No município “mais bolsonarista” da Amazônia, a esquerda adota bandeiras da direita
A Agência Pública percorreu a BR-163, entre os estados de Mato Grosso e Pará, e o município de Novo Progresso é um dos locais dessa rota onde nossa equipe investigou como o tema das mudanças climáticas e meio ambiente foi discutido nas eleições municipais. A região é extremamente marcada por fogo, conflitos e desmatamento, com cidades que registram grande adesão ao bolsonarismo.
Nesse cenário, a esquerda tornou-se tão inexpressiva em Novo Progresso que o prefeito candidato à reeleição Gelson Dill é do MDB, mas não aceitou fazer uma coligação com o PT. Em outras cidades do Pará ao longo da BR-163, como Santarém (PA), o PT de lideranças regionais como os deputados federais Zé Geraldo e Airton Faleiro e o MDB do governador Helder Barbalho integraram uma mesma frente eleitoral. Mas não em Novo Progresso.
Presidente municipal do PT defende redução de Floresta Nacional
O PT é presidido no município por um empresário dono de posto de gasolina que se filiou ao partido há apenas cinco meses, embora diga que foi “um dos fundadores” da sigla no município. Aldecir Nardino é um personagem capaz de dar um nó na cabeça do analista que pretenda compreender o cenário político na região à luz de uma divisão entre esquerda e direita. Ele tem exatamente o mesmo discurso do prefeito Dill, da direita e do agronegócio.
O sonho de Nardino é que o governo Lula “regularize” as ocupações na Flona do Jamanxim ou, ainda melhor, que vá além e reduza os limites da floresta. É a mesma tentativa prevista em um decreto encaminhado em 2017 ao Congresso Nacional pelo então presidente Michel Temer (nº 8.107/2017). A direita na região também sonha com a aprovação desse projeto.
O próprio Nardino disse que já teve “um lote de 2,5 mil hectares” dentro da Flona, mas que teve que deixá-lo para vir trabalhar na cidade. Quando foi criada em 2006, durante o primeiro governo Lula a partir de gestões da então ministra do Meio Ambiente Marina Silva, a Flona aceitava a presença de famílias que já estivessem nela. Com o tempo, contudo, essa ocupação se ampliou para níveis alarmantes. O governo hoje estima que 180 mil cabeças de gado estejam sendo criadas dentro da floresta.
Nardino afirma que estava entre as primeiras famílias antes da Flona e que, por isso, quer “regularizar” seu lote. É a mesma expectativa de muitas outras famílias, disse o presidente municipal do PT.
“[Estamos] aguardando o governo que nos dê alguma coisa em troca, outra propriedade, ou que a Flona seja, vamos dizer assim, dividida com quem de 2008 para cá, que esteja morando lá até 2008. […] Estamos aguardando o que o governo vai fazer, a ministra do Meio Ambiente juntamente com as autoridades, os deputados que estão muito trabalhando para tentar resolver, que é o Airton Faleiro, o Zé Geraldo, vice-presidente do PT nacional, e os deputados também do MDB e de outros partidos também estão lutando para que seja uma realidade. Que um dia a negociação da Flona diminua a área, e aí quem está lá de 2008 para cá, que é a lei que permite, ver o que vai acontecer, se vamos legalizar ou vamos ajudar com outra área para nós nos retirarmos.”
Nardino disse que “há mais de 40 anos” tem um lote de “12 mil hectares” em outra área protegida no Pará, esta pelo governo estadual, a Floresta Estadual (Flota) Iriri, com cerca de 440 mil hectares na vizinha Altamira. Nardino disse que ocupa uma vaga no conselho gestor da unidade de conservação e que trabalhou internamente para que a entidade já aprovasse uma “desafetação”, isto é, a alteração de uma classificação legal, de “uma faixa de 30 km”.
“Fui conversando com eles. Entrei no meio das ONGs. Comecei a trabalhar. […] Fiquei com eles, dias e dias na amizade. Conversando. E conseguimos resolver. Deram 30 quilômetros. Vai ser publicado agora […]. Tem conselho, vota tudo certinho e vai pro governo. […] E é por isso que os caras tão respeitando eu aqui. Agora eu sou Deus pra eles. Não é mentira, não. Eu sou honrado por eles porque eu consegui resolver aquele negócio lá.”
A partir da “desafetação”, disse Nardino, madeira com uso comercial será retirada da floresta e revendida por Novo Progresso, gerando divisas para o município. E que também “vai ter área garimpeira”.
Candidato pelo PT disse que passou “uma adrenalina muito difícil”
Mas a realidade não é exatamente a mesma para outros militantes do PT no município. O ex-candidato a vereador Ceará Piranha, ou Antonio Sousa, 53 anos, mostrou à Pública como seu carro foi amassado na lateral, segundo ele por um soco, e rabiscado. Ele disse que passou a campanha toda exibindo uma estrela vermelha do PT no automóvel. Não chegou a ser diretamente ameaçado, mas eleitores de outros partidos vinham tirar satisfações ou fazer comentários negativos sobre ele ter escolhido o PT.
“Eu sou um cara que as pessoas me perseguem muito por estar nesse partido, né? […] Você sabe que o governo do PT mandou nesse Brasil por 16 anos e ninguém falava que esse governo era ruim. Nunca vi ninguém. Mas, de um certo tempo pra cá, depois que entrou esse outro governo [de Bolsonaro], criou uma discórdia no coração das pessoas muito grande, meu irmão. Pra sair candidato nesse partido, pela minha cidade, eu tenho passado uma adrenalina aí muito difícil, viu?”
Nascido em Camocim (CE), Ceará chegou ao Pará por volta de 1986. Primeiro foi trabalhar nos garimpos de Serra Pelada, onde viu acidentes terríveis, que disse que jamais esquecerá. Eram os soterramentos causados pelo desprendimento das bordas de terra dos barrancos.
“Vi morrer 30, 40 companheiros de uma vez não só num dia, mas num minuto mesmo. Havia lá barreiras a 250 metros de altura de onde a gente trabalhava. Quando aquilo caía, meu irmão, ali embaixo não tinha perdão. Era uma tragédia imensa.”
Por presenciar tantas mortes, Ceará foi “desgostando” da vida no garimpo e, depois de passar por outras cidades, fixou-se em Novo Progresso no início da década de 1990. Virou comerciante – daí vem o apelido “Piranha”, que era o peixe que ele pescava e revendia na cidade. Hoje toca uma mercearia no município.
Ceará disse que procurou falar, durante toda a campanha eleitoral, sobre os problemas ambientais do município. Disso ele não abre mão, assegurou.
Mydjere Mekrangnotire, o Kayapó que se lançou a vereador, já foi vice-presidente do Instituto Kabu, a principal organização indígena da região, e foi coordenador de educação indígena na Secretaria de Educação do governo do Pará.
Em 2020, Mydjere esteve à frente de um protesto que bloqueou a BR-163 a fim de denunciar o descumprimento de uma série de promessas feitas pelo governo aos indígenas como medidas de compensação pelo asfaltamento, nos anos 2000, da rodovia BR-163. Na ocasião, em carta à Funai, os Kayapó denunciaram: “Estamos aqui defendendo a proteção da Amazônia, a proteção do nosso território. O governo quer abrir as terras indígenas para projetos que são ilegais, como garimpo, extração de madeira e arrendamento de pasto em nossas terras. Isso nós não aceitamos”.
Mydjere é de uma geração de lideranças indígenas que tentam alertar os moradores de Novo Progresso para a necessidade da preservação ambiental e os riscos da emergência climática.

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