segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Carta Capital entrevistao prof João Cesar Castro Rocha #01

Para uma Antropologia do novo fascismo

O projeto que enfrentamos foge às antigas categorias da política. Enraizou-se na competição sem tréguas, que o neoliberalismo tanto estimulou, e na mentalidade gaming – hiperacelerada e acrítica – a que conduzem as telas e seus algoritmos Por Franco Berardi (Bifo) em El Salto | Tradução de Glauco Faria Dinâmica profunda da onda nazi-libertária A reunião de cúpula da ultradireita branca ocidental em Madri, em 29 de maio, foi o ponto culminante de um processo que escapa às categorias da política moderna. Continuamos a interpretá-lo com as categorias que temos: democracia, liberalismo, socialismo, fascismo etc… Mas acredito que essas categorias interpretativas da política não capturam a essência desse processo, que não é realmente novo no nível enunciativo e programático, mas que é radicalmente novo no nível antropológico e psicocognitivo. As declarações dos líderes da direita global não explicam a força disruptiva do movimento que ninguém parece ser capaz de deter, com algumas exceções, como a Colômbia, o Brasil e a Espanha socialista, bastiões da resistência humana. A dinâmica tradicional da democracia parlamentar e da luta social parece ter sido superada, como se um ciclone dotado de um poder sem precedentes estivesse varrendo as defesas que a sociedade havia construído após a Segunda Guerra Mundial. A cúpula de Madri reuniu formações que convergem para o supremacismo branco ocidental em vez de movimentos liderados por países como a Índia de Modi, um exemplo de supremacismo não branco, e a Rússia de Putin, um exemplo de supremacismo não ocidental. Na segunda metade de 2024, é possível que os supremacistas de direita ganhem a presidência dos EUA e obtenham a maioria no Parlamento Europeu, aliando-se ao centro. Mas mesmo que a direita não vença na Europa e os democratas ganhem as eleições nos EUA, isso não mudaria muita coisa, porque em questões fundamentais, principalmente em questões de rearmamento, guerra e mudança climática, não há mais distinção entre os governos de extrema direita e de centro. Pelo contrário, na situação atual, a vitória do lepenismo nas eleições de junho e a vitória de Trump em novembro teriam o efeito de rachar a unidade ocidental na guerra contra a Rússia. Mas o objeto da minha reflexão não é o resultado das eleições de 2024. O que me interessa aqui é entender a dinâmica antropológica e não meramente política que transformou as sociedades do Ocidente e a maior parte do planeta depois de ter destruído o movimento trabalhista organizado e desativado uma após a outra das instituições internacionais da era liberal-democrática, começando pela ONU. O que está acontecendo pode ser reduzido a um retorno do fascismo histórico? Eu diria definitivamente que não: o nacionalismo fascista continua sendo a principal referência da linguagem e da mentalidade da classe política que está surfando na onda reacionária porque são pessoas de nível intelectual muito baixo, sem a capacidade de encontrar conceitos e palavras que correspondam à força que a transformação antropológica colocou à sua disposição. Parece-me que não há consciência de direita que corresponda ao poder da direita. A brutalidade, afinal de contas, não costuma ser autoconsciente. O que está surgindo é um fenômeno de proporções gigantescas que não pode ser explicado pelas categorias da política porque está enraizado na mutação tecno-antropológica pela qual a humanidade passou nas últimas quatro décadas e porque constitui o resultado do hiper-liberalismo, que fez da competição (ou seja, da guerra social) o princípio universal das relações inter-humanas. As explicações políticas da onda brutalista libertária captam apenas aspectos marginais do fenômeno: os democratas liberais argumentam que a ordem política está abalada pela soberania autoritária. Os marxistas, ou muitos deles, interpretam o que está acontecendo como um retorno do fascismo histórico após os erros cometidos pelo movimento trabalhista organizado. Mas nenhum deles explica o mais importante, a qualidade antropológica e psíquica que está por trás da adesão em massa aos movimentos ultrarreacionários. O que precisa ser entendido não é o significado das declarações de Trump, Milei, Netanyahu ou Norendra Modi, mas as razões pelas quais uma maioria crescente da população planetária abraça com entusiasmo a fúria destrutiva desses mercenários. Ao contrário do nazi-fascismo histórico, que praticava a economia estatista, a onda supremacista funde os lugares-comuns do racismo e do conservadorismo cultural com uma acentuação histérica do liberalismo econômico: liberdade para ser brutal. Será esta novidade suficiente para explicar o sucesso esmagador da miscelânea intelectual que por toda parte desperta o entusiasmo das multidões? Devemos pensar que as multidões seguem Trump apesar das suas mentiras descaradas, apesar do seu machismo de baixo grau? E que as multidões israelitas apoiam o governo fascista apesar do extermínio das crianças palestinas, e que a maioria dos argentinos vota em Milei apesar da motosserra com a qual ele se prepara para destruir o estado de bem-estar social e fazer morrer de fome milhões de trabalhadores? Ou talvez o raciocínio devesse ser invertido? Eu proponho a hipótese de que estamos diante de uma verdadeira inversão de julgamento ético: os americanos votam em Trump exatamente porque ele é um estuprador e mentiroso, os israelenses apoiam Netanyahu exatamente porque ele pratica genocídio, compensando uma necessidade profunda e inconfessada de reparações dos descendentes das vítimas de um genocídio passado. E os jovens argentinos seguem Milei porque acreditam que, finalmente, os melhores poderão se destacar e os demais passarão fome como merecem. A novidade que precisamos entender é a qualidade psíquica, cognitiva e antropológica do Anthropos 2.0. A inversão cínica do julgamento, o entusiasmo pela violência racista, implicam uma perversão da percepção e da elaboração psíquica, antes mesmo da moral: o capitalismo gore, como Sayak Valencia define a realidade mexicana. Brutalismo social Ao fazer da competição o princípio universal das relações inter-humanas, o neoliberalismo ridicularizou a empatia pelo sofrimento do outro, corroeu os fundamentos da solidariedade e, assim, destruiu a civilização social. Quando Milei afirma que a justiça social é uma aberração, ele está apenas legitimando o direito do mais forte e galvanizando a ilusão de massas de indivíduos jovens (em sua maioria homens) convencidos de que são dotados de força para vencer todos os outros. Essa crença não é facilmente desmantelada, porque quando amanhã esses indivíduos forem, como já são, miseráveis solitários empobrecidos, eles culparão apenas os imigrantes, os comunistas ou Satanás pela derrota, de acordo com a psicose que preferirem. Enquanto a justiça social é condenada como uma intrusão aberrante do socialismo estatal na liberdade dos indivíduos, a selvageria competitiva é naturalizada: na luta pela vida, quem não estiver à altura da tarefa merece morrer. A empatia não é compatível com a economia da sobrevivência; na verdade, ela é prejudicial para aqueles que a praticam. Como diz Thomas Wade no romance de Liu Cixin, The Dark Forest (A Floresta Negra), 2008: “Se perdermos nossa humanidade, perderemos algo; se perdermos nossa bestialidade, perderemos tudo”. O brutalismo se torna a base da vida social. O inconsciente conectivo e o fim da mente crítica McLuhan escreveu em 1964 que quando a comunicação inter-humana passa da dimensão lenta da tecnologia alfabética para a dimensão rápida da tecnologia eletrônica, o pensamento se torna impróprio para a crítica e o pensamento mitológico é restaurado. A mutação tecnocomunicativa está se mostrando mais abrangente do que as próprias previsões de McLuhan. De acordo com o CEO da Netflix, Reed Hastings, o principal concorrente das empresas de informação é o sono. Somando as horas de atividades multitarefas de uma pessoa comum em nossa época, o dia de trabalho é de trinta e uma horas, das quais apenas seis horas e meia são dedicadas ao sono. Em 24/7 Capitalism and the End of Sleep (2015), Jonathan Crary escreve que o tempo médio gasto com o sono diminuiu em um século de oito horas e meia para seis horas e meia. Que efeito a contração do sono pode ter sobre a autonomia mental de um indivíduo? Durante treze horas, a mente fica exposta a estímulos da infosfera. Um leitor de livros poderia expor sua mente à recepção de sinais alfabéticos por muitas horas, mas a intensidade e a velocidade dos impulsos eletrônicos são incomparavelmente maiores. Quais são as consequências dessa transformação tecnocomunicativa? Resumindo: a mente submetida ao bombardeio ininterrupto de impulsos eletrônicos, independentemente de seu conteúdo, funciona de forma completamente diferente da mente alfabética, que tinha a capacidade de discriminar entre o verdadeiro e o falso nas informações e que tinha a capacidade de construir um procedimento de elaboração individual. Na verdade, essa capacidade depende do tempo de processamento emocional e racional, que, no caso de um jovem que vive treze horas por dia na infosfera eletrônica, é reduzido a zero. A distinção entre a verdade e a falsidade das declarações torna-se não apenas difícil, mas irrelevante, como quando se está em um ambiente de jogo. Em um ambiente como esse, não faz sentido aprovar ou desaprovar a violência dos homens verdes que invadem o planeta vermelho. Fazer isso só serviria para perder o jogo. A configuração conectiva da mente contemporânea está cada vez mais indiferente à distinção entre verdadeiro e falso, bom e ruim. A escolha entre um estímulo e outro não depende do julgamento crítico, mas do grau de excitação, ou estimulação dopaminérgica. Para dar um exemplo pessoal: na noite de 9 de novembro de 2016, quando os resultados das eleições nos EUA eram esperados, com Hillary Clinton enfrentando Donald Trump, lembro-me de ter acordado às quatro da manhã para ligar meu computador e ver como a disputa havia sido decidida. Não que eu simpatizasse com Hillary, mas achei moralmente repugnante pensar que seu oponente enérgico pudesse se tornar presidente. No entanto, percebi que algo em mim queria que o evento mais barulhento, inesperado e chocante – em resumo, o mais estimulante para a dopamina – acontecesse. E meu sistema nervoso havia encontrado sua satisfação: o horror havia prevalecido e o espectador em mim estava satisfeito, porque todo espectador sempre quer que a tela envie o estímulo mais forte. Acho que a mente conectiva evoluiu em uma direção incompatível com o julgamento moral e a discriminação crítica. Tecnologia celular e a grande migração Em geral, o marxismo subestimou a questão demográfica depois que Marx criticou a tese malthusiana em meados do século XIX. Marx estava certo contra Malthus, que previu que o crescimento populacional causaria transtornos sem levar em conta a evolução técnica da produtividade. Mas os marxistas estavam errados ao não considerar as consequências da extraordinária aceleração possibilitada pela medicina e pelo progresso social. O salto demográfico de 2,5 bilhões de pessoas vivas no planeta em 1950 para 8 bilhões, 70 anos depois, significou uma intensificação sem precedentes da exploração dos recursos da Terra e levou, acredito que inevitavelmente, à devastação do ambiente planetário. Na década de 1960, o etólogo John Bumpass Calhoun falou de um sumidouro comportamental. A devastação ecológica torna inabitáveis áreas cada vez maiores do planeta e impossibilita o cultivo de áreas inteiras. É compreensível que as populações do Sul global (ou seja, as áreas que sofreram os efeitos da colonização e que estão sofrendo especialmente com os efeitos da mudança climática) queiram se mudar para o Norte global (ou seja, a área que desfrutou dos benefícios da exploração colonial e que sofreu menos, por enquanto, com as consequências da mudança climática). Também é compreensível (mesmo que seja imoral, mas o julgamento moral é tão bom quanto um dois de paus neste momento) que as pessoas no Norte global estejam assustadas com a ideia de massas crescentes de pessoas se mudando do Sul global para o Norte global. É por isso que a grande migração empurra e empurrará cada vez mais as populações do Norte para posições abertamente racistas. É por isso que o genocídio já é, e provavelmente se tornará cada vez mais, uma técnica de controle do movimento populacional. É por isso que os europeus estão fazendo tudo o que podem para garantir que milhares de pessoas sejam afogadas no mar ou espalhadas nos desertos do norte da África. Em seu romance Gun Island (2019), Amitav Gosh relata o ciclo comunicacional da migração de telefones celulares: Não estamos mais no século XX. Não é necessário um megacomputador para acessar a web. Tudo o que você precisa é de um telefone e agora todo mundo tem um. E não importa se você é analfabeto. Você pode encontrar o que está procurando apenas falando, e seu assistente virtual fará o resto. Você ficaria surpreso com a rapidez e a capacidade de aprendizado das pessoas. É assim que a jornada começa, não comprando uma passagem e obtendo um passaporte. Ela começa com um telefone e uma tecnologia de reconhecimento de voz. […] Onde você acha que eles aprendem que precisam de uma vida melhor? Droga, onde você acha que eles têm uma ideia do que é uma vida melhor? De seus telefones celulares, é claro. É lá que eles veem fotos de outros países; é lá que eles veem anúncios em que tudo parece fabuloso; eles veem coisas nas mídias sociais, postagens de vizinhos que já fizeram a viagem […] então o que você acha que eles fazem? Eles voltam a plantar arroz? Você já tentou plantar arroz? Você acha que alguém quer voltar para esses campos depois de ver fotos de seus amigos tomando confortavelmente lattes de caramelo em um café de Berlim? E o mesmo celular que lhes mostra essas fotos também pode colocá-los em contato com intermediários […] digamos que um cara peça asilo na Suécia. Ele precisará de uma história confiável. Não uma daquelas histórias de besteira comuns. Uma história que eles queiram ouvir lá. Digamos que o cara tenha morrido de fome porque seus campos foram inundados; ou digamos que toda a aldeia tenha ficado doente por causa do arsênico no solo; ou digamos que o cara tenha sido espancado pelo seu senhorio porque não conseguiu pagar suas dívidas. Nada disso importa para os suecos. Os suecos gostam de política, religião e sexo. Você precisa ter uma história de perseguição se quiser ser ouvido. É assim que ajudo meus clientes, dou a eles esse tipo de história (Amitav Gosh, L’isola dei fucili, Vicenza, Neri Pozza, 2019, pp. 74-76). A grande migração do sul e do leste para o norte e o oeste do mundo é o processo que mais contribui para a onda ultrarreacionária, enquanto a oposição entre o Norte imperialista e o Sul colonizado está assumindo contornos cada vez mais nítidos. Basta olhar o mapa dos países que condenam o colonialismo israelense e o mapa dos países que o apoiam para entender a geografia do confronto histórico que está tomando forma. Mas não se deve acreditar que a brutalidade pertence apenas ao mundo ocidental branco: a Rússia de Putin não é ocidental e a Índia de Modi não é branca, mas ambas compartilham as características essenciais do brutalismo e da indiferença ao genocídio. A possibilidade de uma revolução anticolonialista tinha perspectivas progressistas dentro da estrutura do internacionalismo dos trabalhadores, mas isso parece ter desaparecido do horizonte da história. E o fim do internacionalismo abriu a porta para o apocalipse que estamos vivendo. Curva demográfica e conclusões provisórias Devemos levar em conta o fato de que a expansão demográfica, que está recuando no Norte global, continuará em escala planetária até que a população mundial chegue a dez bilhões. É verdade que alguns demógrafos preveem que, nesse ponto, em meados do século, a população da Terra começará a diminuir a uma taxa semelhante à que cresceu no século passado. Na opinião de Dean Spears, economista e demógrafo da Universidade do Texas, em Austin, é possível traçar uma curva que sobe abruptamente de dois bilhões para dez bilhões, atinge o pico por volta de 2040 e depois declina de forma igualmente abrupta. Pelo menos três fatores contribuem para esse colapso na taxa de natalidade, os quais não analisarei aqui: o colapso da fertilidade masculina, a relutância das mulheres em carregar as vítimas do holocausto climático e bélico e a tendência da sexualidade de desaparecer como resultado da hiper-semiotização do desejo. Mas é totalmente previsível que a brutalidade política e moral que está sendo imposta em todos os lugares, combinada com o poder crescente das armas de destruição em massa e a racionalidade amoral da inteligência artificial aplicada aos sistemas de armas, levará ao colapso final da civilização humana antes que a curva demográfica entre em sua fase descendente. Podemos esperar um refluxo da tendência que venho analisando neste texto? Para responder a isso, devemos considerar que a ascensão do brutalismo libertário reuniu e está reunindo uma energia que parece surgir da dinâmica profunda da evolução tecnológica, psíquica e cognitiva da humanidade. Essa energia não pode ser contida pela ação voluntarista dos sujeitos políticos sociais e culturais toda vez que eles não são percebidos de forma alguma no horizonte. Portanto, temo que essa onda só possa ser interrompida quando essa energia tiver produzido todos os efeitos de que é capaz, assim como o Terceiro Reich só parou quando destruiu tudo o que podia destruir, inclusive a Alemanha. Mas a força destrutiva à disposição do Terceiro Reich global de nosso tempo é suficiente para eliminar todos os vestígios de vida humana do planeta.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

5 fatos sobre a gigante nuvem de poeira do Saara que chegou às Américas

Por que essa enorme mancha de poeira do Saara viajou pelo Atlântico?
"Eu sou a chuva que lança a areia do Saara/ Sobre os automóveis de Roma". O trecho é da clássica música “Reconvexo”, interpretada pela famosa cantora brasileira Maria Betânia, e composta pelo seu irmão, o também consagrado cantor e produtor Caetano Veloso. A letra da canção vai além da poesia ou da arte. Ela trata de um fenômeno meteorológico, que acontece todos os anos, no período de fevereiro a junho. Nos últimos dias, meteorologistas identificaram, a partir de satélites, uma enorme nuvem de poeira, deslocando-se, desde o deserto do Saara, na África, viajando pelo oceano Atlântico, e chegando às Américas. Em plena Ditadura Militar no Brasil, Caetano Veloso vivia seu exílio na Europa. Ele compôs essa canção, depois de acordar um dia em Roma e se deparar com carros empoeirados, todos cobertos de areia. A poeira em Roma era consequência do mesmo fenômeno, observado na última semana, cujos episódios se repetem desde fevereiro. Para esclarecer por que o fenômeno ocorre e o que ele provoca, o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) monitora o deslocamento da poeira do Saara, transportada pelos ventos, ao longo do oceano Atlântico. Todas as informações sobre o assunto, utilizadas neste post, foram enviadas pelo Laboratório. A seguir, iremos explicar o fenômeno, bem como a tecnologia utilizada em seu monitoramento, a partir de 5 perguntas e respostas. Você também vai entender como a poeira do Saara, associada aos ventos do ciclone-bomba, ocorrido no Sul do Brasil, em 30 de julho, provocou o lindo fenômeno de céu colorido no Nordeste, na semana seguinte. O transporte de poeira do Saara, a longa distância, faz parte da combinação de fenômenos atmosféricos locais e de grande escala. No verão do Hemisfério Norte, o aquecimento do Saara ultrapassa a temperatura de 40 °C, durante as tardes. As altas temperaturas levam à formação de baixas pressões térmicas e à intensificação dos ventos, sobre algumas áreas do deserto. Com os ventos de leste (alísios), intensificados sobre as vastas terras áridas, no maior deserto quente do mundo, a turbulência gerada, próximo a superfície, suspende poeira na atmosfera. Forma-se, então, uma enorme nuvem de ar do Saara — uma massa de ar muito seco e com poeira do deserto africano. Todos os anos, entre a primavera e o início do outono, no Hemisfério Norte, é possível ver a jornada da poeira do deserto. Um gigantesco volume de partículas do Saara cruza o Atlântico e atinge outras regiões do Planeta. Qual o destino dessa nuvem de poeira vinda do Saara? A vasta nuvem de poeira do Saara, cobrindo o Caribe, no dia 24 de junho de 2020, enquanto seguia viagem. Hoje pela manhã, a pluma atingiu o Texas, nos Estados Unidos. A qualidade do ar, na maior parte da região, é considerada perigosa e eles alertam a população para tomarem medidas de proteção. A gigante nuvem de poeira, oriunda do deserto do Saara, intensificou-se em 2020. Segundo especialistas, o fenômeno atingiu um tamanho e concentração não vistos em meio século. Desde fevereiro, meteorologistas observam que eventos similares atravessam o Atlântico. No último dia 18 de junho, a enorme nuvem de poeira foi trazida pelos ventos, viajou pelo Atlântico e atingiu as Américas. A mancha passou pelo extremo norte da Amazônia, em parte da Venezuela, no Caribe e agora chega ao sul dos Estados Unidos. Parte da nuvem é formada, entre outros elementos, por partículas de poeira no ar, os chamados aerossóis. A presença desses resíduos na atmosfera contribui para a formação de nuvens e, consequentemente, de chuvas. No caso da floresta amazônica, parte dos aerossóis é oriunda do deserto do Saara. Em geral, essas partículas são confinadas nos primeiros quilômetros de altura da troposfera. Por isso, a poeira que veio do Saara pode ser uma das responsáveis por aquela tempestade de fim de tarde, típica de algumas cidades da Amazônia brasileira, como Belém (PA) e Manaus (AM). Com essa poeira na atmosfera, ocorre chuvas com resíduos da poeira, que fertilizam as terras da Amazônia, por conta da presença de substâncias como fósforo.
Quais os impactos do passeio da poeira do Saara pelo Atlântico?
Impactos positivos. Além de contribuir com a fertilização das terras da Amazônia, o fenômeno inibe tempestades tropicais, que poderiam formar furacões, no Atlântico. Ao longo da trajetória para oeste, nuvens tropicais profundas costumam encontrar condições mais quentes e úmidas no Atlântico, transformando-se em grandes furacões. Porém, durante a temporada de furacões no Atlântico Norte, a nuvem gigante de poeira do Saara ajuda a evitar ciclones tropicais. Quando atingem a nuvem de ar seco do Saara, no Oceano, esses eventos perdem intensidade e podem se dissipar. Por outro lado, uma maior quantidade de poeira faria com que se formassem mais nuvens pela região oceânica, favorecendo o nascimento de furacões. Assim, o efeito dessa poeira do Saara na formação de furacões ainda é incerto. Impactos negativos. A enorme nuvem de poeira, vinda do Saara, compromete a qualidade do ar e representa riscos para a saúde humana. O ar seco e empoeirado pode afetar a pele e os pulmões, pela redução da umidade, em pelo menos 50%. O alto teor de partículas também pode ser nocivo às pessoas com problemas respiratórios, causando alergias e irritações nos olhos, especialmente durante a pandemia do novo coronavírus. Que tecnologia é utilizada para registrar a nuvem gigante de poeira? Com imagens do satélite Meteosat-11, dos dias 20 e 21 de junho de 2020. O arquipélago do Cabo Verde é a região fora da África mais afetada pela poeira do Saara. Os entusiastas do Sensoriamento Remoto certamente estão curiosos para saber qual tecnologia foi utilizada para detectar o fenômeno. De acordo com o meteorologista Humberto Barbosa, do Lapis, satélites meteorológicos, em órbita geoestacionária (circular), posicionam-se a 36 mil km da Terra, permitindo captar áreas da atmosfera, a partir de uma posição privilegiada. As imagens da animação foram captadas e transmitidas pelo satélite Meteosat de Terceira Geração (MTG), em órbita geoestacionária, com alta resolução temporal (a cada 15 minutos). Esse intervalo permite o monitoramento contínuo do tempo e a tomada de decisão, por exemplo, pela Defesa Civil, no caso de risco de um evento meteorológico extremo. De interesse particular do Brasil, são as imagens do Meteosat-11, localizado sobre o meridiano de Greenwich (0°), que monitora sua costa leste e todo o oceano Atlântico. O pesquisador ressalta que satélites meteorológicos produzem uma enorme quantidade de dados, sendo necessário métodos específicos para extrair, filtrar e preparar dados, para criação de imagens de fácil interpretação e utilização. Que conhecimentos os especialistas usaram para interpretar o fenômeno?
A apresentação das cores nas imagens de satélites e a interpretação do que elas representam são muito importantes. Esses fatores permitem concluir sobre a presença de determinado fenômeno. É o caso de eventos como a nuvem gigante de poeira do Saara. Para Barbosa, a utilização da tecnologia RGB proporciona aos pesquisadores um salto qualitativo, na interpretação de imagens de satélites, especialmente na área de monitoramento ambiental. Dessa forma, contribui para auxiliar na tomada de decisão, na gestão de políticas e no planejamento de respostas a desastres naturais. A interpretação das imagens de satélites, processadas digitalmente, com uso de técnicas de Sensoriamento Remoto, depende da capacidade da visão humana em discernir tonalidades, texturas e contextos, registrados nessas imagens. A tecnologia RGB, ainda pouco utilizada no Brasil, permite que as imagens de satélites sejam vistas sob o espectro vermelho, verde e azul (daí seu nome corresponder às siglas, em inglês, das cores Red, Green e Blue). Quando combinadas, de diferentes formas, a tecnologia gera imagens impressionantes, com uma ampla gama de cores. A interpretação de eventos, como a poeira do deserto africano, exige conhecimento das características das diferentes resoluções das imagens (espacial, temporal, espectral e radiométrica). Também requer experiência com uso de imagens multiespectrais, bem como conhecimento aprofundado em Meteorologia. Essas imagens podem ser coloridas ou monocromáticas. Quanto mais nítidas, menos confusão visual causam ao especialista, que interpreta essas informações de satélite. Assim, utilizar tecnologias adequadas à composição dessas imagens e das suas tonalidades, de acordo com o objetivo desejado, é uma ferramenta poderosa para sintetizar, em uma única imagem, uma grande quantidade de informações. Ciclone-bomba, que devastou Sul do Brasil, deixa céu colorido no Nordeste
Desde o dia 05 de julho, é possível ver uma enorme nuvem de poeira, deslocando-se, desde o deserto do Saara, na África, viajando pelo oceano Atlântico e seguindo uma trajetória incomum. Desta vez, a areia do Saara cruzou o Atlântico e chegou ao Nordeste do Brasil. A imagem de satélite mostra partículas de fumaça, vindas de queimadas da África, transportadas para o Deserto do Saara, graças à uma forma específica de circulação dos ventos. A concentração de fumaça das queimadas, no centro-sul da África, é bem maior, em cor escura, na imagem de satélite, ao contrário da poeira do deserto, em tom amarronzado. A fumaça das queimadas, na África, e a poeira do Saara, explicam o fenômeno de céu colorido, em várias cidades do Nordeste, durante o nascer ou pôr do Sol, desta semana.
De acordo com o Lapis, o ciclone-bomba, que devastou o Sul do Brasil, no dia 30 de junho, deslocou-se, nos dias seguintes, para perto da costa sul da África. Os ventos a ele associados espalharam ainda mais incêndios, que ocorrem na região central da África. Além de aumentar o alastramento do fogo, o ciclone-bomba também ajudou a espalhar poeira do Deserto do Saara, em função do seu padrão de circulação atmosférica. Ao provocar divergências na direção dos ventos, formou-se uma área de alta pressão, com ventos calmos, céu ensolarado e pouca ou nenhuma chuva. Isso significa que o ar desce. Em baixos níveis, na superfície, o vento vai em direção ao Equador (os alísios). Com isso, a poeira do deserto do Saara, carregada pelos ventos, associados ao ciclone-bomba, provoca esse efeito de um lindo céu colorido, no Nordeste. Mais informações O Lapis possui uma estação de recepção de imagens do satélite Meteosat-11, cuja distribuição é feita pelo Sistema EumetCast África. Desde 2007, criou uma rede nacional de obtenção de dados de satélites digitais, em tempo real, a partir do serviço de disseminação de dados da Organização Europeia para a Exploração de Satélites Meteorológicos (EUMETSAT). LETRAS AMBIENTAIS.5 fatos sobre a gigante nuvem de poeira do Saara que chegou às Américas. Acessado em: 26/12/24. Link: https://www.letrasambientais.org.br/posts/5-fatos-sobre-a-gigante-nuvem-de-poeira-do-saara-que-chegou-as-americas

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

IA, ferramenta da ultradireita? (2)

Não é que a esquerda seja “fraca” em redes sociais. É que estas são programadas para estimular aspectos sombrios da constituição humana, como o individualismo e a conflitividade. Não culpe a tecnologia – mas seus senhores atuais… A reeleição de Donald Trump em 2024 não foi apenas um ato político; foi um grito vindo do abismo. A maré de votos que o levou de volta à Casa Branca nasceu de feridas abertas, muitas das quais causadas pelo avanço inexorável de tecnologias como a automação industrial e os algoritmos das redes sociais. Não foi um voto por esperança, mas por revanche. A conjunção de máquinas e algoritmos transformou a economia, destruiu identidades e, com isso, reacendeu as chamas do ressentimento que alimentaram sua vitória. Este artigo é a segunda parte de uma análise feita em dois textos que revela como a inteligência artificial contribuiu para a vitória do Partido Republicano nas eleições estadunidenses de 2024. O artigo anterior avalidou a relevância da IA nas indústrias e como isso tem afetado a classe trabalhadora dos Estados Unidos, este se ocupará dos impactos dos algoritmos das redes sociais na política. O Império do Medo: Redes Sociais, Algoritmos e a Ascensão de Donald Trump em 2024 Em 1º de janeiro de 2019, durante a posse do ex-presidente Jair Bolsonaro, seus apoiadores o recepcionaram com gritos de “WhatsApp” e “Facebook”. Esses gritos refletem a crença dos eleitores de que essas plataformas foram fundamentais para o crescimento do bolsonarismo. Essa opinião é compartilhada tanto pelos críticos desse movimento quanto por especialistas que estudam o avanço da extrema direita. De maneira semelhante, em outras partes do mundo, as redes sociais também são vistas como facilitadoras do progresso desse tipo de neofascismo. Diante dessas observações, surgem questões como: será que bolsonaristas e trumpistas são mais eficazes na comunicação digital? Ou a esquerda não conseguiu se adaptar ao ambiente virtual? O papel das redes sociais na ascensão de figuras políticas como Jair Bolsonaro e Donald Trump transcende as questões de competência comunicacional ou adaptação estratégica entre esquerda e direita. Na verdade, o sucesso dessas lideranças está profundamente enraizado na dinâmica emocional alimentada pelas plataformas digitais. Enquanto os gritos de “WhatsApp” e “Facebook” ecoavam em Brasília como símbolos de mobilização política, um fenômeno mais amplo já se consolidava: as redes sociais haviam se transformado em arenas onde medo e ódio não eram apenas tolerados, mas amplificados. Nesse cenário, o ambiente virtual não é um espaço neutro de disputa ideológica; é um sistema moldado para privilegiar emoções intensas e divisivas, as mesmas que impulsionam movimentos populistas ao redor do mundo. Vivemos uma era onde o medo e o ódio são produtos altamente lucrativos. As redes sociais, inicialmente idealizadas como plataformas para conexão e diálogo, tornaram-se máquinas sofisticadas de manipulação emocional. Seus algoritmos, projetados para maximizar o tempo de atenção, revelaram uma inclinação perversa: o que mais cativa é o que mais destrói. Medo. Ódio. Escândalo. Os mecanismos algorítmicos não são neutros. Eles se alimentam de nossos instintos mais básicos, amplificando emoções negativas porque estas, diferentemente de uma troca serena de ideias, mantêm os olhos colados às telas. Cada curtida, comentário ou compartilhamento de indignação é analisado, replicado e otimizado para criar um ciclo vicioso. Uma postagem sensacionalista desperta indignação? O algoritmo percebe e amplia seu alcance. O medo prende. O ódio mobiliza. Assim, teorias da conspiração e discursos polarizadores ganham status de relevância, não porque são verdadeiros, mas porque geram engajamento. A lógica é simples: o lucro depende da nossa indignação. Esse ambiente contaminado tem consequências reais. Em um espaço onde a razão é abafada pelo ruído do pânico, a verdade deixa de ser um norte. Narrativas fabricadas — QAnon, desinformação eleitoral, campanhas antivacinas — florescem porque ecoam os medos que o próprio sistema amplifica. O algoritmo não distingue fato de ficção; ele privilegia aquilo que mantém os usuários imersos. Como resultado, discursos de ódio, teorias conspiratórias e desinformação não são aberrações isoladas, mas pilares do ecossistema digital contemporâneo. A eleição de Donald Trump em 2024 é um exemplo fulminante desse processo. Sua campanha não apenas navegou nesse mar de indignação, mas o dominou com maestria. Trump foi hábil em capitalizar polarizações e utilizou as redes sociais como uma arena onde seus apoiadores podiam reafirmar medos compartilhados. As plataformas, cúmplices silenciosas, garantiram que suas mensagens fossem amplificadas para milhões. Ele não precisou de uma estratégia convencional; bastou alinhar-se ao fluxo natural dos algoritmos. Em um ciclo perverso, as redes sociais moldaram o terreno político, tornando-o fértil para narrativas polarizadoras. Os algoritmos incentivaram o tribalismo, fortalecendo discursos que separavam “nós” e “eles”. Trump não venceu apenas por causa do medo e do ódio; ele venceu porque as plataformas que consumimos diariamente cultivaram essas emoções como estratégia de retenção. Ele era a personificação de um sistema digital que recompensa a divisão. Portanto, não se trata apenas de Trump. Ele é o produto de um sistema que aprendeu a explorar nossas vulnerabilidades emocionais. A vitória de 2024 é um sintoma de um problema muito maior: as redes sociais, enquanto permanecerem focadas em maximizar engajamento a qualquer custo, continuarão a ser um terreno fértil para a desinformação, a polarização e, acima de tudo, o cultivo do medo. A Caixa de Pandora do neofascismo É importante repetir que o sucesso de ultradireitistas nas redes sociais não está relacionado a uma superioridade de conhecimento por parte deles, nem a uma falta de habilidade da esquerda. Embora haja exemplos de momentos em que a extrema direita soube aproveitar as novas tecnologias de informação, também existem diversos casos em que esteve atrasada. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Cambridge Analytica (CA) – que mais tarde trabalharia com o Partido Republicano e causaria grande impacto ao ser acusada de manipular as eleições de 2016 – não foi pioneira no uso de Big Data e inteligência artificial em campanhas políticas. Quando Alexander Nix, fundador da CA, começou a procurar potenciais clientes nos EUA, o Partido Democrata já estava sendo atendido por empresas como Blue State Digital, BlueLabs, NGP VAN, Civis Analytics e HaystaqDNA. A BlueLabs, por exemplo, já havia trabalhado na campanha de Obama e era uma referência no uso de estatísticas para a persuasão política. Portanto, a aliança entre Nix e os republicanos não foi motivada por uma afinidade ideológica, mas sim pela defasagem tecnológica da direita norte-americana. Sabe-se que o modus operandi da extrema direita baseia-se justamente no sensacionalismo, explorando o ódio e o medo que por vezes se mantém submerso. O viés de confirmação que por muitas vezes guia esse espectro político é justamente baseado nesses afetos. Esse “viés de negatividade” foi encontrado pelos pesquisadores Fessler, Pisor e Navarrete em um estudo empírico que revelou que os conservadores possuem mais tendência em acreditar em teorias da conspiração e em histórias falsas que incitam o pânico. O que a extrema direita fez foi organizar essa negatividade difusa dando-lhe uma finalidade política. A internet, com suas vastas possibilidades de comunicação e acesso à informação, se tornou um espaço propício para a perpetuação de preconceitos e o surgimento de movimentos de extrema direita. Nas brumas do inconsciente, onde a luz da razão nem sempre alcança, residem os instintos destrutivos, como a raiva e o ódio. A internet, por sua vez, esconde um submundo obscuro onde preconceitos adormecidos aguardam o momento oportuno para emergir. Nesse ambiente virtual, os movimentos de extrema direita assumem o papel de catalisadores, reunindo as frustrações e moldando-as em uma identidade conservadora. É como se navegassem pelas profundezas da rede, despertando os fantasmas do passado e alimentando a chama do ódio e da intolerância. As grandes empresas de tecnologia, na tentativa de capturar nossa atenção ao máximo, acabaram por abrir a Caixa de Pandora da extrema direita. Embora as big techs não tenham criado o neofascismo, elas têm responsabilidade no crescimento desse movimento, pois desenvolveram algoritmos que favorecem esse espectro político. É provável que essa preferência não seja deliberada, mas também não é puramente acidental. As redes sociais, assim como os meios de comunicação anteriores, sabem que explorar o ódio e o medo é uma maneira eficaz de manter as pessoas engajadas. Por isso, o discurso sensacionalista é tão prevalente em todos os meios de comunicação. Assim, intencionalmente ou não, os algoritmos acabam promovendo conteúdos que ressoam com os aspectos mais sombrios de nossa natureza. Além disso, as comunidades digitais, ao tentarem unir pessoas, acabam por isolá-las do restante do mundo. Por esses motivos, não basta punir indivíduos que propagam discursos de ódio ou fake news. Em um sistema que privilegia esse tipo de conteúdo, punir alguém é como enxugar gelo: uma pessoa pode ser penalizada, mas muitas outras tomarão o seu lugar. Dado o papel central dos algoritmos na vida pública (assim como na cultura, nas relações pessoais e na capacidade de concentração, entre outras áreas), não é prudente deixar que as big techs decidam quais sentimentos devem ser cultivados na sociedade. O lucro dessas empresas, que depende de nossa atenção, não pode ser usado como justificativa para o aumento da barbárie. Muitas vezes, qualquer menção à regulamentação das redes sociais provoca uma reação em defesa da liberdade de expressão. No entanto, em um ambiente onde os algoritmos favorecem o discurso sensacionalista, a liberdade é ilusória. Os criadores de conteúdo nas mais diversas plataformas não estão em igualdade de condições e são incentivados (conscientemente ou não) a abordar certos temas de uma determinada maneira, caso queiram que seus conteúdos alcancem o público. Isso significa que esses criadores não são realmente livres. Para alcançar a audiência, eles precisam se comportar de uma maneira específica e abordar certos temas. Caso contrário, seus vídeos, podcasts ou postagens terão pouca visibilidade. Nesse contexto, a verdadeira liberdade é a dos algoritmos a quem servimos, se o objetivo é ser visto ou ouvido. Como esses sistemas automatizados não são realmente autônomos, as únicas partes verdadeiramente livres nessa relação são as big techs, que, em nome do lucro, estão minando o que resta de civilidade. Conclusão Ao longo dos dois textos, procurei demonstrar a influência da inteligência artificial na vitória de Trump em 2024. Contudo, isso não significa que essa tecnologia seja a má em si nem a única responsável pela ascensão da extrema direita. Sequer defendo que seja a principal responsável. O que aqui se pretende é que essas considerações somem-se a outras que exploram aspectos econômicos, culturais, psicológicos etc. O ponto fundamental é a relação da IA com afetos “negativos” — a matéria prima do neofascismo. Os dois textos se complementam nessa questão. Neste último, almejei explicar como as redes sociais funcionam como uma espécie de ímã que aglutina conteúdos que incitam o medo e o ódio. No artigo anterior, elaborei como esses sentimentos possuem como uma de suas fontes o desenvolvimento tecnológico nos Estados Unidos que dificultou a vida de muitos trabalhadores. Nota-se, dessa forma, como a inteligência está nos dois polos do problema: de um lado, a IA potencializa o desemprego estrutural e aprofunda a precarização, substituindo trabalhadores em nome da eficiência; de outro, transforma-se em ferramenta para amplificar os afetos mais sombrios da psique humana. Um ciclo se fecha: máquinas criam o vazio, e outras máquinas o preenchem com gritos de ódio e medo. É inquietante perceber que o mesmo avanço que prometeu libertar-nos do esforço repetitivo alimenta o maquinário psicológico do neofascismo. As redes sociais, movidas por algoritmos que não dormem nem hesitam, encontram no ódio e no medo seu combustível mais lucrativo. Não é apenas o indivíduo que cai na armadilha do ressentimento, mas toda uma sociedade que é arrastada para espirais de polarização e irracionalidade. A IA, aqui, não é o vilão maquiavélico, mas o arquiteto inconsciente de um novo tipo de desordem. A grande ironia é que a inteligência, símbolo maior de nossa capacidade criativa, tornou-se um catalisador para afetos destrutivos. E, no entanto, a questão não se encerra. As soluções não estão apenas em regular algoritmos ou conter o avanço tecnológico; estão em transformar os contextos que alimentam os ressentimentos. O neofascismo não nasce apenas da máquina, mas de um tecido social desgastado, de uma economia que se desumanizou e de uma política que perdeu sua âncora ética. Se quisermos escapar desse ciclo, será necessário revisitar as raízes do problema: a relação entre progresso técnico e o fracasso em distribuir suas promessas. Será a inteligência – artificial ou não – capaz de reverter o estrago que ajudou a causar? Ou estamos fadados a assistir à inteligência tornar-se sua própria antítese, destruindo a civilização que prometeu melhorar? A resposta não está nas máquinas, mas em nós mesmos.

Caetano Veloso um camaleão da música universal,

Caetano Veloso é uma das figuras mais emblemáticas e influentes da cultura brasileira. Nascido em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, em ...