovsky, analista político russo, especialista em temas relacionados a oligarcas e suas relações com o estado, afirmou sobre a transação: “As empresas estatais pagaram substancialmente a mais quando compraram empresas a empresários privados ‘favorecidos”. Indicação direta do filho de oligarca Em 2005, Skaterschikov entrou para o conselho de administração da Kirovsky Zavod por indicação direta do proprietário, Georgy Semenenko, herdeiro do oligarca Petr Semenenko, como está relatado no terceiro capítulo desta série de reportagens. Em fevereiro de 2007, Skaterschikov assumiu a vice-presidência de estratégia do MTS Group, a gigante de telefonia móvel russa com subsidiárias em diversos países, entre eles Armênia, Ucrânia, Uzbequistão, Bielorrussia e Turquemenistão, e cuja maior acionária é a holding financeira “Sistema”, controladora também de 49% da produtora de petróleo russa Russneft.
Em janeiro de 2008, Skaterschikov passou para a vice-presidência de desenvolvimento de negócios. O período é o mesmo em que a empresa está passando por uma total reestruturação, que vai até 2012. Caracterizado sobretudo por uma estratégia de aquisições agressivas e marcado muitas vezes por intimidações por parte da MTS, usando o Estado para tal. A era de aquisições agressivas está detalhadamente retratada em “Aquisições coercitivas lideradas pelo Estado na Rússia de Putin: explicando os motivos subjacentes e resultados de propriedade”, tese de doutorado de Andrew Yorke apresentada na London School of Economics and Political Science em abril de 2014 e posteriormente transformada em livro, que tem amplo material sobre a MTS nesse momento. Os escândalos de corrupção e fraude da MTS no período são abundantes e estão espalhados nos noticiários internacionais e nas cortes de Justiça do mundo inteiro, além de estarem retratados em ação movida pelo Departamento de Justiça americano e pela CVM, que resultaram em US$ 2,6 bilhões de acordos naquele país por acusações de corrupção, lavagem de dinheiro e suborno e de violação da FCPA, a “Foreign Corrupt Pratices Act”, ou “Lei de Práticas de Corrupção no Exterior”. Nos processos, estão detalhados subornos de funcionários de diferentes governos durante o período de aquisições da MTS. Acima de Skaterschikov, à frente de tudo na MTS, estava um dos maiores e mais poderosos oligarcas russos: Vladimir Yevtushenko, detentor de 64,18% da holding e muito próximo a Putin. Uma proximidade íntima demonstrada ao estar junto a Putin no palácio recentemente, no dia da invasão da Ucrânia. Parceria afinada: depois da MTS, Skaterschikov e Yevtuschenko formaram novamente na Redline e em revista de arte Skaterschikov e Yevtushenko estiveram juntos em outro negócio chave do oligarca. Detentor de 100% da empresa de investimentos Redline Capital, no paraíso fiscal de Luxemburgo, Yevtushenko nomeou o velho conhecido como diretor geral da empresa em 2011. Cargo que Skaterschikov ocupou até 2014, presente também no conselho de administração. Juntos, os dois repetiram o mesmo modus operandi de aquisições agressivas com que haviam se destacado na Rússia, agora em um novo ramo: em 2011, foram para cima do Artnet, site do mercado de arte sediado na Alemanha, que opera um banco de dados muito utilizado de preços de leilões. O fundador, Hans Neuendorf, resistiu por um tempo, mas, endividado, por fim sucumbiu e a dupla da Redline ficou com o comando. Em entrevista para a Artmagazine, em 2019, Hans Neuendorf abordou o episódio, sem poupar Sergey Skaterschikov. “Um cara suspeito que faz todo tipo de negócios” “Não sei por que ele decidiu desempenhar um papel no mundo da arte, mas era isso que ele queria. O que descobrimos é que ele fazia parte do conselho de administração de uma empresa (MTS) de um dos grandes oligarcas russos, Vladimir Yevtushenko, que apoiava Sergey”, afirmou Neuendorf, que completou: “Yevtushenko tinha, entre outras participações, uma empresa de aquisições, e Sergey fazia parte desse conselho”. Por fim, Hans Neuendorf jogou no ar uma série de indagações sobre o histórico de Skaterschikov e seus negócios, e o interesse do russo por entrar no universo da arte, tradicional mercado sob suspeita por histórico de lavagem de dinheiro de bilionários envolvidos em corrupção ao redor do mundo. Com protagonismo de oligarcas russos. “Ele é um cara suspeito. Um cara ventoso, e me perguntei por que ele queria isso. Mas ele fez todos os tipos de negócios. Ele é banqueiro de investimentos de profissão e só estava interessado em fazer fusões e aquisições e aumentar o valor das empresas adicionando outra empresa a elas”, diz, abordando um traço dos negócios do russo. No mundo das artes, Skaterschikov também comandou a feira Viennafair, assumida por ele em 2012, ao lado do bilionário russo Dmitri Alksenov. Na ocasião, Skaterschikov fundou a Art Vectors Investment Partnership, com objetivo de atrair investidores. No ano seguinte, Dmitry Aksenov assumiu o controle acionário da empresa e fez a Viennacontemporary, feira até hoje na cena das artes. O clube dos bilionários russos fundado por parceiro de Textor com patrocínio de um dos “sete banqueiros oligarcas” Bilionários russos, Skaterschikov e o mercado de arte já tinham se encontrado em empreitada anterior. Em 2010, Skaterschikov fundou o Insiders Club, em Moscou, para juntar todas essas pontas. Em 11 de agosto de 2010, o investidor deu entrevista ao The Observer londrino sobre o clube. “A ideia por trás do Insiders Club é, neste momento, a elite russa. Convidamos 90 pessoas de alto patrimônio. A lista veio da Sotheby’s, da Sotheby’s Realty, de bancos suíços, mas eles normalmente não gostam de ser identificados, e da Alfa. Tivemos David Yakobashvili. Outros, a maioria com US$ 80 milhões a US$ 200 milhões, e tivemos três bilionários”. David Yakobashvili citado por Skaterschikov como um dos sócios e compradores do seu clube é mais um bilionário russo que fez fortuna após o fim da União Soviética. Seu primeiro negócio é representativo quanto à origem do dinheiro. Com um grupo de dez empresários de diversos ramos, fundou a Trinity, que, entre outras empresas, tinha a Metelitsa, a famosa boate e cassino que marcou época na Moscou dos primeiros anos capitalistas até o fim da década de 2000, conhecida por ser o ponto de encontro na noite de novos milionários, gangsters e mafiosos do país. A Trinity está citada no relatório de corrupção do consórcio de reportagem de “Denúncia ao Crime Organizado e Corrupção” (OCCRP). O grupo de Yakobashvili chegou a ter 300 empresas na Rússia, entre elas a que explora caça-níqueis por Moscou. Na entrevista ao The Observer, Skaterschikov cita um dos patrocinadores do clube que reúne bilionários russos compradores de arte: o Alfa Bank, maior banco privado russo. Mikhail Fridman, o fundador do banco, é um dos “semibankirschina”, termo russo que batiza o grupo de sete banqueiros poderosos que exerceram grande influência política e econômica na Rússia durante a década de 1990. “Sem” (sete) e “Bankir” (banqueiro), a “oligarquia dos sete banqueiros”, completada por Boris Berezovsky, Mikhail Khodorkovsky, Vladimir Gusinsky, Alexander Smolensky, Vladimir Potanin e Pyotr Aven. No ano passado, o patrocinador de Skaterschikov foi preso em sua mansão londrina pela “National Crime Agency” (NCA-Agência Nacional de Combate ao Crime), através da especializada Kleptocracy Cell (Célula de Combate à Cleptocracia). Entre as acusações, estava a de lavagem de dinheiro e de ter financiado um projeto de caridade dirigido pela filha mais velha de Putin.
O endereço que liga todos os fios da teia Gerbergasse 48, 4001. Basileia, Suíça. Parece apenas mais um pacato escritório em uma rua aparentemente tranquila, quase tediosa, coberta de paralelepípedos, em um prédio cinzento de esquina com cinco andares. Os principais personagens dessa história se encontram nesse endereço. Juntos e misturados. Depois de darem uma volta no mundo com escala em quase todos os paraísos fiscais, os fios dessa teia se unem.
De acordo com o registro comercial de empresas suíço, o Facebank, ligado a John Textor, e o Index Atlas, de Sergey Skaterschikov, estão juntos nesse endereço. No quarto andar. Na mesma sala. Sob o mesmo teto. A Youngtimers, já presidida pelo russo, também está lá. Para completar, nesta sala ainda está a Nexway AG, parte das subsidiárias do Facebank.
Imagem do Botafogo é comercializada a partir do mesmo endereço do bilionário russo ligado a oligarcas Parte da imagem do Botafogo também está sendo comercializada a partir de Gerbergasse 48, 4001. Vendido como a principal ideia do Facebank atualmente, “the big idea”, um banco virtual para armazenar, proteger e ativar a imagem do rosto e corpo do cliente, o “aplicativo Facebank” tem na peça principal de propaganda uma face pintada com as cores alvinegras e a inconfundível estrela solitária. É a teia de Textor se ampliando.
A pequena rua suíça carrega boa parte da teia. Dos segredos de Textor. E do silêncio sombrio no entorno. Os ex-sócios se recusam a falar. Sequer em off. Testemunhos sobre ele, somente em registros com mais de uma década. Ou em processos. Como no caso de uma publicação perdida no tempo em que o depoimento de alguém próximo, então mantido no anonimato, ilumina o personagem. “Se ele conseguir levantar dinheiro dessa vez, será espantoso. Os investidores não têm Google?”, perguntou na ocasião. Para pouco adiante parecer se render, como numa profecia. “Mas John é como um gato. Ele simplesmente continua voltando.” Parece que a predição estava certa. Dezenas de processos mundo afora, acusações e acordos, intricadas conexões, dívidas e múltiplas falências depois, John Textor está de volta. Mais em casa do que nunca. Agora em dois universos que parecem os mais próprios e férteis para negócios e negociantes controversos: O futebol e o Brasil. Outro lado: John Textor A reportagem enviou uma série de questões para John Textor em diferentes ocasiões. Por diferentes formas: através da assessoria de imprensa da SAF Botafogo, por telefone e e-mail do diretor de comunicação, assim como também para a assessoria do Eagle Footbaal. Todos sem resposta. A Index Atlas, de Sergey Sktarschikov, foi citada ao longo da série e confirmou para a reportagem ser “co-investidora ou ter aconselhado o sr Textor em diversas transações no passado”.

domingo, 25 de agosto de 2024

Os segredos de Textor (2) — Novos negócios, velhas acusações

Relatório da Comissão de Valores Mobiliários americana jogou luz sobre modus operandi dos negócios do empresário
Lúcio de Castro* A segunda temporada da história do lado B dos negócios de John Textor parecia ser uma monótona repetição da primeira. Acusações de fraude, desvio de dinheiro, pirâmide financeira, dívidas, falência iminente. O mesmo modus operandi. Tudo novamente. A primeira, desenrolada entre 2006 e 2012, tendo como marco a falência da Digital Domain, ficara para trás. Mas a fase que começava trazia algumas grandes diferenças: a chegada de outros personagens e novos protagonistas, como investidores. E um fato novo: a menção, pela primeira vez, da existência de uma teia de empresas e offshores conectadas ao empreendimento da ocasião do agora proprietário da SAF Botafogo, para onde escoava o capital. Enquanto uma nova Digital Domain se erguia na China após a falência da matriz americana, sem a presença de Textor e envolta em uma nuvem de suspeições, ele começava nos Estados Unidos uma nova empreitada, ainda com os escombros da empresa no chão. No fim de 2013, o empresário fundou a Pulse Evolution. A mesma matéria-prima: vender emoções, sonhos. A materialização do sobrenatural em cima de um palco. Na prática, humanos digitais hiper-realistas projetados em shows ao vivo. Realidade virtual, realidade aumentada, inteligência artificial na cara da multidão. Tudo em milagrosos hologramas. Na essência, a Pulse Evolution trazia uma única grande diferença em relação à antecessora Digital Domain: dali para a frente, toda a estratégia da empresa seria focada em humanos virtuais e não mais em efeitos visuais de cinema. E a aposta na propriedade de imagens. Pouco antes do início da Pulse Evolution, no dia 15 de abril de 2012, nos estertores da Digital Domain, um momento do Festival Coachella de música, na Califórnia, assombrou o mundo. Quinze anos depois da trágica morte com cinco tiros, o rapper Tupac Amaru Shakur estava no palco. Diante de 80 mil espectadores embasbacados, com “Thug Life” tatuado na barriga, anéis espalhados pelos dedos, a calça caída, e o dueto com o presente fisicamente Snoop Doggy Dogg. Os sucessos “Hail Mary” e “2 Of Amerikaz Most Wanted” levaram a multidão ao delírio. As imagens ganharam o mundo e deram a certeza de sucesso. Uma máquina de fazer dinheiro na mão.
Quem viu naquela noite o que parecia o prenúncio de um novo tempo certamente não imaginou que dali a cinco meses a Digital Domain estaria fechando as portas. Mas o choque causado pelo Coachella, com o produto único capaz de mobilizar milhões, deixava uma porta aberta para nova empreitada, a despeito do histórico caótico. Já em fevereiro de 2014, a Pulse Evolution contratou uma empresa para captar investidores e botar de pé seus projetos. Em 18 de maio de 2014, ancorados na expertise anterior da Digital Domain, a Pulse Evolution abalou a noite do Billboard Music Awards, no MGM Grand Garden Arena, Las Vegas, com o holograma de Michael Jackson dando vida a uma póstuma “Slave to the Rhythm”. Era o que faltava para os investidores abrirem os bolsos. Em pouco tempo, seduzidos pelo hábil canto de Textor, que prometia cachoeiras de mel no fim da realidade virtual, começou a jorrar dinheiro na Pulse Evolution. Tudo de novo. A promessa de Textor aos investidores tinha números e lucros estratosféricos: a Pulse Evolution desenhou um modelo de negócio onde ela e futuros sócios ficariam com entre 20 e 40% nos lucros das turnês. Embora no mercado fosse voz corrente que os restritos contratos com os espólios das lendas, além de deixar para a Pulse Evolution todos os altos custos de produção, asseguravam somente 20% das receitas para a empresa. Em setembro daquele ano, a PB Invest, de Philipp Boeringer, botou US$ 770 mil no “Projeto Michael Jackson”, que prometia repetir a noite do maio anterior no MGM Grand, agora em turnês pelo mundo. No início de 2015, a mesma PB Invest se juntou a outros investidores e formaram uma empresa, a Holotrack AG, inscrita na Suíça e voltada para os investimentos nesses projetos da Pulse Evolution. Em troca, a empresa receberia ações da Pulse Evolution e 10% dos vencimentos do projeto. Bernhard Burgener entrou como investidor e sócio através da Highlight Communications, parte do grupo HLEE (Burgener e Alexander Studhalter). Além de ficar como produtor do projeto, Burgener passou a ter um lugar no conselho de administração da Pulse Evolution. Buraco sem fundo No começo de 2015, a Holotrack acertou um investimento de US$ 3.700.000,00 (três milhões e setecentos mil dólares) na Pulse Evolution, a ser feito em seis parcelas entre janeiro e junho. Textor e o sócio Rene Eichenberger dobravam a aposta para captar mais recursos em agora dois projetos: além de Michael Jackson, prometiam ressuscitar Elvis Presley e botar ambos pelo mundo requebrando as cadeiras e cantando. Quatro décadas depois da morte, a lenda urbana de que “Elvis não morreu” se tornaria verdade. E a garantia de sinônimo para fazer milhões de dólares em turnê pelo mundo. Em agosto, a Pulse Evolution apresentou nova demanda: US$ 620 mil. Com a justificativa da sequência do financiamento das despesas comerciais dos dois projetos, já rebatizados como “Primeiro Investimento Holotrack” e “Segundo Investimento Holotrack”. A empresa de Textor ainda apresentou aos então parceiros um outro plano, o “Terceiro Investimento”: uma turnê virtual com o ABBA. Outubro chegou com o pedido de mais US$ 1 milhão de subsídio. Por Skype e e-mails, Textor e Eichenberger argumentavam que precisavam de injeções adicionais de dinheiro para que os projetos seguissem. Dois meses depois, em dezembro, ainda em 2015, mais US$ 1 milhão de dólares solicitados. Com um apelo sentimental: além de manter o projeto, a verba seria também para cobrir a folha de pagamento dos funcionários. Um caso de emergência. Em troca, cada investidor receberia 6 mil ações da empresa. Em setembro de 2016, mais US$ 1.050.000,00 (um milhão e cinquenta mil dólares). Em março de 2017, a Pulse Evolution voltou a passar o chapéu e pediu mais US$ 600 mil. Dessa vez, só para a PB Invest, de Philipp Boeringer. Mais uma vez o dinheiro foi disponibilizado. Mas nesse momento aconteceu uma ruptura.
Diligência apontou que empresa de Textor captou US$ 8,7 milhões de investidores mas não entregou projeto Exatos US$ 8.740.000,00 (oito milhões e setecentos e quarenta mil dólares) injetados depois, uma Pulse Evolution quebrada e moribunda, sem dinheiro do Natal dos funcionários, nada de Elvis, nada de Michael Jackson, ABBA, nenhum show, nenhuma turnê, os prazos vencidos, a PB Invest resolveu entender o que acontecia e investigar a Pulse Evolution, considerando as respostas que recebia de retorno como “falsas e enganosas”, como viria a classificar posteriormente. Como parte do acordo do procedimento instaurado pela PB Invest, a Pulse Evolution nomeou um consultor financeiro, Grant Murray, para interlocução com os investidores, que tiveram acesso às contas, recibos e pagamentos da Pulse Evolution numa pasta nomeada como “Março — Reunião de 2017”. Um processo de “due diligence” para ter um raio-x da empresa de Textor. Documentos salvos, revisados, checados… O resultado da investigação causou perplexidade aos investidores. Em um “memorando de entendimento” de janeiro de 2016, de acordo com o relatório da PB Invest, Textor aparece autorizando para ele mesmo pagamentos de bônus não sancionados, violando os estatutos da própria Pulse Evolution e o acordo com os investidores. No rastro das transferências eletrônicas da Pulse Corporation, saques para cartões de crédito pessoais, pagamentos para familiares e até empresas laranjas. Total: em dois meses, entre janeiro e fevereiro de 2016, de acordo com as diligências, um desvio de quase US$ 500 mil, mais exatamente US$ 479.166,67 da quantia injetada pelos investidores na Pulse Evolution. Ação fala em “conduta Ilícita, fraude, farsa, desvio e roubo” Encerradas as diligências dos investidores nas contas da Pulse Evolution, diante do volume de informações e documentos encontrados, o caminho escolhido foi buscar indenização na Justiça. Uma ação foi iniciada pela Holotrack e pela PB Invest, com entrada em 11 de agosto de 2017, na Corte Distrital da Flórida. Contra John Textor, Rene Eichenberger e um terceiro sócio, Frank Patterson, além da própria Pulse Evolution. “Conduta ilícita, fraude, farsa e desvio” são os termos utilizados na peça inicial dos investidores para justificativa do pleito, estimado em uma indenização de US$ 25 milhões: “Esta ação visa remediar a conduta ilícita dos réus em fraude induzindo os requerentes a investir e emprestar milhões de dólares para a farsa dos réus produtora de efeitos visuais, Pulse, cujos rendimentos em dinheiro os Srs. Textor e Eichenberger desviaram para financiar o estilo de vida luxuoso e o estilo de vida de seus amigos e família.” O histórico judicial de John Textor e, de acordo com a denúncia, o modus operandi semelhante na empreitada anterior, a Digital Domain, é lembrado logo no início. “Após o colapso da produtora anterior do Sr. Textor, Digital Domain, enfrentando vários processos judiciais acusando-o de fraudar investidores da Digital Domain em aproximadamente US$ 100 milhões e efetuando um esquema Ponzi para enriquecer, o Sr. Textor fundou a Pulse com os Srs. Eichenberger e Patterson.” Informações falsas sobre o andamento dos projetos também estão na acusação. Em 19 de agosto de 2015, os representantes da Holotrack pediram para Textor e Eichenberger, em uma videoconferência, um gráfico com os marcos de produção e desenvolvimento do “Projeto Elvis”. Receberam e-mails no dia seguinte, com diversas etapas dadas como “concluídas”, o que, de acordo com a ação, nunca se confirmou. Além do exame dos documentos e contas, no fim desse mesmo mês de março em que promoviam a devassa na Pulse Evolution, os representantes dos investidores visitaram o escritório da empresa para reunião com os funcionários, conhecer o estúdio e ver o andamento das produções. Ação fala em transferências da conta corporativa Pulse Evolution até para a mãe de John Textor Um dos pontos da ação é sobre transferências da conta corporativa da empresa para benefício pessoal: A) 11 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 45 mil para a conta American Express de John Textor. B) 20 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 29.166,67 para a Clematis Properties. (Nota da reportagem: registrada em 7/4/1997, Flórida, em nome de Rene Eichenberger). C) 26 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 50 mil para a Alternative Holdings. (Nota da reportagem: registrada em 18/2/2009, Zurique, Suíça, em nome de Rene Eichenberger). D) 29 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 50 mil para a Alternative Holdings. (Nota da reportagem: registrada em 18/2/2009, Zurique, Suíça, em nome de Rene Eichenberger). E) 29 de janeiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 50 mil para a Textor Ventures. (Nota da reportagem: registrada em 24/2/1997, Flórida, em nome de John Textor). F) 1º de fevereiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 50 mil para John Textor individualmente. G) 3 de fevereiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 180 mil para Dale Lovett, mãe de John Textor. H) 19 de fevereiro de 2016: a Pulse Evolution transferiu US$ 25 mil para a conta E-trade de John Textor. (Nota da reportagem: “Conta E-trade” é uma plataforma de serviços financeiros que permite aos usuários comprar e vender uma variedade de ativos financeiros, entre eles ações, fundos negociados em bolsa, etc.).
Pela primeira vez há menção a uma rede transnacional ligada a Textor por onde o capital circula Em meio ao detalhamento de um novo “esquema Ponzi” (pirâmide financeira), no qual “investimentos em dinheiro e dívidas em nome da Pulse foram usados principalmente para pagar credores… promovendo assim a ilusão de que a empresa estava gerando fluxo de caixa legítimo e permitindo que Textor e Eichenberger continuassem a executar seu esquema para enriquecer fraudulentamente”, surgiram acusações de novas “fraudes e farsas em acordos de consultoria”. Envolviam milhões de dólares e balanços falsos, um episódio citado no relatório de diligência e na ação na Justiça aparece pela primeira vez nos muitos processos e registros públicos que citam Textor: uma rede de empresas, incluindo offshores, por onde escoavam ações da Pulse Evolution: “emissões de ações para entidades nacionais e offshore de propriedade e controlada por Textor e Eichenberger individualmente e seus amigos e familiares”. Uma teia que irá ser desenhada na terceira reportagem.
Defesa de Textor chamou acusações de falsas e calúnias para obter o controle da empresa Na Justiça, a defesa de John Textor afirmou que as acusações eram falsas, e que o consórcio tinha interesses muito menos nobres no episódio: “Sendo as alegações de apropriação indébita de fundos apenas calúnias que ajudam os investidores suíços a alcançar o seu objetivo final de obter o controle da Pulse Evolution”. Em 13 de junho de 2018, o processo foi encerrado por iniciativa da Holotrack e PB Invest, que haviam proposto a ação. Na notificação de encerramento não consta se houve acordo entre as partes. Venda de partes da propriedade e empréstimos: relatório da CVM relata modus operandi em negócios de Textor A repetição de todas as práticas da Digital Domain na Pulse Evolution está registrada também em um relatório da Comissão de Valores Mobiliários americana, publicado em 2020. No documento, está traçado o perfil da empresa ao longo dos anos. Primeiro, descreve “déficit acumulado de US$ 458,6 milhões em 30 de setembro de 2020”. E depois prossegue com a senha para entender o funcionamento e modo de financiamento da Pulse Evolution ao longo dos anos, além da teia que se formou no entorno: “Desde a sua criação, as operações da companhia têm sido financiadas principalmente por meio da venda de títulos de capital e de dívida. A companhia tem incorrido em perdas operacionais e fluxos de caixa negativos das atividades operacionais desde o início”. Ou seja, basicamente, a empresa levantou dinheiro vendendo ações (títulos de capital), partes de sua propriedade e pegando empréstimos (títulos de dívida) para financiar as atividades, com pagamento periódico de juros. Um relatório com semelhanças ao que se descrevia sobre as mazelas da Digital Domain no passado. E nos negócios de Textor. Outro lado: John Textor A reportagem enviou uma série de questões a John Textor em diferentes ocasiões. Por diferentes formas: através da assessoria de imprensa da SAF Botafogo, por telefone e e-mail do diretor de comunicação, assim como também para a assessoria do Eagle Football. Todos sem resposta.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Raízes profundas da conspiração contra a Venezuela

Publicado em Agosto 11, 2024 Por Osvaldo Bertolino Bertolino Atual ofensiva da direita contra a democracia na Venezuela, com perfil nazifascista e conteúdo da roubalheira neoliberal, tem um fio histórico. Hostilidades recente ao presidente democraticamente reeleito Nicolás Maduro fazem parte de um processo montado nos Estados Unidos para pilhar outras nações à base de um gigantesco aparato militar e ideológico. Por qualquer ângulo que se olhe para o regime dos Estados Unidos é impossível não ver criminosos de guerra. Os senhores da guerra são uma importante fonte de poder. A ordem militar, até a década de 1950 uma instituição débil, transformou-se no escalão mais importante e mais caro do governo dos Estados Unidos. Saíram de cena os sorridentes homens de relações públicas e apareceu a face da sinistra burocracia instalada na máquina de guerra. Todos os fenômenos políticos e econômicos passaram a ser julgados à luz de interpretações militares. O “realismo militar” dos chefes militares instalados no poderoso Estado-Maior Conjunto transformou-se no guia mais inspirado do grupo dirigente do país. Desde os anos da Segunda Guerra Mundial, essa força ampliou seu campo de ação em assuntos relativos à política exterior e doméstica do país e atualmente pode-se dizer que a ordem militar do Estado-Maior Conjunto está solidamente instalada no Estado. Existem dois governos nos Estados Unidos. O primeiro é o governo sobre o qual o mundo se informa na internet, no rádio, na televisão e nos jornais, e as crianças nos livros escolares. O segundo é invisível e conduz a espionagem e a rede de informações, um aparato maciço que emprega centenas de milhares de pessoas secretamente e conduz a política externa do país. Esse governo invisível emergiu das imposições dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial. Mundo ocidental Os demais países centrais, exaustos pela guerra, foram obrigados a aceitar essa ordem em troca de ajuda para a sua reconstrução. Assim, os Estados Unidos deixaram de ser apenas mais um agregado no conjunto de países que lutavam por pedaços do mundo e passaram a ocupar o pico de uma pirâmide solidamente dirigida por eles. As regras desse jogo foram definidas num momento privilegiado para o grande país americano. Nenhum representante do chamado Terceiro Mundo participou desses tratados. A Europa, destruída e ensanguentada por duas grandes guerras num curto espaço de tempo, não estava em condições de se opor à grande capacidade de produção norte-americana proporcionada pela Segunda Revolução Industrial — que dotou o país de uma poderosa e inovadora indústria. Na Ásia, o Japão, destroçado pela guerra, foi ocupado pelos Estados Unidos, que ditaram o rumo da sua reconstrução. Esse processo do pós-Segunda Guerra Mundial que desencadeou a dominação norte-americana no chamado mundo ocidental, portanto, levou o capitalismo a uma transformação profunda. No final dos anos 1940, somente os Estados Unidos estavam em condições de exportar capital em grande escala. E o país usou essa condição privilegiada para manter sob o seu controle as rédeas num mundo que buscava alternativas ao seu modelo político e econômico. Na Europa, o projeto social-democrata procurou adaptar a economia planejada à tradição comercial liberal do velho continente. No Japão, o Estado se reforçava para desempenhar um papel de destaque no planejamento econômico. E cerca de um terço da população mundial rompeu com esses paradigmas e se juntou à União Soviética para reforçar o sistema de economia totalmente planificada. Desde então, os Estados Unidos intervieram em vários países e promoveram uma feroz cruzada anticomunista em todo o mundo. Declaração de Independência A política norte-americana sempre foi expansionista e agressiva com a América Latina. A própria constituição dos Estados Unidos como nação encerra uma contradição entre o que foi proclamado dia 4 de julho de 1776, quando o povo norte-americano aprovou a Declaração de Independência, e a política exterior da jovem pátria. As premissas do expansionismo continental norte-americano foram criadas com as guerras contra a população originária e as reivindicações dos latifundiários do Sul do país de ampliar o território avançando pelas fronteiras de seus vizinhos. William Foster, estudioso da história política do continente americano, diz que o próprio nome do país — Estados Unidos da América — expressa suas pretensões panamericanas. Já no começo do século XIX, a contradição entre os princípios humanitários e democráticos proclamados pela Declaração de Independência e a política exterior do jovem Estado levou à renúncia das suas tradições libertárias. A doutrina do direito natural de todos os povos decidirem seu próprio destino — um dos fundamentos da Declaração de Independência — passou a ser interpretada de modo a justificar como “natural” o expansionismo norte-americano. Para os dirigentes dos Estados Unidos, essa doutrina dava ao país o direito de encarar o continente como sua área de influência direta. Colônias sul-americanas Com esse argumento, a princípio os presidentes Thomas Jefferson e John Adams “compraram” a Luisiana — que pertencia à França — e ocuparam a Flórida — que pertencia à Espanha. Depois, no dia 2 de dezembro de 1823, com a mensagem do presidente James Monroe ao Congresso, foi proclamada a famosa “Doutrina Monroe” — que expressa sem ambiguidades as pretensões norte-americanas à hegemonia em todo o hemisfério ocidental. Monroe não foi efetivamente o pai da criança — antes dele, todos os presidentes haviam trabalhado para moldar aquela ordem. A mensagem do presidente foi a consequência de um movimento na Europa — envolvendo Inglaterra, França e Espanha — que pretendia “pacificar” as colônias sublevadas na América do Sul. A França enviou o seu exército à Espanha para repor no trono Fernando VII, monarca espanhol deposto por uma onda revolucionária, e despertou a reação da Inglaterra. As colônias sul-americanas sublevadas estavam dentro do círculo comercial inglês e a França havia prometido devolvê-las à Espanha. O êxito francês significaria a automática conquista do direito de comércio na região. A Inglaterra, então, propôs aos Estados Unidos uma união para travar as pretensões francesas e sugeriu que o acordo fosse selado por uma declaração conjunta baseada no poderio marítimo dos dois países anglo-saxônicos. Declaração conjunta Quando Monroe tomou conhecimento da proposta inglesa, imediatamente consultou os ex-presidentes Thomas Jefferson e Jacobo Madison — e recebeu o conselho de aceitar o plano da Inglaterra, mas com uma modificação. Jefferson disse que o assunto era da mesma magnitude da Ata da Independência dos Estados Unidos. “Aquela nos fez uma nação, esta fixa na nossa bússola a rota a seguir através do oceano do tempo que se abre perante nós”, disse ele. “A América, tanto no Norte como no Sul, tem um conjunto de interesses diferentes dos da Europa e que lhe são muito próprios.” A proposta da Inglaterra foi aceita, mas a declaração conjunta, recusada. Assim, no dia 2 de dezembro de 1823 o mundo conheceu a mensagem de Monroe e soube que os Estados Unidos haviam deixado a Inglaterra de lado e tomado a decisão de determinar os destinos dos povos da América. Em vez de dar a mão para a Inglaterra, os Estados Unidos deram um pontapé na Europa. De mãos livres, se apoderaram dos territórios que estavam em seus planos — como Cuba e Porto Rico —, iniciaram a monopolização do comércio na região e começaram a exportação maciça de seus capitais para os países que se tornaram independentes. Desde então, a propaganda expansionista invocou esses princípios para justificar as ações políticas e militares extraterritoriais dos Estados Unidos. Para os meios de comunicação fortemente vinculados ao poder econômico, os norte-americanos têm o dever natural e sagrado de levar as suas tradições “liberais” e “democráticas” aos povos “incultos” do resto do mundo. Por mais simplista e racista que esse pensamento possa parecer, ele é abertamente proclamado no país desde a instauração do chamado Destino Manifesto — uma “teoria” que surgiu e se difundiu nos Estados Unidos na metade do século XIX, segundo a qual os norte-americanos nasceram para ser o melhor povo do mundo. Anticomunismo sem escrúpulo É muito forte a influência da religião nessa “teoria”, um destino que teria sido profetizado pela “providência divina”. O ex-presidente George W. Bush, por exemplo, levava ao pé da letra a frase “In God we trust (Em Deus nós confiamos)” impressa nas notas do dólar. Quando ele era presidente, as reuniões ministeriais na Casa Branca começavam com orações; frases bíblicas sempre apareciam em seus discursos. Em sua gestão, Bush propôs a canalização de recursos sociais para entidades religiosas, a autorização de preces e sermões em escolas públicas, o subsídio a faculdades geridas por grupos religiosos e o financiamento do trabalho de entidades religiosas em presídios — uma ofensiva jamais feita, apesar da tradição religiosa do país, contra a separação entre igreja e Estado, um dos princípios basilares consagrado na Primeira Emenda à Constituição. O ex-presidente norte-americano certamente não era refém da fé e pode-se dizer que a rigor ele tomava o nome de Deus em vão. Por trás de sua política estavam os interesses de uma parcela significativa da economia que lidera o mundo. A ideologia do Destino Manifesto age como um poderoso elemento mobilizador da energia do país para a conquista de novos territórios. Ao longo da história, ela foi um verdadeiro elixir do expansionismo e do intervencionismo norte-americano. No século XX, particularmente na sua segunda metade, essa ideia, traduzida em anticomunismo sem escrúpulo, permeou a propaganda do regime norte-americano, marcada pela Doutrina Truman com seus aparatos financeiros dos tratados de Bretton Woods e seu braço armado, a Organização do Tratado do âtlântico Norte (Otan), proclamada pelo então presidente Harry Truman sob as cinzas da Segunda Guerra Mundial. E isso explica a visão dominante no país de que o restante do planeta — sobretudo o chamado Terceiro Mundo — é cultura e economicamente subdesenvolvido. Essa propaganda ganhou, evidentemente, novos contornos desde a queda do muro de Berlim, mas sua essência permanece a mesma e constitui, basicamente, em levar a “democracia” aos países que recusam a cartilha de Washington e em “ensinar” os “segredos” da boa gestão econômica. O aparato de propaganda norte-americano, por exemplo, contra todas as evidências diz que a presença dos Estados Unidos em países invadidos ou sob sua vigilância — como a Ucrânia — tem missão modernizadora e libertária. Mesmo quando os fatos insistem em desmenti-lo, nas entrelinhas essa ideia é largamente difundida. Democracia mundial A reprodução acrítica dessa prática pela mídia brasileira é bem conhecida, como seu viu na recente visita do presidente Nicolás Maduro. Ignoram o princípio básico da soberania dos povos — caberia ao povo venezuelano, se fosse o caso, reunir forças para derrocar o seu governo, como já fizeram outros povos, inclusive o brasileiro —, pilar da democracia mundial. Tampouco o direito internacional, descaradamente golpeado. Foi assim com o golpe militar pró-Estados Unidos de 1964 no Brasil. E com os movimentos congêneres que se alastraram pela região nos anos 1950-1960-1970. E etc. A política externa do regime de Washington segue a lógica de que a economia norte-americana depende das imensas riquezas da América Latina. Logo, seus destinos políticos devem ser controlados pelos interesses econômicos dos Estados Unidos. A “Doutrina Monroe” ainda é um punhal cravado nas entranhas dos nossos povos. De George Washington até Joe Baden, os 46 presidentes que passaram pela Casa Branca não mudaram a essência expansionista da política externa dos Estados Unidos. Hoje, com o agravamento da crise estrutural da economia norte-americana decorrente dos seus monumentais déficits comercial e orçamentário, recrudesce a lógica da “Doutrina Monroe”. Embora sem perder a hegemonia, no século passado — principalmente após a Segunda Guerra Mundial — os Estados Unidos travaram uma dura disputa comercial com a Europa e o Japão. Agora, diante da formação de megablocos comerciais relativamente sólidos — particularmente a União Europeia —, o controle de sua área de influência não pode correr o menor risco de enfraquecer. O seu domínio político e econômico, portanto, precisa de amarras jurídicas mais firmes para enfrentar as recorrentes tentativas de insurgência na região e fechar os espaços para eventuais investidas de outros blocos comerciais. Obra de Lênin Esse foi o sentido político da proposta da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), derrotada pela ascensão de governos progressistas na região, iniciada com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, em 1998. O sempre atual diagnóstico de Vladimir Lênin, o líder da Revolução Russa de 1917, no Capítulo X da obra Imperialismo – Fase Superior do Capitalismo, intitulado O lugar do imperialismo na história, diz que o imperialismo é, pela sua essência econômica, o capitalismo monopolista. Ele pode ser aplicado inteiramente à atual situação. Além de outras características, Lênin afirmou que os monopólios agudizam a luta pela conquista das mais importantes fontes de matérias-primas. “A posse monopolista das fontes mais importantes de matérias-primas aumentou enormemente o poderio do grande capital e agudizou as contradições entre a indústria cartelizada e a não cartelizada”, escreveu ele. “Aos numerosos ‘velhos’ motivos da política colonial, o capital financeiro acrescentou a luta pelas fontes de matérias-primas, pela exportação de capitais, pelas ‘esferas de influência’, isto é, as esferas de transações lucrativas, de concessões, de lucros monopolistas, etc., e, finalmente, pelo território econômico em geral”, acrescentou. Outra importante constatação de Lênin é que da tendência dos monopólios para a dominação em vez da tendência para a liberdade, da exploração de um número cada vez maior de nações pequenas ou fracas por um punhado de nações riquíssimas ou muito fortes, originaram os traços distintivos do imperialismo. “Esse capital financeiro que cresceu com uma rapidez tão extraordinária, precisamente porque cresceu desse modo não tem qualquer inconveniente em se apossar das colônias — as quais devem ser conquistadas não só por meios pacíficos pelas nações mais ricas”, escreveu ele. “A comparação, por exemplo, entre a burguesia republicana norte-americana e a burguesia monárquica japonesa ou alemã mostra que as maiores diferenças políticas se atenuam ao máximo na época do imperialismo. E não porque essa diferença não seja importante em geral, mas porque em todos esses casos se trata de uma burguesia com traços definidos de parasitismo”, acrescentou. Poderio militar A radiografia é perfeita para se entender o atual estágio da economia norte-americana. De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), caso se mantenha o consumo médio das duas últimas décadas as atuais reservas mundiais de petróleo devem exaurir-se antes de 100 anos. Os Estados Unidos, maiores consumidores do mundo, responsáveis todos os anos pela combustão de 30% do petróleo extraído no planeta, sabem que essa limitação é crítica para a sua hegemonia. Assim, ao mesmo tempo em que gastam fortunas no desenvolvimento de alternativas energéticas — como as células de hidrogênio, por exemplo —, procuram assegurar-se de suprimentos que permitam ao país atravessar as próximas décadas. Para tanto, pretendem explorar até jazidas localizadas em áreas protegidas como reserva ambiental, no Alasca. É evidente que uma economia com essas características, com o peso de um Produto Interno Bruto (PIB) que rompe a barreira dos US$ 8 trilhões, não tem como conviver com a paralisia das engrenagens que lhe são peculiares. A disparidade de poder — sobretudo militar — entre os Estados Unidos e os demais países também deve ser considerada nessa equação. Seu histórico é um bom guia para se entender o que isso significa. Tensões abafadas Sob a proteção do guarda-chuva nuclear norte-americano, esteio da Guerra Fria, as demais potências capitalistas se desenvolveram num ambiente sem guerras entre elas. A economia japonesa, umbilicalmente ligada à economia norte-americana, floresceu. E a Europa Ocidental evoluiu ao ponto de construir uma entidade supranacional, a União Europeia. Os grandes conflitos mundiais estavam sujeito ao direito internacional. Assim, nuitas tensões antes abafadas pelo jogo internacional afloraram e foram reduzidas à pura expressão militar. Novos inimigos, reais ou forjados, entraram em cena e passaram a ser considerados pela estratégia expansionista como alvos — destacadamente as nações e regimes que não rezam pela cartilha de Washington. No âmbito imperialista, esse quadro foi construindo uma tática belicosa fundada basicamente num imaginário “choque de civilizações” — ideia expressa por Samuel Huntington em seu livro homônimo. Segundo o autor, a conjunção da “civilização confuciana com a islâmica” seria, hoje, a maior ameaça ao ocidente. O corte é mais econômico do que geográfico. Na verdade, a relação do ocidente com o oriente é uma das formas clássicas de entender a configuração mundial moldada por duas guerras mundiais — e algumas guerras locais — ao longo do século XX. Mais do que projeções geográficas e culturais, esse modo de ver o planeta é corroborado pela análise econômica. A economia capitalista asiática, umbilicalmente ligada à economia norte-americana, tem um crédito monumental em títulos do Tesouro dos Estados Unidos — recursos que financiam os gigantescos déficits do império. Foi o repatriamento de uma parte dessas aplicações que provocou a “crise asiática” do final dos anos 1990. Com a ofensiva da “globalização”, aquelas nações externamente vulneráveis, dependentes de mercados e de fontes de matérias-primas externos, beijaram a lona. O Japão, que enfrenta uma longa crise, é o país da região com maiores dificuldades para se levantar. Para complicar mais ainda o cenário japonês, há em seu flanco a pujante economia chinesa — que ocupou em larga medida o seu mercado mundial. Esse quadro tem tudo a ver com a dinâmica da especulação financeira internacional. A “bolha especulativa” chegou ao seu limite com o esgotamento da capacidade mundial de financiamento do alucinado endividamento público norte-americano pelo agravamento da crise de seus principais financiadores. Assim, os Estados Unidos também passaram a enfrentar o problema da vulnerabilidade externa. E o tombo da economia norte-americana, que inevitavelmente levaria as demais economias à bancarrota, passou a assombrar o mundo. Aparelhos ideológicos No pós-Segunda Guerra Mundial, o regime norte-americano fincou suas bandeiras no oriente porque era real a possibilidade de o continente asiático seguir por um caminho próprio. Coréia e China são exemplos nesse sentido. Com seu feixe de tradições preservado, a China, por exemplo, inventou o seu próprio modelo de desenvolvimento, seu próprio estilo de fazer a roda da economia girar. De quebra, o país tem sido hábil em adaptar-se às transformações do ambiente em que atua, em absorver, mesmo que de projetos rivais e teorias adversárias, aquilo que é fundamental ao seu desenvolvimento. Essa flexibilidade inteligente é um dos aspectos mais notáveis do sistema chinês. Aquele país tem grande interesse na disposição das peças políticas no tabuleiro mundial — assim como a Rússia. Essa contradição talvez seja o maior ponto de interrogação que se forma com a decisão dos brutamontes de Washington de forçar um atalho na busca de uma estratégia que responda à desesperadora necessidade de uma saída para a crise econômica norte-americana. Esses fatos demonstram que é falso o argumento dos aparelhos ideológicos do regime de que as armas norte-americanas têm um sentido defensivo, uma função política de balanço de forças. Quando se vira a moeda, a sua outra face revela que o belicismo está mais perto do que se imagina. Além do conflito na Ucrânia, sob o ardiloso pretexto de combate ao narcotráfico e ao terrorismo o Pentágono segue apregoando aos quatro ventos que entre os alvos de sua doutrina de atacar primeiro estão organizações políticas e países da América Latina. Chama a atenção, nesse sentido, a proliferação de bases militares norte-americanas na região e a formação de equipes especializadas para responder pelos assuntos latino-americanos, encarregadas do roteiro de hostilidades a Cuba e a Venezuela — e a quem os apoia.

Caetano Veloso um camaleão da música universal,

Caetano Veloso é uma das figuras mais emblemáticas e influentes da cultura brasileira. Nascido em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em ...