quinta-feira, 13 de março de 2025
A luta pela redução da jornada de trabalho
“A experiência demonstra que a diminuição das horas de trabalho – evitando a fadiga – não acarreta prejuízo. O interesse dos patrões deveria contribuir para o estabelecimento de novas regras do trabalho”.
Evaristo de Moraes, Apontamento do direito operário, 1905
“… a produtividade do trabalho não é, em absoluto, assunto que incumba ao trabalhador”
Marx, O Capital, Tomo I
“…o verdadeiro reino da liberdade que, não obstante, somente pode florescer sobre aquele reino da necessidade como sua base. A redução da jornada de trabalho é a condição básica”
Marx, O Capital, tomo III
A característica dominante na luta de classes no Brasil é a ausência do movimento de massas. Com certa frequência, o reconhecimento do fenômeno é utilizado para justificar a orientação assumida pelos governos da esquerda liberal (governo petucano) e, não raro, também uma via rápida para responsabilizar as massas por sua própria miséria e exploração na mesma medida em que exime Lula e seu governo pela paralisia político-ideológica decorrente da antiga adesão ao programa da classe dominante.
Ademais, as organizações sindicais e partidos políticos carecem de um programa de ação, que somente pode ganhar consistência e força como resultado da experiência de lutas dos próprios trabalhadores capazes de assegurar a independência política diante dos governos e do Estado. De resto, enquanto a fragmentação identitária tem sido um obstáculo importante, até o momento, para a realização da totalização das lutas no interior da esquerda liberal, somente a direita apresenta uma utopia reacionária como promessa de futuro para as maiorias.
É nesse contexto que a emergência de um “movimento” chamado VAT (Vida para além do trabalho) despertou certa atenção, que, de outra maneira e em outras épocas, seria tomado sem dúvida alguma apenas como mais um protesto desesperado de um trabalhador submetido ao tacão de ferro dos capitalistas. Com efeito, somente boa dose de generosidade e outra não menor de indigência poderia considerar o VAT um movimento real da classe trabalhadora. Não há desprezo na afirmação, posto que o VAT, antes de se firmar como movimento real, foi logo canalizado para seu curso natural diante das circunstâncias atuais: a representação parlamentar no âmbito municipal. O precursor do protesto que passou a ser designado com VAT – Rick Azevedo – é agora vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro eleito com mais de 29 mil votos.
Em consequência, tampouco surpreende que uma deputada do PSOL – Erikca Hilton – no embalo das redes digitais, logo transformasse o protesto solitário e desesperado de um trabalhador confinado numa farmácia em projeto de lei que, há pouco, logrou o número de assinaturas para começar a tramitar na Câmara federal a proposta de redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais. O entusiasmo de distintas organizações sociais e sobretudo da concepção parlamentar de política é imenso e, a julgar pelo ambiente digital, o protesto realizado no dia 15 de novembro anunciado como o início da retomada das ações de massas, nas versões mais delirantes, autorizariam supor que, em breve, e com algum esforço militante estaríamos próximos de uma virada na correlação de forças atualmente sob comando da direita liberal. O entusiasmo digital é, de fato, imenso! Entretanto, funcionará nas ruas? O 15 de novembro provou aos iniciados que estamos longe de construir uma plataforma de lutas da classe trabalhadora e menos ainda de superar a concepção liberal de política dominante nos partidos da esquerda liberal. A propósito, no momento em que escrevo essa nota, há um silencio profundo sobre o completo esvaziamento da atividade de 15 de novembro, mas, não tenho dúvidas, logo surgiram avaliações positivas sobre “o primeiro ato” de uma longa caminhada…
Tampouco podem existir dúvidas sobre o apoio dos trabalhadores a qualquer iniciativa destinada à redução da jornada de trabalho. Todos os socialistas, comunistas e revolucionários devem apoiar qualquer projeto parlamentar destinado à redução da jornada de trabalho. Mas é igualmente uma obrigação dos socialistas, comunistas e revolucionários observar e analisar o contexto e as consequências de semelhante iniciativa, sobretudo quando está marcada pela origem parlamentar da proposta e conta com o ingênuo entusiasmo e a alienação inerentes ao “ativismo” midiático das redes digitais. Com efeito, já existem dezenas de propostas que favorecem os trabalhadores nas gavetas do parlamento (de deputados ativos ou não) que, quando consideradas, poderiam produzir o paraíso mesmo nas condições do sistema capitalista e, mais ainda, na periferia latino-americana.
O governo Lula/Alckmin não possui qualquer iniciativa para mitigar o sofrimento dos trabalhadores. A Reforma Trabalhista anunciada em campanha como objeto de revogação ou revisão goza de boa saúde e nem em sonhos dourados o governo cogita rever qualquer uma de suas cláusulas. Acrescente-se a isso o fato de que, no momento, o governo petucano (Lula/Alckimin) sofre acentuado desgaste que até mesmo as pesquisas de opinião assinalam. Entretanto, não são necessárias as pesquisas para avaliar a grave situação do país e a debilidade do governo atual. A força da crise encontra um governo de tal forma dócil ao capital, que torna inútil a repetição maçante e impotente das políticas sociais ademais, obrigando o governo da esquerda liberal a arrochar a classe trabalhadora em favor da coesão burguesa que dirige o país desde 1994.
Há dias, a esquerda liberal aguarda com angústia o anúncio de um “pacote econômico” destinado a cortar gastos sociais e precarizar ainda mais as condições de vida dos trabalhadores. Nesse contexto, as redes digitais da esquerda liberal explodiram em apoio ao VAT e rapidamente unificaram a data de 15 de novembro para uma manifestação em favor da aprovação da PEC na vã tentativa de mudar o foco da atenção pública e retomar a iniciativa política.
O melhor dos mundos possíveis
A exemplo de quase tudo que ocorre no país, o VAT não tem nacionalidade brasileira. A própria deputada Erika Hilton escreve na sustentação da proposta:
“No Brasil, o programa piloto de implementação de jornada de 4 dias começou a ser realizado pela Reconnect Happiness at Work em parceria com a 4 Day Week Global e Boston College, e teve seu início em setembro de 2023. Cerca de 22 empresas com até 250 colaboradores aderiram à iniciativa, em que os resultados do projeto no país, apresentam projeções importantes para a transição das jornadas de trabalho para o modelo de 4 dias, em que é possível observar menor número de faltas dos empregados e produtividade em alta, em razão da adoção de estratégias de organizações funcionais para o modelo da empresa”.
A reconciliação entre trabalho e a felicidade (reconnect happiness at work) não deixa de ser boa nova tanto nos países centrais quando na periferia do capitalismo, uma vez que, aqui, o processo de acumulação de capital se sustenta na superexploração da força de trabalho. No Brasil – como na Alemanha – a adesão a semelhante programa é voluntária sem, portanto, obrigatoriedade na lei! Na maioria dos casos, a redução da jornada de trabalho foi produto de duras negociações entre sindicatos e empresas, ainda que reguladas pela legislação do trabalho e não fruto de ativismo midiático, regado a interesses eleitoreiros.
Entre nós, a luta pela redução da jornada de trabalho sempre esteve presente nos partidos de esquerda e nos sindicatos. Contudo, sua implementação depende, obviamente, dos ciclos de acumulação do capital que, como sabemos, alternam períodos de bonança com outros recessivos. Em tempos de crise, é normal que propostas semelhantes apareçam como a salvação da lavoura e não raro, os trabalhadores lançam mão de semelhantes propostas mesmo quando implicam simultânea redução salarial.
Na Alemanha, em 2017, o poderoso IG Metall, que representa a indústria metalúrgica e de engenharia com 3,9 milhões de associados e alcance em empresas tão importantes como Daimler, Bosch, Porsche, Audi, BMW entre outras, propôs a redução da jornada para 28 horas semanais distribuídas em 4 dias e sem redução salarial. Válida por 27 meses, a proposta cobre aproximadamente 900 mil trabalhadores. As negociações se arrastaram em meio a muitas greves e paralisações de advertência especialmente importantes nos Estados da Baviera e Baden-Wrttemberg, no sul da Alemanha, responsáveis por prejuízos de até 200 milhões de euros às empresas. Assim, em meio a forte combate, a categoria conseguiu um aumento da massa salarial de 4,3%, ante a reivindicação de 6%, e a redução da jornada de trabalho semanal de 35 para 28 horas. Portanto, o acordo posterior até hoje celebrado como uma conquista foi fruto de lutas no chão da fábrica. A jornada de trabalho na Alemanha está regulada em lei nas 35 horas semanais.
Naquele período (2017), a economia da Alemanha apresentava taxa de crescimento positiva e as exportações exibiam sucessivos superávits. Na prática, há muitos anos, a Alemanha apoiada no poder do euro e sua considerável base industrial, transformou-se numa máquina de exportação junto com Estados Unidos e China. Portanto, no momento favorável à acumulação de capital – mesmo considerando um período caracterizado como “de crescimento lento” por analistas de distintas orientações teóricas – os sindicatos atuaram na busca de melhores acordos com greves e paralisações que revelaram a força dos trabalhadores na busca também concentrada na reivindicação de reajuste e participação nos lucros. Nós sabemos que naquele país existe um sindicalismo integrado à ordem burguesa, mas capaz de buscar seu quinhão diante da crescente acumulação de capital. Na atualidade, a adesão à redução da jornada alcança principalmente empresas menores – entre 10 e 250 trabalhadores – que, em função da crise, lançam mão da redução da jornada em acordos variados que nem sempre se sustentam ao longo do tempo. Na periferia capitalista, ao contrário dos países centrais, o azul é sempre mais escuro. Em consequência, a resistência capitalista é ainda mais ferrenha, pois o fundamento da acumulação é a superexploração da força de trabalho que sempre foi considerada – e seguirá sendo – uma lei de bronze que ninguém poderá violar.
Na periferia capitalista
No Brasil, a redução da jornada de 48 para 44 horas semanais ocorreu na elaboração da Constituição de 1988, no início do regime liberal burguês que sucedeu a ditadura militar. A despeito de graves limitações políticas, o sindicalismo mantinha certa força nas reinvindicações de extração econômica, sobretudo porque as taxas de inflação eram elevadíssimas (hiperinflação) e não raro alcançavam 3 dígitos! Nesse contexto, as greves se sucediam como decorrência direita da luta entre preços e salários no interior das quais a politização dos trabalhadores ocorria mesmo sob o controle político ideológico dos líderes sindicais com Lula e suas conexões na Europa e Estados Unidos.
Ao longo do tempo, especialmente após a implementação do Plano Real, as condições de luta em tempos de inflação baixa mudaram radicalmente. As greves inerentes ao período da corrida entre preços e salários dependiam de outros fatores e não foram poucos aqueles sindicatos que começaram a cobrar ganhos de produtividade nas negociações entre patrões e empregados. Mas ainda assim, em pouquíssimos casos, a pauta de reivindicações incluiu a redução da jornada de trabalho. Os sucessivos governos do PT durante longos 14 anos (Lula e Dilma), jamais ousaram sequer discutir um pacto entre capitalistas e trabalhadores inclusive quando as taxas de desemprego eram indiscutivelmente baixas e o ciclo da acumulação favoreceria os sindicatos, se a iniciativa do governo existisse. A razão para a omissão tanto dos sindicatos (especialmente a CUT), quanto dos governos petistas é conhecida: nada contra a burguesia!
No chão da fábrica e na solidão política, os trabalhadores amargam não apenas jornadas de 44 horas semanais, mas, inclusive, em não poucos casos, acima do limite legal. Aqui, na periferia capitalista, o mundo real conspira contra a lei, razão pela qual a violação da legislação trabalhista adquire feições particulares nada desprezíveis.
Em abril de 2010, por exemplo, o DIEESE informava que “ao se analisar os dados da PED (Pesquisa de Emprego e Desemprego – DIEESE/SEADE) observa-se que, em 2009, 36,1% dos assalariados trabalham mais do que a jornada legal de 44 horas. Esta realidade explicita que, no caso do Brasil, a hora extra perdeu a característica de ser uma hora a ser realizada em momentos excepcionais, passando a ter um caráter de hora ordinária”. Na prática, a hora extara é uma forma de prolongamento da jornada de trabalho e, portanto, de extração de mais valia absoluta, mesmo quando os capitalistas pagam valores monetários superiores àqueles da hora regular.
Dados recentes do Tribunal Superior do Trabalho (TST) informam que o tema “hora extra” foi o mais recorrente em novas ações na Justiça do Trabalho de janeiro a julho de 2023, somando mais de 288 mil processos em todo o país. Entre as demandas, estão questões como “não pagamento das horas extras realizadas, falta de registro da jornada de trabalho, supressão das horas extras habituais, integração das horas extras em outras verbas salariais e invalidade dos cartões de ponto em razão de horários uniformes”. Ao contrário da luta pela redução da jornada de trabalho, nas condições atuais, parcela importante dos trabalhadores não possuem outro recurso senão a … ampliação da jornada de trabalho!
Há, além disso um dado relevante que o cretinismo parlamentar em voga ignora e a militância virtual também. O IBGE informa que “em 2023, dos 100,7 milhões de ocupados do país, 8,4% (8,4 milhões de pessoas) eram associados a sindicatos. Esse foi o menor contingente e o menor percentual da série iniciada em 2012, quando havia 14,4 milhões de trabalhadores sindicalizados (16,1%)”. A velocidade da queda não deixa de chamar atenção pois, segundo a mesma fonte, “na comparação com o ano anterior, houve queda de 7,8%, ou de 713 mil pessoas. Em 2022, eram 9,1 milhões de sindicalizados, 9,2% do total de ocupados”. Ora, o fenômeno alcança todos os setores e “em relação a 2012, as maiores quedas na taxa de sindicalização foram nos grupamentos de transporte, armazenagem e correio, com -12,9 p.p. (passando de 20,7% para 7,8%), indústria geral, com -11,0 p.p. (de 21,3% para 10,3%) e administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais, com -10,1 p.p. (de 24,5% para 14,4%)”.
A reforma trabalhista de Michel Temer (Lei 13.647/2017) representou um grave e inédito ataque contra a CLT. A lei foi promulgada em julho de 2017 numa conjuntura marcada pela ofensiva burguesa contra os trabalhadores que jamais foi interrompida pelo governo atual a despeito das promessas de campanha. E, não custa lembrar, os capitalistas contam com a enérgica e sistemática ação do STF, que não cansa de decidir contra os trabalhadores e suas conquistas históricas. Em 11 de setembro passado, por exemplo, o ministro Cristiano Zanin pediu vistas do processo sobre o trabalho intermitente em análise naquela corte, que já conta com 4 votos favoráveis e três contrários. Em caso de aprovação seria outro duro golpe nos direitos elementares dos trabalhadores no contexto da reforma de Temer e uma via rápida para o aprofundamento da superexploração da força de trabalho, fundamento do capitalismo dependente rentístico.
Quando a redução da jornada entrou nas negociações permitida pela Medida Provisória 936/2020, posteriormente sancionada como Lei nº 14.020, de 06 de julho de 2020, previa de maneira clara a redução dos salários no âmbito do “Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda diante dos impactos da Covid-19”, que assegurava elevada taxa de lucros aos capitalistas e passava o prejuízo para os trabalhadores. A medida era uma proteção da taxa de lucro e, naquele contexto, os trabalhadores não possuíam forças suficientes para se proteger da ofensiva do capital contra o trabalho. Portanto, é compreensível que uma PEC destinada à redução da jornada de trabalho desperte aprovação de milhões de trabalhadores e, de fato, mais de 2 milhões de brasileiros assinam a iniciativa parlamentar. Tampouco causa surpresa que a PEC tenha granjeado um número aparentemente surpreendente de assinaturas de deputados e senadores com direito a discursos em defesa da medida até mesmo por parlamentares de direita, que, na tribuna do covil de ladrões, defenderam sua imediata aprovação. A propósito, Cleiton de Azevedo, o senador Cleitinho (Republicanos/MG), fez um discurso tão radical em defesa da medida, que, aos desavisados, poderia parecer que se trata de esquerdista radical. Contudo, essa simpatia automática necessita ultrapassar a simples adesão midiática e transformar-se num momento real.
No setor de serviços (supermercados, farmácias, restaurantes, shopping e call centers, etc), existe um imenso proletariado submetido a jornadas de trabalho exaustivas e salários baixíssimos, que conta com o silêncio cúmplice do governo petucano e baixo nível de sindicalização. Até hoje, o governo não mexeu uma molécula para enfrentar a superexploração da força de trabalho e se limita tão somente à repetição enfadonha das antigas políticas sociais, incapazes de sequer mitigar o sofrimento das massas. A propósito, os programas sociais antes de redimir ou mesmo mitigar o sofrimento tornam-se, na prática, um pilar da superexploração da força de trabalho na forma de filantropia.
Dessa forma, no setor de serviços, a rotatividade da força de trabalho é igualmente intensa, superior a qualquer outro país do mundo capitalista. Eis as condições materiais que tornam toda medida destinada a enfrentar a superexploração da força de trabalho popular dócil aos patrões e incapaz de qualquer mobilização em favor dos trabalhadores sobretudo quando os sindicatos do setor de serviços estão dominados pela burocracia e priorização do enfrentamento jurídico em detrimento das ruas.
A descoberta da pólvora
Rick Azevedo – o festejado vereador do PSOL carioca – lançou o VAT num ato de solitário protesto. Não se trata, obviamente, de um movimento, mas de um recurso midiático com adesão exclusivamente eletrônica e que, portanto, não está isento de graves limitações. A mais eloquente evidência da situação se deve ao fato de que o vereador solicitou registro da marca (VAT) no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (!!) como uma forma de manter sob controle seus seguidores e, ao mesmo tempo, autorizar a eventual ampliação sob seu exclusivo comando.
Em setembro passado – portanto antes do ativismo eletrônico da semana passada – a Organização Comunista Internacionalista (OCI) publicou em sua página importante denúncia sobre a ofensiva do agora vereador Rick Azevedo, autor do VAT contra aqueles que queriam somar no movimento, dando-lhe não somente transparência, mas também organicidade e potência.
Qual era a suposta heresia proposta pela OCI?
Em 3 de setembro, a OCI solicitou um encontro nacional destinado a avançar na organização e massificação da luta e a resposta de Azevedo foi a expulsão de todos aqueles que endossaram a petição. Então candidato a vereador, Azevedo não poderia ter reação mais ilustrativa do caráter do VAT e notificou extrajudicialmente a OCI proibindo o uso da marca!
https://marxismo.org.br/sobre-as-acoes-de-rick-azevedo-e-demais-membros-da-coordenacao-do-vat-contra-a-oci/
Ora, a organização propunha um encontro nacional com tirada de delegados pela base em escala nacional destinado a massificação e maior representatividade do movimento.
https://marxismo.org.br/por-um-encontro-nacional-do-movimento-vat-com-delegados-eleitos-na-base/
A resposta do vereador foi uma rara combinação entre ação extra judicial contra a OCI acusando-a de “uso indevido do nome, marca e identidade do movimento VAT, bem como na tentativa de apropriação indevida de sua liderança e propósito, sem qualquer autorização ou consentimento”. Na verdade, Rick lançou um movimento que, diante das circunstâncias do mundo real, logo escolheu como objetivo a conquista de um mandato na câmera de vereadores do Rio de Janeiro e, em consequência, não poderia abri-lo para a participação de todos os trabalhadores e muito menos se submeter às instâncias que todo movimento real exige, especialmente quando o objetivo é a redução da jornada de trabalho. Entretanto, ninguém tem dúvidas que somente uma unidade política de todos os trabalhadores poderá arrancar dos capitalistas a redução da jornada de trabalho. Além do mais, como a experiência ensina, o papel do governo nunca será de mero expectador, mas, ao contrário, de ativo participante em favor da classe trabalhadora! Não é de surpreender que Rick Azevedo chegou a publicar nas redes que não admitiria bandeiras contra o atual governo como expressou com clareza em seu twitter. A despeito da inocência, é claro que as forças, partidos e parlamentares que foram às ruas no dia da proclamação da república estão na sua maioria comprometidos com a defesa do governo petucano diante do que chamam “ameaça fascista”. Em consequência, creem atuar como espírito crítico do governo petucano na vã esperança de que Lula abandone as leis inerentes à política econômica do rentismo e mais do que colocar os “pobres no orçamento” rompa com as regras que alimentam o Plano Real desde 1994, entre as quais o teto de gastos.
A esquerda virtual
Eis o segredo do ativismo midiático dos dias imediatamente anteriores à data nacional da proclamação da república: não foram poucos os ingênuos que consideraram a manifestação do interesse pela redução da jornada de trabalho no trending topics do Twitter e o número de “likes and views” como clara demonstração da virada na conjuntura, o inédito constrangimento da direita parlamentar incapaz de argumentar contra a PEC e inclusive, num arroubo delirante, indicar a eminente “virada do jogo político brasileiro” com a consequente retomada de um novo ciclo de lutas favorável a classe trabalhadora. Tudo a que assistimos no dia 15 de novembro foi uma demonstração contundente contra as pretensões de que o “mundo virtual” dirigia o “mundo real”, mas bastou o amanhecer do feriado republicano para observar o abissal contraste entre a expectativa exuberante das mídias e o esvaziamento das praças nas principais capitais do país. Com efeito, nenhum ato foi massivo! No Rio, talvez 3 mil pessoas na Cinelândia e em SP apenas um quarteirão. No Espírito Santo, gatos pingados não ultrapassaram o número de 300 pessoas. Em Floripa não mais do que 500 pessoas, em Pernambuco manifestação minguada e em Porto Alegre pra lá de modesto! Em muitas cidades o “ato” foi apenas simbólico. Em São Paulo, para dar um exemplo emblemático da natureza artificial da articulação, várias organizações que ajudaram na convocatória da manifestação sequer tiveram direito ao microfone. De fato, onde o VAT comanda, a ampliação não prospera.
No parlamento
No covil de ladrões não há surpresa! No parlamento, tanto parlamentares da esquerda quanto da direita liberal assinaram a PEC conscientes de que a proposta não tem a menor possibilidade de aprovação e caso avance em algum aspecto, será algo bem distante da proposta original. Observando iniciativas anteriores, alguém poderá ter dúvidas sobre os “acidentes” de seu trâmite? Nesse contexto, o PT assinou em massa na semana anterior as manifestações. Mas, na página do partido figurava o destaque de que as nobres deputadas assinaram a PEC sem menção aos homens! No PSOL, Boulos, convertido a linha lulista do “paz e amor”, jamais cogitou discutir o tema na última campanha eleitoral e, de fato, foi um dos últimos a assinar a iniciativa de sua colega de bancada. É um tempo duro para convicções…
O futuro da luta pela jornada de trabalho dependerá da capacidade de enfrentamento dos trabalhadores, todos sabemos. Portanto, não será fruto de eventual repercussão nas redes digitais, mas das contradições de classe próprias de nosso país. A esquerda identitária descobriu algo valioso na cartada recente: a classe, como expressão universal, tem lá sua força mesmo quando reivindicada por aqueles que expressam a soberania do eu de maneira permanente e não possuem qualquer compromisso com a revolução brasileira e o socialismo. O “debate” das redes digitais exibe não somente a pressa inerente ao meio técnico, a vocação parlamentar da esquerda (identitária ou não) mas, sobretudo, o completo desprezo pelas leis objetivas que governam o desenvolvimento capitalista na periferia latino-americana. Essa mesma esquerda liberal, treinada na estranha arte de insistir num caminho exaurido cuja expressão mais importante é o apoio ao governo petucano de Lula/Alckmin na persistente justificativa de que supostamente não temos outro horizonte possível, precisa despertar de sua letargia para tomar o céu de assalto.
Na prática, o ativismo midiático responsável pela tentativa de massificação da campanha pela superação do 6 x 1 tinha um objetivo inconfessável: salvar o governo petucano de Lula/Alckmin. O delírio segundo o qual os atos de 15 de novembro constituem uma “virada no jogo” político não passa de uma tentativa de oferecer um salvo conduto para um governo que em cada medida acentua a dependência, o subdesenvolvimento e a superexploração da força de trabalho. Contudo, a esquerda liberal não é capaz de romper com as ilusões e passar a fazer radical oposição de esquerda ao governo que administra a economia política do rentismo na mesma medida em que arrocha os trabalhadores. Nesse momento, Lula elabora um “programa de ajuste”, reivindicado pela classe dominante à luz do dia. Programa esse que não poupará os mais miseráveis entre os miseráveis. Em consequência, o desespero e angústia da esquerda liberal em manter a fidelidade ao governo e ao mesmo tempo defender os interesses imediatos dos trabalhadores chega, finalmente, ao seu término: não é possível servir a dois senhores!
Tudo indica que o “pacote” curtido em negociações com banqueiros, latifundiários, grandes comerciantes e industriais decadentes pode, no papel, tocar nos interesses marginais dos capitalistas, mas certamente cortará fundo em algumas leis e programas relativos aos trabalhadores. O “pacote” será enviado ao covil de ladrões e a maioria folgada que a classe dominante possui no parlamento se encarregará de dar a devida “racionalidade” às medidas, eliminando eventuais “exageros” contra a propriedade e os lucros e dividendos dos capitalistas. Assim, o governo petucano simula fazer justiça social e a esquerda liberal seguirá com a ladainha de que Lula não possui maioria para aprovar outro programa.
A conjuntura exige lucidez antes que simulação. Uma PEC ou o mais intenso ativismo midiático são incapazes de mudar a correlação de forças. O problema não pode ser resolvido por um passe de mágica e menos ainda pelo mais intenso ativismo midiático, mas somente no terreno que as maiorias já identificaram: o governo eleito para “barrar o neoliberalismo”, “derrotar o neofascismo” e inverter a correlação de forças diante da ofensiva burguesa acelera o programa econômico da própria burguesia e segue alimentando a mais profunda corrupção do sistema político. Portanto, não há no governo programa econômico alternativo e menos ainda uma tímida “reforma política” para salvar da podridão a república burguesa! O vale de lágrimas se configura eterno diante dos trabalhadores e o povo acumula sua ira de maneira silenciosa até que por um motivo qualquer, num momento indeterminado, se manifeste com a força dos vulcões, varrendo tudo e todos. Haverá, nesse momento, alguma organização política ou liderança com completa independência diante do governo capaz de ganhar a confiança das maiorias e abrir as portas da revolução brasileira?
Nildo Ouriques
Militante pela Revolução Brasileira
quarta-feira, 5 de março de 2025
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025
SP: servidor que pediu investigação sobre armadilhas da dengue é removido do cargo
Auditor foi realocado após reportagem da Pública sobre falhas nas armadilhas. Servidores relatam pressão interna
Um dia depois de a Agência Pública mostrar que a Controladoria-Geral do Município (CGM) de São Paulo iniciou uma sindicância para apurar se armadilhas contra a dengue compradas pela prefeitura podem ter aumentado o número de casos na capital, o servidor responsável pelo pedido de investigação foi removido de sua função.
O Diário Oficial do município de 12 de fevereiro registrou que Aldo Lúcio Santillo, auditor municipal de Controle Interno, foi removido da Corregedoria-Geral do Município e realocado na Coordenadoria de Promoção da Integridade e Boas Práticas, um setor interno da CGM que não atua diretamente com sindicâncias.
A CGM é o órgão que apura possíveis casos de corrupção na gestão municipal, e Santillo foi o servidor responsável por analisar as suspeitas de irregularidades na compra das armadilhas, que vêm sendo reveladas pela Pública desde o ano passado.
Em dezembro de 2024, a CGM recebeu o prazo de 30 dias para informar ao Ministério Público (MP) de São Paulo se tomou providências sobre as suspeitas, que já haviam se tornado alvo de investigação na promotoria desde janeiro.
De acordo com servidores da CGM ouvidos pela reportagem em condição de anonimato, Santillo fez uma pré-apuração, encontrou materialidade nas denúncias e recomendou que elas fossem analisadas com mais profundidade em uma sindicância. Ele concluiu o parecer em 20 de dezembro. Nos dias seguintes, seus argumentos receberam aval do setor jurídico da CGM, da Corregedoria-Geral e, por fim, do controlador-geral do município, Daniel Falcão, em 22 de janeiro – o pontapé inicial para a investigação.
A Pública apurou com servidores que houve pressão interna para que o auditor fosse penalizado, depois da publicação da reportagem. Segundo as pessoas ouvidas, o prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP) teria ficado incomodado com o vazamento da sindicância para a imprensa.
Santillo foi procurado, mas não quis comentar. Seus colegas o descreveram como um servidor profissional e imparcial.
“A sindicância vai seguir, mas uma pressão dessas vindo pela chefia vai acabar impedindo uma apuração mais correta”, disse uma das pessoas ouvidas. “Acho que a atuação da Controladoria deveria ser o mais independente possível, e não é o que está ocorrendo”, completou.
Em nota, a CGM não confirmou se as investigações terão continuidade, mas informou que a movimentação do servidor foi “uma ação administrativa de rotina, visando melhor organização dos trabalhos”. “A Coordenadoria de Promoção da Integridade e Boas Práticas [para onde Santillo foi realocado] é uma área fundamental para a CGM e tem como principal atribuição promover a transparência pública e fomentar a participação da sociedade civil na prevenção da corrupção”, diz o texto.
Também em nota, a Secretaria de Saúde refutou que as armadilhas contra a dengue seriam ineficazes. O órgão disse que teria havido uma redução de cerca de 20% nos casos de dengue em áreas com as armadilhas se comparadas a outros territórios com características similares. Em 2025, ainda segundo o município, a queda teria sido de 32,6% nos primeiros 42 dias do ano. A secretaria, no entanto, não explicou como fez a medição dos números, quais foram as áreas analisadas e os critérios usados para comparação. A reportagem pediu duas vezes para ter acesso à íntegra dos dados, mas isso não ocorreu até a publicação desta reportagem.
Falhas nas armadilhas podem ter levado a aumento de mortes
De acordo com o relatório da CGM, o fato mais grave foi a falta de manutenção nas armadilhas, que deveria ocorrer a cada quatro semanas, segundo o fabricante, ou no máximo a cada três meses, de acordo com a Secretaria de Saúde. Mas dados da mesma secretaria mostram que a manutenção só aconteceu, em média, a cada sete meses – quando o veneno que deveria matar o mosquito da dengue já estava vencido há bastante tempo.
Com isso, as armadilhas, que deveriam contaminar os insetos e matar suas larvas, podem ter se tornado criadouros e aumentado a sua proliferação. O ano de 2024 foi o mais mortífero em casos de dengue na capital. Foram 522 óbitos no período, um aumento de mais de 5.000% em relação ao ano anterior – e muito superior a todos os outros da série histórica, que começa em 2007.
O esperado é que 2025 seja mais um ano epidêmico. Até o momento, houve uma morte confirmada no município, de uma menina de 11 anos. Ela não havia tomado a vacina, disponível para crianças de 10 a 14 anos em 1.932 municípios, entre eles São Paulo.
Vereador quer CPI sobre armadilhas da dengue em SP
O vereador Toninho Vespoli (PSOL) protocolou no último dia 14 um pedido para abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar “se as armadilhas contra o mosquito da dengue, em vez de combater sua proliferação, acabaram agravando a epidemia na cidade, uma vez que possível ineficácia dessas armadilhas pode ter exposto a população ao aumento expressivo de casos de dengue, colocando em risco a saúde pública e a integridade dos cidadãos”.
O requerimento tem, até agora, quatro assinaturas. Além de Vespoli, também assinaram Nabil Bonduki (PT), Amanda Paschoal (PSOL) e Silvia Ferraro, da Bancada Feminista (PSOL). O pedido precisa de 19 assinaturas para ser votado no plenário da Câmara Municipal.
O vereador acredita que deve conseguir o número necessário nos próximos dias, uma vez que os partidos de oposição na Casa (PT, PSOL, Rede e PSB) somam 18 integrantes.
O empresário que vendeu as armadilhas para a prefeitura, Marco Antônio Bertussi, é um velho conhecido de Ricardo Nunes. Os dois se conheceram antes de o prefeito entrar na política. Em 2007, fundaram juntos uma associação de empresas de controle de pragas. Quando era vereador, Nunes intermediou reuniões para o amigo na Secretaria de Saúde.
Em uma das reuniões, a prefeitura concordou em fazer um teste com as armadilhas. Os resultados foram inconclusivos – um primeiro estudo indicou que a redução de mosquitos foi em “níveis baixos”, e um segundo nunca teve resultados publicados. Ainda assim, o teste foi a justificativa da prefeitura para abrir a licitação, já com Nunes como prefeito, para comprar as armadilhas. A vencedora foi a Biovec, empresa de Bertussi.
Mas a participação do amigo de Nunes não se limitou a ganhar o contrato inicial de R$ 19 milhões – e que posteriormente ganhou outros aditivos, totalizando mais de R$ 40 milhões.
Na fase de pesquisa de preços da licitação, as três empresas que participaram tinham ligação com o empresário. Além da Biovec, também participaram a TN Santos, outra empresa de Bertussi, e a Biolive, uma empresa de Salvador ligada a um sócio de Bertussi.
A sindicância da CGM irá verificar se houve prática de corrupção contra a administração pública e prejuízo ao erário com a compra das armadilhas.
Enquanto isso...
Dengue: SP ultrapassa marca de 100 mortes; São José do Rio Preto terá ajuda federal
Há ainda 211 óbitos em investigação no estado de São Paulo
A dengue já matou 101 pessoas no estado de São Paulo em 2025, segundo dados registrados até o meio-dia de segunda-feira (17) no painel de indicadores da Secretaria Estadual da Saúde. Há ainda 211 óbitos em investigação.
Na última segunda-feira, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, informou que a pasta irá ajudar a fortalecer a rede de atendimento de São José do Rio Preto (SP), diante do alto índice de dengue no município. Segundo monitoramento do governo paulista, em 2025 foram confirmados 33.152 casos da doença e 34 óbitos na cidade.
“Estamos, a pedido do município, que concentra o maior número de casos do Brasil, apoiando a Rede de Atenção”, esclareceu a ministra, durante a inauguração da Unidade de Emergência Referenciada do Hospital São Paulo, da Escola Paulista de Medicina e da Escola Paulista de Enfermagem, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Araçatuba é outra localidade em situação crítica, com 15.125 casos confirmados e 11 mortes decorrentes da doença. Respectivamente, os dois municípios têm incidência de 1.926 e 1.988 a cada 100 mil habitantes.
Dengue em SP
Na capital paulista, foi registrada uma morte de uma menina de 11 anos morreu no dia 30 de janeiro e 18 óbitos permanecem em investigação. O estado registra, no total, 110.901 casos da doença e 80.290 em investigação. Na cidade de São Paulo, são 4.940 casos confirmados de dengue e 812 em investigação.
A incidência de dengue no estado, hoje em 249,5 por 100 mil habitantes, se aproxima da taxa que indica epidemia, quando ultrapassa os 300 casos por 100 mil habitantes.
O coeficiente de incidência é um critério do Ministério da Saúde para a classificação da doença que mostra o risco de os moradores ficarem doentes e a probabilidade de novas ocorrências. Para chegar a ele, basta multiplicar por 100 mil o número de casos novos e dividir o resultado pelo total da população na área em questão.
Na sexta (14), o Ministério da Saúde autorizou todos os estados e o Distrito Federal a ampliarem a vacinação. Doses que estiverem a dois meses do fim do prazo de validade poderão ser aplicadas em pessoas de 6 a 16 anos ou remanejadas para cidades que ainda não fazem a vacinação. Já as doses que estiverem a um mês do vencimento poderão ser aplicadas em pessoas que tenham entre 4 anos e 59 anos, 11 meses e 29 dias.
A Prefeitura de São Paulo afirma que não tem doses perto do vencimento e que, por isso, não vai alterar o público-alvo para a vacina, que são crianças e adolescentes com idade entre 10 e 14 anos.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
Para compreender o fascismo tardio
Crítico cultural italiano adverte: de pouco valem analogias com Hitler ou Mussolini. Ultradireita bebe nos métodos da dominação colonial e racista, ressurge sempre que a ordem do capital está em xeque e é convocada pelas democracias liberais…
No mundo contemporâneo, bombas destroem implacavelmente escolas, hospitais e suprimentos de água, expulsando pessoas de suas casas. Medidas de “austeridade” aprofundam os abismos econômicos globais, enquanto governos autoritários submetem os mais vulneráveis, pobres e desabrigados, à violência estatal e ao encarceramento. É um tempo, nas palavras escritas por Antonio Gramsci em uma prisão fascista um século atrás, em que “o velho mundo está morrendo e o novo não pode nascer”; em que os fracassos de uma antiga ordem político-econômica e os “sintomas mórbidos” dos Estados-nação imperiais assolados por crises de legitimação coexistem com alternativas emergentes que lutam para nascer. Ao redor do mundo, multidões vão às ruas para pedir um cessar-fogo em Gaza, protestar contra assassinatos policiais de homens e mulheres negros desarmados na América do Norte, exigir moradia para migrantes e o fim do encarceramento em massa, e proteger cursos d’água e terras da extração e da construção de oleodutos. O caos resultante do regime moribundo traz suas próprias atrocidades e novas formas de terror, mas também torna possíveis novas relações ainda não realizadas. Esses movimentos coletivos – atravessando diversas histórias coloniais e capitalistas, regiões e populações – compreendem condições diferenciadas, mas interligadas, de promessa e perigo que se unem neste momento histórico urgente e que parece às vezes incompreensível.
Leio o livro erudito, elegantemente pensado e pacientemente argumentado de Alberto Toscano, Late Fascism [Fascismo Tardio], como um esforço de nos oferecer os meios históricos e filosófico-políticos para compreender o fascismo em nosso tempo, ao ajustar as contas com o fascismo na longa duração. Como as linguagens políticas disponíveis estão saturadas por lógicas liberais, elas frequentemente velam e obstruem a compreensão do “presente político”. Contribuem para o reconhecimento equivocado do “fascismo” como espetacular e excepcional, em vez de integrante do casamento moderno entre democracia liberal e capitalismo. O Late Fascism de Toscano enfatiza que esse reconhecimento equivocado é um obstáculo primário para entender, organizar e lutar eficazmente contra as múltiplas contradições do nosso presente político.
Ao discutir a natureza e a etiologia do fascismo tardio, Toscano nos leva além dos exemplos europeus do período entre guerras do “tipo ideal” do fascismo e desconstrói a suposta oposição entre fascismo e democracia liberal. Enfatizando que o fascismo não é monolítico ou genérico, e não possui um modelo singular e estático para o qual possamos identificar analogias ao marcar uma lista de características, ele argumenta que devemos, em vez disso, abordar o fascismo como um processo com múltiplas origens, localidades e temporalidades, ocorrendo dinamicamente em relação a condições específicas. De certa forma (embora ele não se expresse exatamente assim), Toscano está argumentando que “o fascismo é uma estrutura, não um evento”, significando que ele não é uma aberração do período de guerra europeu, nem um estado natural original do qual emerge o antídoto da liberdade política liberal, mas sim uma característica persistente da história do liberalismo colonizador e do capitalismo colonial. A democracia liberal não é o antídoto do fascismo, mas sim sua condição de possibilidade. O governo fascista pode incluir, mas não se limita exclusivamente a, Estados autoritários ultranacionalistas. Dentro dos Estados liberais, ele anima a perda econômica e o abandono social, e armazena energias libidinais atávicas não resolvidas, liberadas pelas crises e crueldades da ordem social desigual, e as volta contra outros raciais, religiosos, sexuais e de gênero.
Toscano elabora ainda que podemos entender o fascismo como a constelação de formações reativas através de aparatos ideológicos e estatais, com o objetivo de manter ou sustentar uma ordem social em decadência. Ele não é separável dos colonialismos, mas sim intimamente interconectado tanto com o despossessão indígena histórica e contínua, quanto com o cativeiro e a escravidão nas plantations e a contrarrevolução; os fascismos se desdobram em oposição e em antecipação a rebeliões insurgentes que desafiam ou transformam o regime de propriedade existente, a partir dos povos, locais e regiões onde a ocupação e o governo tênue foram estabelecidos. Essa é a razão pela qual Toscano se baseia especialmente nas tradições radicais negras e anticoloniais para teorias incisivas sobre o fascismo — não apenas para evidenciar que reconhecemos mal o fascismo, se o limitarmos à Itália de Mussolini e à Alemanha de Hitler, mas também para argumentar que o fascismo é uma formação ancorada no capitalismo racial e colonial, que precede e persiste além do exemplo europeu. Entre as muitas contribuições valiosas do livro, é essa que abordo no restante dos meus comentários.
Pensadores anticoloniais têm sido os analistas mais incisivos dos fascismos. Em seu Discurso sobre o colonialismo, de 1950, o martinicano Aimé Césaire identificou as origens do fascismo no projeto de subjugação colonial ao afirmar que a Europa só conseguiu reconhecer a vergonha e a brutalidade da “humilhação do homem” quando empregadas pelos nazistas contra europeus brancos, algo que “até então havia sido reservado exclusivamente aos árabes da Argélia, aos coolies da Índia e aos negros da África”.1 Em Como a Europa subdesenvolveu a África, o guianês Walter Rodney escreveu que “o fascismo era um monstro nascido de pais capitalistas… o produto final de séculos de bestialidade capitalista, exploração, dominação e racismo exercidos fora da Europa”.2 O George Padmore, de Trinidad considerava o apartheid na África do Sul como o Estado fascista clássico, e o poeta afro-americano Langston Hughes frequentemente declarava que as condições enfrentadas pelos negros na América eram “fascistas”. Em outras palavras, antes que a violência nazista viesse a epitomar o fascismo, pensadores radicais negros já detalhavam fascismos associados à despossessão colonial e à escravidão racial.
Toscano invoca A Reconstrução Negra na América (1935), de W.E.B. Du Bois, como um texto-chave na análise do entrelaçamento entre fascismo e democracia liberal. Du Bois argumentou que a escravidão estava no cerne do capitalismo liberal moderno. A brutal mercantilização de seres humanos pela escravidão não apenas desmentia as reivindicações de democracia liberal dos EUA. A possibilidade de rebelião escrava também tinha a força para transformar o sistema de desigualdade racial violenta que tornava possível aos liberais falar em “liberdade universal”. Du Bois afirmou que a escravidão não era uma aberração da democracia liberal nos Estados Unidos; ela era, e continuou a ser, sistêmica e constitutiva da democracia norte-americana, e da extensão do poder dos Estados Unidos ao redor do mundo. O livro conta a história de meio milhão de trabalhadores negros que, por meio de seu êxodo massivo das plantations escravistas do sul, criaram um ambiente semelhante ao de greve geral. Ele paralisou o sistema de plantations, derrubou a Confederação e, forçou o Norte a assumir a abolição da escravidão como sua causa.
Mas A Reconstrução Negra acaba por relatar o que Du Bois chama de “contrarrevolução da propriedade”: o bloqueio da liberdade negra pela consolidação de uma aliança branca entre industriais do norte e oligarcas do sul, e a persuasão dos trabalhadores camponeses brancos a se afastarem de uma aliança inter-racial com os trabalhadores negros. A “contrarrevolução da propriedade” exemplificou precisamente uma formação fascista que sustentou o capital branco e a supremacia branca contra uma potencial “insurgência” que tinha o poder de acabar com a escravidão e o apartheid racial, e que poderia ter transformado uma ordem social construída sobre a acumulação por meio da subjugação de seres humanos cativos.
Toscano se concentra especialmente no que Cedric Robinson chamou de “construção negra do fascismo”. Ele mostra como teóricos sub-valorizados do fascismo norte-americano – desde os Panteras Negras no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, até os escritos e correspondências prisionais dos presos políticos Angela Davis e George Jackson. Ao fazê-lo, convida a repensar o debate teórico sobre o fascismo em relação à situação dos negros norte-americanos encarcerados sob o capitalismo racial. Como presos políticos, Davis e Jackson entendiam o fascismo como uma forma de contrarrevolução preventiva, usando estruturas carcerário-judiciais para suprimir ameaças percebidas à ordem social capitalista estruturada na dominação branca. Em outras palavras, os fascismos são sinais de crises do capitalismo racial e do excesso imperial, parasitando tanto as fraquezas da ordem político-econômica quanto a vulnerabilidade da oposição a ela. Toscano comenta que o fascismo é “reativo, não apenas em conteúdo social, mas em forma temporal – seja respondendo imediatamente a um potencial levante revolucionário triunfante ou, de forma mediada, a um desafio já derrotado ou em declínio”.3
Ao entender que o capitalismo é inerentemente instável, podemos observar que ele entra em crise quando a contradição entre acumulação e exploração atinge um nível insustentável, expresso como superprodução, diminuição dos lucros e desemprego, por um lado, e o aumento das desigualdades de riqueza, segregação racial e policiamento de comunidades pobres e não-brancas, por outro. Nos Estados Unidos, essas contradições produziram dialeticamente antagonismos ao longo dos anos 1970 que irromperam em movimentos radicais de Poder Negro, Pardo, Amarelo e Vermelho, greves trabalhistas, rebeliões urbanas e movimentos sociais, desde feministas negras até anti-apartheid e anti-guerra. A eles, o Estado respondeu com o aumento da capacidade militar, policial e prisional do Estado. Ruth Wilson Gilmore nos ensinou muito sobre como essas contradições levaram à expansão do sistema prisional dos EUA nos anos 1980. Para justificar a si mesmo e seu monopólio da força, o Estado trabalhou ideologicamente para compelir a identificação com a cidadania multicultural, e puniu aquelas “ameaças” à segurança nacional dessa cidadania ao distinguir entre o uso “legítimo” da força pela polícia e pelas forças armadas, e a violência “ilegítima” da dissidência e da rebelião.
Embora a expansão das funções repressivas do Estado tenha multiplicado os espaços em que as comunidades são tornadas vulneráveis à violência estatal, tal violência não se restringe apenas ao encarceramento, militarização ou policiamento. Comunidades racializadas pobres, imigrantes e anteriormente colonizadas têm sido devastadas pela privatização neoliberal, desregulamentação e extrativismo que protegem corporações e minam a proteção do trabalho e do meio ambiente indígena; pela suburbanização e vigilância direcionada de espaços sociais urbanos; e pelos pânicos morais em torno do “crime urbano”, imigrantes, mulheres negras e não-brancas e comunidades queer. Essas, também, são operações relacionadas e implicadas na expansão do Estado carcerário dos EUA.
Angela Davis e George Jackson, em seus escritos e correspondências prisionais, discutem a expansão do sistema prisional pelo Estado norte-americano como uma forma exemplar de fascismo, combinando capitalismo monopolista, imperialismo e crises capitalistas com a supressão contrarrevolucionária da dissidência política. Em Late Fascism, Toscano discute uma das cartas da prisão de George Jackson, em Blood in my Eye (1972). Jackson escreve:
Quando sou entrevistado por um membro da velha guarda e aponto para o concreto e o aço, o minúsculo dispositivo eletrônico de escuta escondido na ventilação, a falange de capangas espiando-nos, seu gravador de plástico disfuncional que custou uma semana de trabalho, e aponto que tudo isso são manifestações de fascismo, ele invariavelmente tenta me refutar definindo o fascismo simplesmente como um assunto econômico-geopolítico onde se permite que apenas um partido exista e nenhuma atividade de oposição é permitida.4
Jackson identifica a prisão como um aparato do fascismo a partir da perspectiva de um prisioneiro político negro acusado de atividade revolucionária armada, e logo em seguida assassinado por guardas prisionais. Como prisioneiro político negro, enquadrado como “ameaça” insurgente ao monopólio da força do Estado, Jackson escreve de forma transparente sobre a formação contrarrevolucionária do fascismo e enfatiza a materialidade do complexo industrial prisional, desde as tecnologias de vigilância até o trabalho desvalorizado do pessoal prisional. Jackson está comentando sobre o fascismo como o que Gilmore mais tarde chamaria de “reestruturação do Estado capitalista” enquanto ele tenta avançar mas fracassa. Gilmore enfatiza que a “solução prisional” do Estado racial americano do pós-guerra para o fracasso do capitalismo não é um fenômeno isolado. As decisões de construir prisões que encarceram desproporcionalmente homens e mulheres negros – e de investir em punição industrial, policiamento e militarismo em vez de bem-estar público, saúde ou escolas – foram centrais para uma reorganização estrutural do “cenário de acumulação e despossessão” do pós-guerra. Como observa Toscano, o fascismo não é apenas uma reestruturação contrarrevolucionária do Estado capitalista. Também é uma ação incipiente e antecipatória contra um acerto de contas adiado, suprimido ou em curso.
Alberto Toscano é um dos teóricos políticos mais significativos e originais da atualidade. Em Fascismo Tardio, ele lida com um vasto espectro do pensamento antifascista: de Ernst Bloch, George Bataille e Leo Lowenthal a Angela Davis e George Jackson; de Stuart Hall e Ruth Wilson Gilmore a Jairus Banerji e Furio Jesi. Os resultados são reveladores. Ao retratar o fascismo não como um monolito, mas como uma gama de respostas à crise colonial e capitalista racial, ele ajuda a desalojar o fascismo do impasse da analogia, fornecendo os recursos para entender efetivamente nosso presente histórico. Além disso, o exame de Toscano sobre a longa duração do fascismo refere-se à colonialidade do presente. Nas palavras de Cedric Robinson, ele “ressuscita eventos que foram sistematicamente apagados de nossa consciência intelectual”,5 e nos permite entender nossas condições presentes de uma nova maneira.
Notas:
1 Discurso sobre o colonialismo, Monthly Review Press, 1955/1972.
2 Walter Rodney, Como a Europa subdesenvolveu a África, Verso Books, 1972/2018.
3 Toscano, p34.
4 George Jackson, Sangue em Meu Olho, citado em Toscano.
5 Cedric Robinson, Uma Antropologia do Marxismo, Ashgate, 2001.
Por Lisa Lowe, no Verso Books | Tradução: Antonio Martins
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