segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025
SP: servidor que pediu investigação sobre armadilhas da dengue é removido do cargo
Auditor foi realocado após reportagem da Pública sobre falhas nas armadilhas. Servidores relatam pressão interna
Um dia depois de a Agência Pública mostrar que a Controladoria-Geral do Município (CGM) de São Paulo iniciou uma sindicância para apurar se armadilhas contra a dengue compradas pela prefeitura podem ter aumentado o número de casos na capital, o servidor responsável pelo pedido de investigação foi removido de sua função.
O Diário Oficial do município de 12 de fevereiro registrou que Aldo Lúcio Santillo, auditor municipal de Controle Interno, foi removido da Corregedoria-Geral do Município e realocado na Coordenadoria de Promoção da Integridade e Boas Práticas, um setor interno da CGM que não atua diretamente com sindicâncias.
A CGM é o órgão que apura possíveis casos de corrupção na gestão municipal, e Santillo foi o servidor responsável por analisar as suspeitas de irregularidades na compra das armadilhas, que vêm sendo reveladas pela Pública desde o ano passado.
Em dezembro de 2024, a CGM recebeu o prazo de 30 dias para informar ao Ministério Público (MP) de São Paulo se tomou providências sobre as suspeitas, que já haviam se tornado alvo de investigação na promotoria desde janeiro.
De acordo com servidores da CGM ouvidos pela reportagem em condição de anonimato, Santillo fez uma pré-apuração, encontrou materialidade nas denúncias e recomendou que elas fossem analisadas com mais profundidade em uma sindicância. Ele concluiu o parecer em 20 de dezembro. Nos dias seguintes, seus argumentos receberam aval do setor jurídico da CGM, da Corregedoria-Geral e, por fim, do controlador-geral do município, Daniel Falcão, em 22 de janeiro – o pontapé inicial para a investigação.
A Pública apurou com servidores que houve pressão interna para que o auditor fosse penalizado, depois da publicação da reportagem. Segundo as pessoas ouvidas, o prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP) teria ficado incomodado com o vazamento da sindicância para a imprensa.
Santillo foi procurado, mas não quis comentar. Seus colegas o descreveram como um servidor profissional e imparcial.
“A sindicância vai seguir, mas uma pressão dessas vindo pela chefia vai acabar impedindo uma apuração mais correta”, disse uma das pessoas ouvidas. “Acho que a atuação da Controladoria deveria ser o mais independente possível, e não é o que está ocorrendo”, completou.
Em nota, a CGM não confirmou se as investigações terão continuidade, mas informou que a movimentação do servidor foi “uma ação administrativa de rotina, visando melhor organização dos trabalhos”. “A Coordenadoria de Promoção da Integridade e Boas Práticas [para onde Santillo foi realocado] é uma área fundamental para a CGM e tem como principal atribuição promover a transparência pública e fomentar a participação da sociedade civil na prevenção da corrupção”, diz o texto.
Também em nota, a Secretaria de Saúde refutou que as armadilhas contra a dengue seriam ineficazes. O órgão disse que teria havido uma redução de cerca de 20% nos casos de dengue em áreas com as armadilhas se comparadas a outros territórios com características similares. Em 2025, ainda segundo o município, a queda teria sido de 32,6% nos primeiros 42 dias do ano. A secretaria, no entanto, não explicou como fez a medição dos números, quais foram as áreas analisadas e os critérios usados para comparação. A reportagem pediu duas vezes para ter acesso à íntegra dos dados, mas isso não ocorreu até a publicação desta reportagem.
Falhas nas armadilhas podem ter levado a aumento de mortes
De acordo com o relatório da CGM, o fato mais grave foi a falta de manutenção nas armadilhas, que deveria ocorrer a cada quatro semanas, segundo o fabricante, ou no máximo a cada três meses, de acordo com a Secretaria de Saúde. Mas dados da mesma secretaria mostram que a manutenção só aconteceu, em média, a cada sete meses – quando o veneno que deveria matar o mosquito da dengue já estava vencido há bastante tempo.
Com isso, as armadilhas, que deveriam contaminar os insetos e matar suas larvas, podem ter se tornado criadouros e aumentado a sua proliferação. O ano de 2024 foi o mais mortífero em casos de dengue na capital. Foram 522 óbitos no período, um aumento de mais de 5.000% em relação ao ano anterior – e muito superior a todos os outros da série histórica, que começa em 2007.
O esperado é que 2025 seja mais um ano epidêmico. Até o momento, houve uma morte confirmada no município, de uma menina de 11 anos. Ela não havia tomado a vacina, disponível para crianças de 10 a 14 anos em 1.932 municípios, entre eles São Paulo.
Vereador quer CPI sobre armadilhas da dengue em SP
O vereador Toninho Vespoli (PSOL) protocolou no último dia 14 um pedido para abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar “se as armadilhas contra o mosquito da dengue, em vez de combater sua proliferação, acabaram agravando a epidemia na cidade, uma vez que possível ineficácia dessas armadilhas pode ter exposto a população ao aumento expressivo de casos de dengue, colocando em risco a saúde pública e a integridade dos cidadãos”.
O requerimento tem, até agora, quatro assinaturas. Além de Vespoli, também assinaram Nabil Bonduki (PT), Amanda Paschoal (PSOL) e Silvia Ferraro, da Bancada Feminista (PSOL). O pedido precisa de 19 assinaturas para ser votado no plenário da Câmara Municipal.
O vereador acredita que deve conseguir o número necessário nos próximos dias, uma vez que os partidos de oposição na Casa (PT, PSOL, Rede e PSB) somam 18 integrantes.
O empresário que vendeu as armadilhas para a prefeitura, Marco Antônio Bertussi, é um velho conhecido de Ricardo Nunes. Os dois se conheceram antes de o prefeito entrar na política. Em 2007, fundaram juntos uma associação de empresas de controle de pragas. Quando era vereador, Nunes intermediou reuniões para o amigo na Secretaria de Saúde.
Em uma das reuniões, a prefeitura concordou em fazer um teste com as armadilhas. Os resultados foram inconclusivos – um primeiro estudo indicou que a redução de mosquitos foi em “níveis baixos”, e um segundo nunca teve resultados publicados. Ainda assim, o teste foi a justificativa da prefeitura para abrir a licitação, já com Nunes como prefeito, para comprar as armadilhas. A vencedora foi a Biovec, empresa de Bertussi.
Mas a participação do amigo de Nunes não se limitou a ganhar o contrato inicial de R$ 19 milhões – e que posteriormente ganhou outros aditivos, totalizando mais de R$ 40 milhões.
Na fase de pesquisa de preços da licitação, as três empresas que participaram tinham ligação com o empresário. Além da Biovec, também participaram a TN Santos, outra empresa de Bertussi, e a Biolive, uma empresa de Salvador ligada a um sócio de Bertussi.
A sindicância da CGM irá verificar se houve prática de corrupção contra a administração pública e prejuízo ao erário com a compra das armadilhas.
Enquanto isso...
Dengue: SP ultrapassa marca de 100 mortes; São José do Rio Preto terá ajuda federal
Há ainda 211 óbitos em investigação no estado de São Paulo
A dengue já matou 101 pessoas no estado de São Paulo em 2025, segundo dados registrados até o meio-dia de segunda-feira (17) no painel de indicadores da Secretaria Estadual da Saúde. Há ainda 211 óbitos em investigação.
Na última segunda-feira, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, informou que a pasta irá ajudar a fortalecer a rede de atendimento de São José do Rio Preto (SP), diante do alto índice de dengue no município. Segundo monitoramento do governo paulista, em 2025 foram confirmados 33.152 casos da doença e 34 óbitos na cidade.
“Estamos, a pedido do município, que concentra o maior número de casos do Brasil, apoiando a Rede de Atenção”, esclareceu a ministra, durante a inauguração da Unidade de Emergência Referenciada do Hospital São Paulo, da Escola Paulista de Medicina e da Escola Paulista de Enfermagem, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Araçatuba é outra localidade em situação crítica, com 15.125 casos confirmados e 11 mortes decorrentes da doença. Respectivamente, os dois municípios têm incidência de 1.926 e 1.988 a cada 100 mil habitantes.
Dengue em SP
Na capital paulista, foi registrada uma morte de uma menina de 11 anos morreu no dia 30 de janeiro e 18 óbitos permanecem em investigação. O estado registra, no total, 110.901 casos da doença e 80.290 em investigação. Na cidade de São Paulo, são 4.940 casos confirmados de dengue e 812 em investigação.
A incidência de dengue no estado, hoje em 249,5 por 100 mil habitantes, se aproxima da taxa que indica epidemia, quando ultrapassa os 300 casos por 100 mil habitantes.
O coeficiente de incidência é um critério do Ministério da Saúde para a classificação da doença que mostra o risco de os moradores ficarem doentes e a probabilidade de novas ocorrências. Para chegar a ele, basta multiplicar por 100 mil o número de casos novos e dividir o resultado pelo total da população na área em questão.
Na sexta (14), o Ministério da Saúde autorizou todos os estados e o Distrito Federal a ampliarem a vacinação. Doses que estiverem a dois meses do fim do prazo de validade poderão ser aplicadas em pessoas de 6 a 16 anos ou remanejadas para cidades que ainda não fazem a vacinação. Já as doses que estiverem a um mês do vencimento poderão ser aplicadas em pessoas que tenham entre 4 anos e 59 anos, 11 meses e 29 dias.
A Prefeitura de São Paulo afirma que não tem doses perto do vencimento e que, por isso, não vai alterar o público-alvo para a vacina, que são crianças e adolescentes com idade entre 10 e 14 anos.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
Para compreender o fascismo tardio
Crítico cultural italiano adverte: de pouco valem analogias com Hitler ou Mussolini. Ultradireita bebe nos métodos da dominação colonial e racista, ressurge sempre que a ordem do capital está em xeque e é convocada pelas democracias liberais…
No mundo contemporâneo, bombas destroem implacavelmente escolas, hospitais e suprimentos de água, expulsando pessoas de suas casas. Medidas de “austeridade” aprofundam os abismos econômicos globais, enquanto governos autoritários submetem os mais vulneráveis, pobres e desabrigados, à violência estatal e ao encarceramento. É um tempo, nas palavras escritas por Antonio Gramsci em uma prisão fascista um século atrás, em que “o velho mundo está morrendo e o novo não pode nascer”; em que os fracassos de uma antiga ordem político-econômica e os “sintomas mórbidos” dos Estados-nação imperiais assolados por crises de legitimação coexistem com alternativas emergentes que lutam para nascer. Ao redor do mundo, multidões vão às ruas para pedir um cessar-fogo em Gaza, protestar contra assassinatos policiais de homens e mulheres negros desarmados na América do Norte, exigir moradia para migrantes e o fim do encarceramento em massa, e proteger cursos d’água e terras da extração e da construção de oleodutos. O caos resultante do regime moribundo traz suas próprias atrocidades e novas formas de terror, mas também torna possíveis novas relações ainda não realizadas. Esses movimentos coletivos – atravessando diversas histórias coloniais e capitalistas, regiões e populações – compreendem condições diferenciadas, mas interligadas, de promessa e perigo que se unem neste momento histórico urgente e que parece às vezes incompreensível.
Leio o livro erudito, elegantemente pensado e pacientemente argumentado de Alberto Toscano, Late Fascism [Fascismo Tardio], como um esforço de nos oferecer os meios históricos e filosófico-políticos para compreender o fascismo em nosso tempo, ao ajustar as contas com o fascismo na longa duração. Como as linguagens políticas disponíveis estão saturadas por lógicas liberais, elas frequentemente velam e obstruem a compreensão do “presente político”. Contribuem para o reconhecimento equivocado do “fascismo” como espetacular e excepcional, em vez de integrante do casamento moderno entre democracia liberal e capitalismo. O Late Fascism de Toscano enfatiza que esse reconhecimento equivocado é um obstáculo primário para entender, organizar e lutar eficazmente contra as múltiplas contradições do nosso presente político.
Ao discutir a natureza e a etiologia do fascismo tardio, Toscano nos leva além dos exemplos europeus do período entre guerras do “tipo ideal” do fascismo e desconstrói a suposta oposição entre fascismo e democracia liberal. Enfatizando que o fascismo não é monolítico ou genérico, e não possui um modelo singular e estático para o qual possamos identificar analogias ao marcar uma lista de características, ele argumenta que devemos, em vez disso, abordar o fascismo como um processo com múltiplas origens, localidades e temporalidades, ocorrendo dinamicamente em relação a condições específicas. De certa forma (embora ele não se expresse exatamente assim), Toscano está argumentando que “o fascismo é uma estrutura, não um evento”, significando que ele não é uma aberração do período de guerra europeu, nem um estado natural original do qual emerge o antídoto da liberdade política liberal, mas sim uma característica persistente da história do liberalismo colonizador e do capitalismo colonial. A democracia liberal não é o antídoto do fascismo, mas sim sua condição de possibilidade. O governo fascista pode incluir, mas não se limita exclusivamente a, Estados autoritários ultranacionalistas. Dentro dos Estados liberais, ele anima a perda econômica e o abandono social, e armazena energias libidinais atávicas não resolvidas, liberadas pelas crises e crueldades da ordem social desigual, e as volta contra outros raciais, religiosos, sexuais e de gênero.
Toscano elabora ainda que podemos entender o fascismo como a constelação de formações reativas através de aparatos ideológicos e estatais, com o objetivo de manter ou sustentar uma ordem social em decadência. Ele não é separável dos colonialismos, mas sim intimamente interconectado tanto com o despossessão indígena histórica e contínua, quanto com o cativeiro e a escravidão nas plantations e a contrarrevolução; os fascismos se desdobram em oposição e em antecipação a rebeliões insurgentes que desafiam ou transformam o regime de propriedade existente, a partir dos povos, locais e regiões onde a ocupação e o governo tênue foram estabelecidos. Essa é a razão pela qual Toscano se baseia especialmente nas tradições radicais negras e anticoloniais para teorias incisivas sobre o fascismo — não apenas para evidenciar que reconhecemos mal o fascismo, se o limitarmos à Itália de Mussolini e à Alemanha de Hitler, mas também para argumentar que o fascismo é uma formação ancorada no capitalismo racial e colonial, que precede e persiste além do exemplo europeu. Entre as muitas contribuições valiosas do livro, é essa que abordo no restante dos meus comentários.
Pensadores anticoloniais têm sido os analistas mais incisivos dos fascismos. Em seu Discurso sobre o colonialismo, de 1950, o martinicano Aimé Césaire identificou as origens do fascismo no projeto de subjugação colonial ao afirmar que a Europa só conseguiu reconhecer a vergonha e a brutalidade da “humilhação do homem” quando empregadas pelos nazistas contra europeus brancos, algo que “até então havia sido reservado exclusivamente aos árabes da Argélia, aos coolies da Índia e aos negros da África”.1 Em Como a Europa subdesenvolveu a África, o guianês Walter Rodney escreveu que “o fascismo era um monstro nascido de pais capitalistas… o produto final de séculos de bestialidade capitalista, exploração, dominação e racismo exercidos fora da Europa”.2 O George Padmore, de Trinidad considerava o apartheid na África do Sul como o Estado fascista clássico, e o poeta afro-americano Langston Hughes frequentemente declarava que as condições enfrentadas pelos negros na América eram “fascistas”. Em outras palavras, antes que a violência nazista viesse a epitomar o fascismo, pensadores radicais negros já detalhavam fascismos associados à despossessão colonial e à escravidão racial.
Toscano invoca A Reconstrução Negra na América (1935), de W.E.B. Du Bois, como um texto-chave na análise do entrelaçamento entre fascismo e democracia liberal. Du Bois argumentou que a escravidão estava no cerne do capitalismo liberal moderno. A brutal mercantilização de seres humanos pela escravidão não apenas desmentia as reivindicações de democracia liberal dos EUA. A possibilidade de rebelião escrava também tinha a força para transformar o sistema de desigualdade racial violenta que tornava possível aos liberais falar em “liberdade universal”. Du Bois afirmou que a escravidão não era uma aberração da democracia liberal nos Estados Unidos; ela era, e continuou a ser, sistêmica e constitutiva da democracia norte-americana, e da extensão do poder dos Estados Unidos ao redor do mundo. O livro conta a história de meio milhão de trabalhadores negros que, por meio de seu êxodo massivo das plantations escravistas do sul, criaram um ambiente semelhante ao de greve geral. Ele paralisou o sistema de plantations, derrubou a Confederação e, forçou o Norte a assumir a abolição da escravidão como sua causa.
Mas A Reconstrução Negra acaba por relatar o que Du Bois chama de “contrarrevolução da propriedade”: o bloqueio da liberdade negra pela consolidação de uma aliança branca entre industriais do norte e oligarcas do sul, e a persuasão dos trabalhadores camponeses brancos a se afastarem de uma aliança inter-racial com os trabalhadores negros. A “contrarrevolução da propriedade” exemplificou precisamente uma formação fascista que sustentou o capital branco e a supremacia branca contra uma potencial “insurgência” que tinha o poder de acabar com a escravidão e o apartheid racial, e que poderia ter transformado uma ordem social construída sobre a acumulação por meio da subjugação de seres humanos cativos.
Toscano se concentra especialmente no que Cedric Robinson chamou de “construção negra do fascismo”. Ele mostra como teóricos sub-valorizados do fascismo norte-americano – desde os Panteras Negras no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, até os escritos e correspondências prisionais dos presos políticos Angela Davis e George Jackson. Ao fazê-lo, convida a repensar o debate teórico sobre o fascismo em relação à situação dos negros norte-americanos encarcerados sob o capitalismo racial. Como presos políticos, Davis e Jackson entendiam o fascismo como uma forma de contrarrevolução preventiva, usando estruturas carcerário-judiciais para suprimir ameaças percebidas à ordem social capitalista estruturada na dominação branca. Em outras palavras, os fascismos são sinais de crises do capitalismo racial e do excesso imperial, parasitando tanto as fraquezas da ordem político-econômica quanto a vulnerabilidade da oposição a ela. Toscano comenta que o fascismo é “reativo, não apenas em conteúdo social, mas em forma temporal – seja respondendo imediatamente a um potencial levante revolucionário triunfante ou, de forma mediada, a um desafio já derrotado ou em declínio”.3
Ao entender que o capitalismo é inerentemente instável, podemos observar que ele entra em crise quando a contradição entre acumulação e exploração atinge um nível insustentável, expresso como superprodução, diminuição dos lucros e desemprego, por um lado, e o aumento das desigualdades de riqueza, segregação racial e policiamento de comunidades pobres e não-brancas, por outro. Nos Estados Unidos, essas contradições produziram dialeticamente antagonismos ao longo dos anos 1970 que irromperam em movimentos radicais de Poder Negro, Pardo, Amarelo e Vermelho, greves trabalhistas, rebeliões urbanas e movimentos sociais, desde feministas negras até anti-apartheid e anti-guerra. A eles, o Estado respondeu com o aumento da capacidade militar, policial e prisional do Estado. Ruth Wilson Gilmore nos ensinou muito sobre como essas contradições levaram à expansão do sistema prisional dos EUA nos anos 1980. Para justificar a si mesmo e seu monopólio da força, o Estado trabalhou ideologicamente para compelir a identificação com a cidadania multicultural, e puniu aquelas “ameaças” à segurança nacional dessa cidadania ao distinguir entre o uso “legítimo” da força pela polícia e pelas forças armadas, e a violência “ilegítima” da dissidência e da rebelião.
Embora a expansão das funções repressivas do Estado tenha multiplicado os espaços em que as comunidades são tornadas vulneráveis à violência estatal, tal violência não se restringe apenas ao encarceramento, militarização ou policiamento. Comunidades racializadas pobres, imigrantes e anteriormente colonizadas têm sido devastadas pela privatização neoliberal, desregulamentação e extrativismo que protegem corporações e minam a proteção do trabalho e do meio ambiente indígena; pela suburbanização e vigilância direcionada de espaços sociais urbanos; e pelos pânicos morais em torno do “crime urbano”, imigrantes, mulheres negras e não-brancas e comunidades queer. Essas, também, são operações relacionadas e implicadas na expansão do Estado carcerário dos EUA.
Angela Davis e George Jackson, em seus escritos e correspondências prisionais, discutem a expansão do sistema prisional pelo Estado norte-americano como uma forma exemplar de fascismo, combinando capitalismo monopolista, imperialismo e crises capitalistas com a supressão contrarrevolucionária da dissidência política. Em Late Fascism, Toscano discute uma das cartas da prisão de George Jackson, em Blood in my Eye (1972). Jackson escreve:
Quando sou entrevistado por um membro da velha guarda e aponto para o concreto e o aço, o minúsculo dispositivo eletrônico de escuta escondido na ventilação, a falange de capangas espiando-nos, seu gravador de plástico disfuncional que custou uma semana de trabalho, e aponto que tudo isso são manifestações de fascismo, ele invariavelmente tenta me refutar definindo o fascismo simplesmente como um assunto econômico-geopolítico onde se permite que apenas um partido exista e nenhuma atividade de oposição é permitida.4
Jackson identifica a prisão como um aparato do fascismo a partir da perspectiva de um prisioneiro político negro acusado de atividade revolucionária armada, e logo em seguida assassinado por guardas prisionais. Como prisioneiro político negro, enquadrado como “ameaça” insurgente ao monopólio da força do Estado, Jackson escreve de forma transparente sobre a formação contrarrevolucionária do fascismo e enfatiza a materialidade do complexo industrial prisional, desde as tecnologias de vigilância até o trabalho desvalorizado do pessoal prisional. Jackson está comentando sobre o fascismo como o que Gilmore mais tarde chamaria de “reestruturação do Estado capitalista” enquanto ele tenta avançar mas fracassa. Gilmore enfatiza que a “solução prisional” do Estado racial americano do pós-guerra para o fracasso do capitalismo não é um fenômeno isolado. As decisões de construir prisões que encarceram desproporcionalmente homens e mulheres negros – e de investir em punição industrial, policiamento e militarismo em vez de bem-estar público, saúde ou escolas – foram centrais para uma reorganização estrutural do “cenário de acumulação e despossessão” do pós-guerra. Como observa Toscano, o fascismo não é apenas uma reestruturação contrarrevolucionária do Estado capitalista. Também é uma ação incipiente e antecipatória contra um acerto de contas adiado, suprimido ou em curso.
Alberto Toscano é um dos teóricos políticos mais significativos e originais da atualidade. Em Fascismo Tardio, ele lida com um vasto espectro do pensamento antifascista: de Ernst Bloch, George Bataille e Leo Lowenthal a Angela Davis e George Jackson; de Stuart Hall e Ruth Wilson Gilmore a Jairus Banerji e Furio Jesi. Os resultados são reveladores. Ao retratar o fascismo não como um monolito, mas como uma gama de respostas à crise colonial e capitalista racial, ele ajuda a desalojar o fascismo do impasse da analogia, fornecendo os recursos para entender efetivamente nosso presente histórico. Além disso, o exame de Toscano sobre a longa duração do fascismo refere-se à colonialidade do presente. Nas palavras de Cedric Robinson, ele “ressuscita eventos que foram sistematicamente apagados de nossa consciência intelectual”,5 e nos permite entender nossas condições presentes de uma nova maneira.
Notas:
1 Discurso sobre o colonialismo, Monthly Review Press, 1955/1972.
2 Walter Rodney, Como a Europa subdesenvolveu a África, Verso Books, 1972/2018.
3 Toscano, p34.
4 George Jackson, Sangue em Meu Olho, citado em Toscano.
5 Cedric Robinson, Uma Antropologia do Marxismo, Ashgate, 2001.
Por Lisa Lowe, no Verso Books | Tradução: Antonio Martins
As demissões em massa e a substituição de funcionários públicos por inteligência artificial nos EUA afetarão o Brasil e os BRICS?
As demissões em massa impostas pelo governo n4zi$ta de El0n Mu$k e Trump nos EUA, que resultaram na exclusão de pelo menos 10 mil servidores federais em uma semana, não são apenas uma questão interna, mas um processo com impactos globais. Essas vagas de trabalhadoras e trabalhadores humanos estão sendo substituídas por robôs ou sistemas automatizados com inteligência artificial (IA), como parte de uma estratégia que visa consolidar o controle político, cultural, social e econômico de forma autoritária, inclusive, ultrapassando as fronteiras dos EUA.
O projeto dos EUA de substituir o trabalho humano por agentes de inteligência artificial empurra o mundo nessa direção. Países que não adotarem essas tecnologias ficarão para trás, enquanto aqueles que dependerem das soluções oferecidas pelas big techs estadunidenses estarão sob seu controle. Por outro lado, nações que adotarem tecnologias pouco seguras poderão se tornar alvos fáceis de invasões cibernéticas. Essa situação terá reflexos profundos no Brasil e em outros países que não conseguirem construir sua soberania digital, no contexto das disputas geopolíticas e das relações de poder global.
Trump busca, com essas demissões, eliminar do serviço público aqueles que discordam de suas ideias, construindo seu domínio absoluto sobre o Estado. Isso aumentará seu poder dentro e fora dos EUA, além de reduzir a diversidade de opiniões e garantir que apenas indivíduos alinhados ao seu governo ocupem posições estratégicas no Estado. A centralização da gestão por meio de IA permite o monitoramento de todas as atividades governamentais, facilitando a eliminação de tudo aquilo com que Trump e El0n Mu$k discordarem. Esse modelo de gestão totalitária será exportado para países aliados dos EUA, onde governos próximos também poderão adotar práticas semelhantes para fortalecer seu controle interno.
A divisão global entre os países alinhados ao BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e aqueles subordinados aos EUA torna-se cada vez mais nítida. Diante do avanço dos BRICS e da crescente desdolarização da economia mundial, Trump e seus aliados buscam acelerar uma nova guerra global semelhante à Guerra Fria, desta vez centrada em uma disputa tecnológica que divide o mundo em dois polos: de um lado, os BRICS, e do outro, os EUA e seus aliados.
Os EUA estão determinados a recuperar o seu poder de controle global a qualquer custo. Para isso, estão construindo um modelo de governança autoritário baseado na inteligência artificial (IA) de vigilância. Os países alinhados aos EUA serão pressionados a adotar tecnologias de IA das empresas estadunidenses para ampliar o controle absoluto sobre o setor público. Essas ferramentas não apenas facilitam uma gestão centralizada, como também reforçam a influência dos EUA nas decisões internas dessas nações, consolidando sua hegemonia política e econômica.
Além disso, os agentes de IA de atendimento serão utilizados para ampliar a capacidade de controle e manipulação das subjetividades. Através das tecnologias da Apple, Google, Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp), Amazon, X (antigo Twitter) e Microsoft, os EUA podem interagir diretamente com cidadãos de países do BRICS, incluindo o Brasil. Isso aumentará a capacidade do governo autoritário dos EUA de interferir nas políticas nacionais desses países, promovendo conteúdos que favoreçam seus interesses e reduzindo o alcance de notícias sobre fatos e análises críticas. Eles também poderão controlar serviços de atendimento estrangeiros dentro de cada país aliado ou adversário. Essa estratégia de manipulação já é uma realidade global e pode ser intensificada no Brasil, onde a polarização política e a dependência de redes sociais criam um ambiente propício para tais intervenções.
O recente episódio em que o Google enviou alertas falsos para cidadãs e cidadãos brasileiros sobre um terremoto que não ocorreu, bem como a desinformação disseminada por El0n Mu$k para promover manifestações contra o presidente Lula, são exemplos recentes do tipo de manipulação que está sendo produzida. O pior de tudo é que o Brasil ainda não sabe como se proteger disso.
Por isso, é fundamental que possamos avaliar criticamente essas tendências e buscar alternativas que priorizem a soberania brasileira, que inevitavelmente passa pela soberania tecnológica.
Por Everton Rodrigues: Movimento Software Livre e Economia Solidária
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