PESQUISA: Quanto menor a escolaridade, pior é a imagem da esquerda
Levantamento mostra que o nível de instrução formal interfere na percepção ideológica do brasileiro
O nível de instrução formal interfere na percepção ideológica do brasileiro. Quanto menor a escolaridade, mais deteriorada é a imagem da esquerda. Entre os cidadãos com ensino fundamental, a pesquisa da Ágora Consultores identificou que a maioria (52%) concorda com a afirmação de que “a esquerda quer sustentar vagabundos, e a direita promove o empreendedorismo, modernidade e eficiência”, enquanto 32% enxergam no campo progressista um foco no bem-estar social.
Esse cenário se inverte conforme o grau de estudo aumenta: entre os brasileiros com ensino superior, quase metade (47%) possui uma visão positiva da esquerda, e o estigma do assistencialismo cai para 31%.
Esse é um dos resultados da pesquisa nacional de opinião pública encomendada pelo ICL e realizada pela Ágora Consultores, que ouviu quase 10 mil pessoas das diferentes classes sociais. O levantamento foi realizado entre 17 e 23 de novembro de 2025 para conhecer o pensamento do brasileiro. As conclusões do trabalho estão sendo publicadas em primeira mão pela Revista Liberta.
De acordo com as análises qualitativas colhidas nos diversos segmentos sociais, esse distanciamento entre as bases menos instruídas e o pensamento de esquerda está alicerçado na convicção de que as políticas sociais são, na verdade, mecanismos de clientelismo e “bolsas esmola”. Para esses entrevistados, a esquerda promove a “legalização da compra de votos de quem tem baixa instrução”, criando o que chamam de “curral eleitoral” que mantém a população dependente da “esmola”.
No imaginário desse grupo, os programas sociais massivos são lidos como uma armadilha que “deixa a população preguiçosa” e freia o processo de geração de riqueza. A direita é associada aos valores de mérito, produção e eficiência, e o “empreendedorismo é visto como o motor do mundo” diante do “Estado que não gera nada”.
Essa clivagem educacional sugere que a esquerda brasileira enfrenta um problema de imagem junto às camadas que mais carecem de proteção social, mas que veem no Estado presente um aparato que “sustenta vagos”. Revela também um distanciamento da mudança social operada por programas como o Bolsa Família.
Estudos sobre os impactos de 20 anos do programa vão na direção contrária à percepção desse grupo formalmente pouco instruído. Em duas décadas, 64% das pessoas beneficiadas com a política saíram do Cadastro Único graças a ganhos de renda e 44% dos jovens e adultos conseguiram um emprego formal.
País dividido e altamente politizado
Outro dado surpreendente é a visão sobre política espraiada na população. Apesar da onda de despolitização que precedeu a ascensão da extrema direita no Executivo e Congresso em 2018, 55% dos brasileiros consideram importante e interessante se envolver com política e 36% disseram ser necessário, mas estressante. Somados, os dois grupos representam 91% da população brasileira.
Na análise das correntes ideológicas, no entanto, o país se apresenta dividido. Quando perguntados qual dessas frases mais representa sua visão de mundo, 42% escolheram “a esquerda quer sustentar vagabundos e a direita promove o empreendedorismo, a modernidade e a eficiência”, e 38% concordam que a “esquerda mira o futuro e o bem-estar da população, enquanto a direita protege os ricos e explora os pobres”. Os indecisos somaram 20%.
Segundo o cientista social Diego Villanueva, diretor da Ágora, a pesquisa revela uma direita muito mais coesa do que a esquerda em termos de valores, prioridades e modos de imaginar o mundo. “É possível perceber um conservadorismo de direita que opina mais ou menos o mesmo sempre, e há maiores diferenças na esquerda, entre uma de perfil mais cosmopolita e outra de classe popular”, descreve o cientista político. “Mas existe um terceiro bloco, que são os eleitores de centro, em que o Brasil se rompe e as opiniões variam conforme os expomos a diferentes situações. É este grupo que pode decidir uma eleição.”
As análises qualitativas indicam que estes grupos, identificados como “Centro em Dúvida e Contradição” e “Populares por Proteção e Ordem” são menos ideológicos, rejeitam o dilema esquerda-direita, desconfiam do sistema político e são, sobretudo, pragmáticos. “Essa é a sua característica mais importante: eles querem tudo para agora e têm uma postura individualista”, enfatiza Villanueva. “Entendem que existem processos de longo prazo, mas querem soluções para agora, para ele, para a sua família, para o seu bairro.”
Essas peculiaridades dos dois grupos de centro, que representam 26% e 13% da população brasileira, são chaves para entender a ascensão do bolsonarismo no Brasil. “O discurso de êxito individual da direita, de meritocracia, de soluções punitivas e mudanças radicais ganhou aderência nestes grupos que querem soluções imediatas”, descreve Villanueva. “Votam em Lula se a economia está bem. Mas se está mal, votarão naquele que priorizar questões de segurança ou algo que fale diretamente ao individual.”
O cientista político também destaca o enfraquecimento da ideia de que a esquerda é a corrente que promove mudanças sociais, agora mais associada à direita. “Com a ascensão da extrema direita, a esquerda passou a defender um status quo republicano e democrático”, analisa Villanueva. “Mas a visão majoritária é que esse status quo não estava funcionando direito, não propõe soluções novas, nem fala para mim. Eles se perguntam: ‘por que seguem defendendo o que não funciona?’”.
Essa reviravolta na visão pública indica uma necessidade de rever a comunicação pública, que passa por tangibilizar o que significa democracia e dar um caráter de urgência aos anseios sociais mais prementes, como o combate a privilégios.
O estudo consiste em uma pesquisa de opinião pública cujo universo abrange pessoas com 16 anos ou mais na República Federativa do Brasil, realizada por meio do Painel on-line da Ágora Consultores. Foi adotado um desenho amostral estratificado por Unidade da Federação (UF/Estado), com cotas populacionais conforme dados censitários e aplicação de cotas cruzadas por sexo, faixa etária e zona/área, assegurando consistência e equilíbrio na composição amostral. A amostra totalizou 9.497 entrevistas efetivas, com nível de confiança de 95% e margem de erro amostral de ±1,0 p.p. para distribuições simétricas.
Como etapa adicional de robustez, a base foi ponderada e calibrada por sexo, idade, escolaridade e áreas, e submetida a procedimentos de controle de qualidade e consistência, incluindo validações de respostas, identificação de duplicidades, checagens de coerência interna e análise de tempo de resposta.


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